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Pode o amor táctil de uma vida caber num leilão?

D.R.

Biblioteca catalogada do primeiro reitor da Universidade de Évora, professor Ário de Azevedo, será leiloada este sábado, no Porto. O espólio abarca verdadeiras raridades, publicadas entre o séc.XVI e o séc.XX, com uma incomensurável amplitude temática

André Manuel Correia

Herculano e a filha Mariana abrem o portão do armazém. Ligam as luzes. Podemos ver. Podemos entrar. Já no interior do espaço, alguns passos são suficientes para nos depararmos com dezenas de caixas de cartão, outrora utilizadas para transportar bananas. Agora, a serventia é outra. São ideais para guardar e levar até outro lugar produtos que devem ser manuseados com todo o cuidado. Estamos na rota do colecionismo literário e, subitamente, a nossa atenção é transviada. Diante dos nossos olhos, insurgem-se corredores estreitos e sombrios, como universos paralelos repletos de livros. Ali repousam, pousadas nas imponentes e elevadas estantes, milhares de obras. Quantas são? “200 mil”, arrisca a Mariana. Autênticas raridades, aguardando pelas mãos certas.

Mais de quatro centenas desses livros compõem a coleção da antiga e diversificada biblioteca privada do professor Ário Lobo de Azevedo, primeiro reitor da Universidade de Évora, função que desempenhou entre 1974 e 1987. Nasceu em 1921, na cidade Lourenço Marques (atual Maputo), em Moçambique. O pai sonhou vê-lo como escriturário, mas foi como engenheiro agrónomo que se licenciou. Anos mais tarde, tornou-se no principal obreiro da refundação da Universidade de Évora, encerrada por ordem do Marquês de Pombal em 1759, após a expulsão dos jesuítas. Ário Azevedo faleceu a 3 de agosto de 2015, aos 93 anos. Ficaram os muitos livros: a paixão táctil de uma vida.

A biblioteca perdeu o seu dono. Contudo, não ficou esquecida. Foi catalogada e prepara-se para ser leiloada este sábado. O espólio abarca obras publicadas entre o séc. XVI e o fulgor modernista da primeira metade do séc.XX, no qual se incluem áreas temáticas tão diversas como silvicultura ou filologia, marinharia e descobrimentos, cartografia ou numismática, códices medievais e também literatura portuguesa. Conhecer uma biblioteca é iniciar uma viagem no tempo e esta leva-nos a navegar também por latitudes do conhecimento como a viticultura (onde se evidencia a obra “Portugal Vinícola”, compêndio de Cincinato da Costa, editado em 1900), a história militar, a arqueologia, a cartografia e o colonialismo.

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Todos os livros da catalogada biblioteca de Ário de Azevedo estão prontos para ser colocados no interior das caixas de papelão. As mesmas que outrora acomodaram gentilmente bananas e agora vão transportar os 456 livros em catálogo para a Junta de Freguesia do Bonfim, onde estarão em exposição diante dos olhares curiosos dos possíveis interessados durante esta quinta e sexta-feira, para depois as licitações terem início, no sábado, a partir das 15h.

Um homem espelhado na sua biblioteca

Herculano é um alfarrabista. Mais do que isso, aos 59 anos é um autêntico apaixonado pelos livros, um bibliófilo, profundo conhecedor de cada exemplar que folheia meticulosamente. Mariana, com 29, segue-lhe as pisadas e auxilia o pai na gestão a Livraria Manuel Ferreira, localizada na rua Doutor Alves da Veiga, no Porto, fundada em 1959 e especializada na comercialização de livros raros e antigos. “Um dos prazeres que eu tenho quando organizo uma biblioteca privada é perceber qual é a unidade. Interessa-me perceber quem foi a pessoa que a colecionou”, conta o especialista livreiro e responsável pela organização do leilão ao Expresso.

E para conhecer Ário de Azevedo, nada melhor do que ir ao encontro dos seus livros, porque um homem é feito também pelos seus interesses. Desde um exemplar da primeira edição da obra “Mensagem” (1934), de Fernando Pessoa, até ao “Tratado Theorico e Prático Sobre a Maneira de Construir Fogões de Sala Económicos e Salubres” (1843), é possível encontrar um pouco de tudo. Continuamos esta odisseia bibliográfica através dos corredores e encontramos a obra “Arii Pineli Lusitani” – a mais antiga do catálogo, datada de 1586 –, da autoria do humanista português Aires Pinhel, com impressão em Veneza.

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Realce também para o “Thesouro de Prudentes”, um exemplar com edição que remete para o ano de 1700 e que se acredita ser um dos primeiros livros no mundo dedicados ao ilusionismo. Entre tantas obras para ler e conhecer, está, com a encadernação já cansada, o “Diccionario da Linguagem das Flores” (1888), numa singular edição ilustrada com oito litografias aguareladas.

Numa reprodução elegantemente fac-similada, a cargo do editor espanhol Manuel Moleiro, temos a oportunidade de folhear o códice quinhentista “El Libro del Golf”, de Simon Bening (1483-1561). Trata-se de um manual repleto de iluminuras com corantes naturais e adornada com materiais nobres como ouro e prata, no qual é possível contemplar gravuras que ilustram episódios do quotidiano do séc.XVI, como cenas de caça, falcoaria, jogos populares, vindimas, as matanças do porco e do boi, entre outros exemplos.

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A roleta dos livros

As possibilidades são inúmeras. E para todas as carteiras, com preços-base que podem oscilar entre os 40 e os 2000 euros. Tal como na bolsa de valores, tudo dependerá dos comportamentos dos arrematantes e da dinâmica competitiva da sala. Os preços, num leilão, são tão imprevisíveis como na roleta de um mercado económico, frisa Herculano Ferreira, responsável pela catalogação da biblioteca. “O catálogo de um leilão é sempre uma seleção de uma biblioteca e uma biblioteca é sempre feita de muitos livros. Para fazer um leilão, é necessário selecionar”, explica o livreiro, acrescentando que vão a hasta os “livros mais caros, raros e procurados” da biblioteca privada do antigo reitor Ário de Azevedo, passíveis de aguçar o interesse a professores e investigadores, acredita Herculano.

O preço de um livro obedece a vários critérios, como o estado de conservação, a encadernação e a sua qualidade, o facto de uma obra ter mercado ou não, entre muitas circunstâncias que podem influenciar a cotação de um exemplar. “O valor é uma variável e num leilão isso ainda mais se acentua. Pode-se comprar muito bem ou fazer autênticos disparates”, explica Herculano. É por isso mesmo que dá sempre o mesmo conselho aos potenciais compradores. “Pensem bem, vejam bem os livros…”. “Não se emocionem”, completa Mariana.

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Para Herculano Ferreira, ter a possibilidade de organizar e catalogar esta biblioteca foi uma oportunidade de aprender sobre as mais diversas áreas do conhecimento, mas também, inevitavelmente, sobre a personalidade que colecionou todos aqueles livros. “Eram homens de uma outra geração, com mais tempo. Não estavam agarrados a todos estes novos meios de comunicação que ocupam as entranhas. Tinham tempo para fruir as coisas que eles próprios construíam. Uma biblioteca é algo que se constrói com método e paciência”, sustenta o proprietário da livraria.

Quando lhe perguntamos o valor total que este leilão poderá atingir, responde-nos que não sabe. E, de resto, não se preocupa muito com isso. “Para mim, é pouco importante o valor. Atualmente, andamos muito viciados a fazer contas”, denota. O importante, afirma, é que os livros vão parar a boas mãos e que, dessa forma, o legado intelectual de Ário de Azevedo não fique condenado ao esquecimento, porque “livros cerrados não fazem letrados”. É esse o provérbio que serve de lema na Livraria Manuel Ferreira: um espaço de bibliófilos para bibliófilos.