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Um ano muito pouco comum

No mundo em geral, e na cultura pop em particular, 1967 foi um daqueles anos de viragem e rutura que não deixaria pedra sobre pedra. Com uma nova reedição de “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” a chegar às lojas esta sexta-feira, 26 de maio, assinalando os seus 50 anos, recuperámos uma série de artigos sobre o 'annus mirabilis', que fez a capa do caderno de cultura do Expresso de 2 de junho de 2007, incluindo uma remontagem da capa de “Sgt. Pepper's” com os rostos dos protagonistas desta história. No artigo conta-se quem são

De acordo com o calendário gregoriano, 1967 foi um 'ano comum'. Isto é, um ano não bissexto, de 365 dias. Mas não atribuamos demasiadas responsabilidades ao Papa Gregório XIII que, a 18 de janeiro de 1582, o promulgou para substituir o anterior calendário juliano: nem através de ligação direta ao Grande Arquitecto do Universo poderia ele ter previsto a dimensão exata pela qual o ano em que John Coltrane, Che Guevara, Woody Guthrie e René Magritte morreram e Kurt Cobain, Julia Roberts, Nicole Kidman e Noel Gallagher nasceram foi tudo menos um ano comum.

No mundo, em geral, e na cultura pop, em particular, 1967 foi, indiscutivelmente, um daqueles anos de viragem e rutura que não deixaria pedra sobre pedra do que para trás ficara e que marcaria irremediavelmente as quatro décadas que, até hoje, se lhe seguiram.

Porque é impossível não o referir, recorde-se já que foi em 1967 que, a 1 de junho, os Beatles publicaram “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”. Enquanto marco simbólico do ano e da era, a sua importância permanece, mas deve também adiantar-se que, no âmbito mais restrito da sua ressonância na cultura pop posterior, já viu bem melhores dias: não só todo o resto que os Beatles editaram no mesmo período de doze meses — os singles 'Penny Lane'/'Strawberry Fields Forever', 'All You Need Is Love'/'Baby You're a Rich Man' e 'Hello Goodbye'/'I Am the Walrus' e o duplo EP “Magical Mystery Tour” — é francamente mais rico e interessante como, em sucessivas votações dos 'all time best' (na última, do número de junho da “Mojo”, para “os 100 discos que mudaram o mundo”, ficou-se por um modesto 16º lugar), tem vindo, aceleradamente, a ver a sua cotação desvalorizada relativamente a diversos outros concorrentes e até face a outras gravações da banda de Lennon e McCartney como “Revolver”, ou mesmo (na recentíssima da “Mojo”) ao single de 1963, 'I Want To Hold Your Hand' (um honroso segundo lugar atrás de 'Tutti Frutti', de Little Richard).

As oscilações do gosto terão a sua própria lógica, mas a verdade é que, num ano em que — política, social e culturalmente — aconteceu incomparavelmente mais do que em muitas décadas, escolher um único objeto/figura emblemáticos não andaria muito longe de confiar no acaso de um lançamento de dados. Tomem, então, nota:

Os músicos e/ou grupos cujos rostos aparecerem por trás dos The Beatles na remontagem da capa de “Sgt. Pepper's”

Os músicos e/ou grupos cujos rostos aparecerem por trás dos The Beatles na remontagem da capa de “Sgt. Pepper's”

1. Álbuns de estreia pop/folk/rock

“The Velvet Underground & Nico”, seguido, também em 1967, de “White Light/White Heat”; “The Songs of Leonard Cohen”; “The Doors” (e, no final do ano, “Strange Days”); “The Piper at the Gates of Dawn”, dos Pink Floyd; “Safe as Milk”, de Captain Beefheart; “Are You Experienced?”, da Jimi Hendrix Experience (e ainda “Axis: Bold as Love”); “Mr. Fantasy”, dos Traffic; “The Grateful Dead”; “Buffalo Springfield” (Neil Young+Stephen Stills) e (sobretudo), no outono, “Buffalo Springfield Again”; “Chelsea Girl”, de Nico; “David Bowie”; “Surrealistic Pillow”, dos Jefferson Airplane, antecedendo “After Bathing at Baxter's”; “Moby Grape”; “Blowin' Your Mind”, de Van Morrison; “Electric Music for the Mind and Body”, de Country Joe & The Fish (que publicariam também “I Feel Like I'm Fixin' to Die”); “The Thoughts of Emerlist Davjack”, dos Nice (casulo de Keith Emerson, futuramente Emerson, Lake & Palmer); “H. P. Lovecraft”; “Big Brother & The Holding Company” (voz Janis Joplin).

2. Obras-primas avulsas, objetos de culto e sementes de futuro

“Goodbye and Hello”, de Tim Buckley; “Forever Changes” e “Da Capo”, dos Love; “Pleasures of the Harbor”, de Phil Ochs; “Absolutely Free”, dos Mothers of Invention; “5000 Spirits or the Layers of the Onion”, da Incredible String Band; “Days of Future Passed”, dos Moody Blues; “The Who Sell Out”; “Something Else by the Kinks”; “Between the Buttons” e “Their Satanic Majesties Request”, dos Rolling Stones; “Walk Away Renee/Pretty Ballerina”, dos Left Banke; “Ptoof”, dos Deviants; “Tenderness Junction”, dos Fugs; “Tangerine Dream”, dos Kaleidoscope; “Mass In F Minor”, dos Electric Prunes; “Younger than Yesterday”, dos Byrds; “Disraeli Gears”, dos Cream (Eric Clapton+Jack Bruce+Ginger Baker); “John Wesley Harding”, de Bob Dylan; “Easter Everywhere”, dos 13th Floor Elevators.

Que outro ano, anterior ou posterior, se poderá gabar de ter fundado uma mão-cheia de géneros musicais (o psicadelismo dos Pink Floyd, Grateful Dead, Country Joe & The Fish, Kaleidoscope, Traffic, Fugs, H. P. Lovecraft, Jefferson Airplane ou de 'Their Satanic Majesties'; o rock-sinfónico/progressivo dos Nice ou Moody Blues; o 'noise', com “White Light/White Heat”; os blues 'cósmicos' de Jimi Hendrix, Big Brother ou Cream — ainda que, aqui, haja que reconhecer os antecedentes dos Yardbirds; as incursões pelos idiomas clássico, da vanguarda contemporânea/eletrónica e das músicas orientais dos Electric Prunes, Tim Buckley, Nico, Incredible String Band, Love, Frank Zappa/Mothers of Invention, Phil Ochs e dos próprios Beatles que, já em “Revolver”, por aí haviam deambulado; a ópera-rock com “The Who Sell Out”), de ter revelado (ou confirmado, ao segundo álbum) figuras que marcariam indelevelmente a pop até hoje — Lou Reed, John Cale, Van Morrison, Neil Young, Jimi Hendrix, Nico, David Bowie, Tim Buckley, Leonard Cohen, Frank Zappa, Captain Beefheart — e, de um modo geral, ter participado intensamente nas convulsões que, daí em diante (e o Maio francês estava apenas a um ano de distância), virariam o século XX do avesso? A música aspirava o espírito do tempo e, ao expirá-lo, acelerava a rotação do mundo.

De facto, o ano em que, logo a 2 de janeiro, Charlie Chaplin estreava o seu último filme (“A Condessa de Hong Kong”) e que, a 19 de dezembro, ouviria o professor John Wheeler formular, pela primeira vez, o conceito de “buraco negro”, foi um período de movimentos e eventos contraditórios: se a Guerra dos Seis Dias (entre 5 e 10 de junho) incendiava irreversivelmente o Médio Oriente, o golpe de estado 'dos coronéis', na Grécia, instalava mais uma ditadura europeia e o general Westmoreland garantia que a vitória americana no Vietname era certa, o “Gathering of the Tribes for a Human Be-In” que, a 14 de janeiro, reunia 30 mil pessoas no Golden Gate Park de São Francisco, fazia convergir para um mesmo lugar as várias sensibilidades heterodoxas da época (ecologistas, velhos beatnicks, feministas, novos hippies, anarco-freaks, militantes anti-Vietname, contestatários estudantis, ativistas anti-segregacionistas, radicais de esquerda, gurus místicos e apóstolos lisérgicos), dava a palavra a oradores como Allen Ginsberg, Jerry Rubin e Timothy Leary (que lançaria o mote do ano com o seu famoso “Turn on, tune in, drop out” aparentemente 'soprado' por Marshall McLuhan, enquanto o 'underground chemist' Owsley Stanley abastecia generosamente as massas com LSD — ilegalizado desde 16 de outubro de 1966 — especialmente sintetizado para a ocasião), oferecia o palco aos Jefferson Airplane, Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service e, acima de tudo, anunciava o Summer of Love que, meses depois, faria convergir para o distrito de Haight-Ashbury, Berkeley e a baía de São Francisco mais de 100 mil 'flower children' em busca de 'amor livre', comunitarismo, transcendência e bucolismo utópicos 'à la' Thoreau, êxtases químicos instantâneos e toda a parafernália cultural e filosófica que estaria na raiz da New Age e da contracultura 'underground'.

No entanto, a 15 de janeiro, um dia depois do “Human Be-In”, no Ed Sullivan Show, os Rolling Stones, a bem da moral e dos bons costumes, seriam forçados a cantar “Let's spend some time together” em vez do “Let's spend the night together” original e, um mês mais tarde, Mick Jagger e Keith Richards veriam a polícia londrina invadir-lhes uma festa privada e acusá-los de consumo e posse de drogas, pelo que, a 29 de junho, acabariam mesmo por serem presos. Foi, sem dúvida, um ano em que manter-se a par das notícias não terá sido fácil: no mesmo dia em que as 'tribos' se congregavam no Golden Gate Park, o “New York Times” revelava que o Exército americano realizava experiências em matéria de guerra biológica; a 1 de março, a Revolução Cultural chinesa terminava com o regresso dos Guardas Vermelhos à escola, oito dias antes de Svetlana Alliluyeva, filha de Estaline, fugir para os EUA e, no penúltimo dia do mês, de os Beatles serem fotografados para a lendária capa de “Sgt. Pepper's”, uma semana antes de levantar voo o primeiro Boeing 737 (a 11 de dezembro, seria o batismo de voo do Concorde). Outra linha de acontecimentos decorria paralelamente: a 28 de abril, Cassius Clay/Muhammad Ali recusa combater no Exército dos EUA, e embora, a 12 de junho, o Supremo Tribunal de Justiça norte-americano (do qual, a 30 de agosto, Thurgood Marshall seria o primeiro membro afro-americano) tenha declarado inconstitucionais todas as leis que proibiam os casamentos inter-raciais, isso não impediu que, a 15 de julho — dois dias antes da morte de John Coltrane —, expludam violentos motins raciais em Detroit (43 mortos, 342 feridos, 1400 edifícios incendiados), que alastraram a Nova Iorque, Washington DC e Alabama, e, a 21 de setembro (quatro dias depois da estreia do musical hippie, “Hair”), dezenas de milhares marcharam sobre Washington contra a guerra do Vietname enquanto Allen Ginsberg entoava mantras com o objetivo de “fazer levitar o Pentágono”.

A atmosfera cultural do Verão do Amor (que, na edição de 7 de julho da “Time”, a 'cover story', intitulada “The Hippies: The Philosophy of a Subculture”, descrevia como “faz o que te apetece, onde quer que o tenhas de fazer e fá-lo quando quiseres. Sai fora. Abandona a sociedade tal como a conheces. Abandona-a por completo. Assombra o espírito de todas as pessoas normais que possas encontrar. Converte-os. Se não às drogas, pelo menos à beleza, ao amor, à honestidade e à alegria”), seria, entretanto, perfeitamente caracterizada pelo Monterey Pop Festival — de 16 a 18 de junho, 200 mil participantes e o primeiro festival pop/folk/rock, ao ar livre e gratuito —, na Califórnia, no qual atuaram Jimi Hendrix, The Who, The Byrds, Jefferson Airplane, Ravi Shankar, Hugh Masekela, The Grateful Dead, Janis Joplin com os Big Brother & The Holding Company, The Association, Buffalo Springfield, Country Joe & The Fish, Moby Grape, Quicksilver Messenger Service, Laura Nyro, Canned Heat, Simon & Garfunkel, The Paul Butterfield Blues Band, The Steve Miller Band, os Blues Project e Otis Redding, que morreria a 10 de dezembro, num acidente de avião. Não foi a única baixa do universo cultural a lamentar: entre maio e agosto, juntar-se-lhe-iam Edward Hopper, Vivien Leigh, Jayne Mansfield, o poeta Carl Sandburg, o dramaturgo Joe Orton, René Magritte, o manager dos Beatles, Brian Epstein, e Woody Guthrie. Tragédia de enorme dimensão foram as cheias de Lisboa, a 26 de novembro, com 462 vítimas mortais, que se somariam às das guerras coloniais em curso, às do Vietname ou às decorrentes do abate pela República Popular da China de dois aviões norte-americanos que teriam violado o seu espaço aéreo.

Mas, mais visível ou invisivelmente, havia forças várias em movimento: a 26 de junho (um dia antes de, em Enfield, no Reino Unido, o Barclays Bank abrir a primeira caixa Multibanco), Karol Wojtyla — futuro João Paulo II — é ordenado cardeal e, pela mesma altura, Lech Walesa começa a trabalhar como eletricista, nos estaleiros Lenine, de Gdansk; a 4 de Julho, o Parlamento britânico descriminaliza a homossexualidade, Antony Hewish e Jocelyn Bell Burnell, da Universidade de Cambridge, descobrem o primeiro pulsar e, no final do ano (que se iniciara com a morte de Jack Ruby, assassino de Lee Harvey Oswald, putativo assassino de John Kennedy), Christiaan Barnard realiza, na Cidade do Cabo, na África do Sul, o primeiro transplante cardíaco. O 'zeitgeist' da era impulsionaria, ainda Ralph J. Gleason e Jann Wenner a fundar a “Rolling Stone” (para onde Greil Marcus — salário: 30 dólares por semana —, Hunter S. Thompson ou Lester Bangs escreveriam), sobrevivente única de 'rock magazines' históricos como a “Crawdaddy!” e a “CREEM”. Muitos anos mais tarde, refletindo sobre a atmosfera desses anos, um dos seus alegados heróis, Leonard Cohen, diria: “Os hippies não me interessaram especialmente. Em particular, quando começaram a poluir os rios e a deixar lixo por todo o lado, quando iam para o campo adorar Deus e a Natureza. Eram péssimos campistas! Eu, que fui escuteiro, posso dizê-lo.”

Sargento, sim

“Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” não foi o primeiro álbum conceptual da pop moderna (essa distinção deverá ser atribuída a “Freak Out!”, dos Mothers of Invention, publicado em 1966) nem sequer, realmente, um álbum conceptual. Segundo os próprios Beatles, a ideia de criar uma banda e personagens/heterónimos deles próprios foi rapidamente descartada no alinhamento final após a segunda canção ('With a Little Help from My Friends', interpretada por Ringo Starr/Billy Shears) e apenas a 'reprise' do tema-título na penúltima faixa procurou, em quase desespero de causa, recuperar o que restava do plano inicial.

Do ponto de vista das alegadas 'inovações revolucionárias' no que ao idioma pop/rock diz respeito, pouco contém que eles próprios não tivessem já explorado — e de forma francamente mais conseguida —, no ano anterior, em “Revolver”: 'She’s Leaving Home' é uma parente muito pobre de 'Eleanor Rigby' e 'For No One', 'Love You To' humilha sem dó a canja mística de 'Within You Without You', 'I’m Only Sleeping' já experimentara a utilização das 'reverse tapes' no solo de guitarra, os pastiches/exercícios de estilo de 'Got To Get You Into My Life' (Memphis soul), 'Good Day Sunshine' (Lovin’ Spoonful) e 'Here, There and Everywhere' (Beach Boys) reduzem o vaudeville-de-trazer-por-casa de 'When I’m Sixty Four' e 'Lovely Rita' à sua verdadeira dimensão e 'Tomorrow Never Knows' (processamento eletrónico de vozes e instrumentos, 'tape loops', técnicas da 'musique concrète') mete literalmente num chinelo todo o alegado vanguardismo da filarmónica do sargento. Que sobra, então?

O soberbo puzzle de 'A Day In the Life', o magnífico ensaio de colagem verbal e sonora de 'Being for the Benefit of Mr. Kite' e a levitação lisérgica em 'technicolour' de 'Lucy In the Sky With Diamonds'. Tivessem 'Penny Lane', 'Strawberry Fields Forever' (compostas para “Sgt. Pepper’s” mas finalmente excluídas para edição em single — esse, de facto, um single conceptual sobre as reminiscências de Liverpool de Lennon e McCartney), 'Baby You’re a Rich Man', 'I Am the Walrus', 'Hello Goodbye' ou até mesmo 'All You Need Is Love' (todos publicados em 1967) integrado o pelotão e, aí sim, teríamos um disco capaz de, no mesmo ano, dar luta a “Forever Changes”, “Goodbye and Hello”, “Safe as Milk”, “The Velvet Underground & Nico”, “The Piper at the Gates of Dawn” ou “Are You Experienced?”.

Afinal, à maior banda pop da época, bastou, contudo, estar no lugar certo, na altura certa (publicado a 1 de junho, “Sgt. Pepper’s” daria praticamente o pontapé de saída ao 'Summer of Love'), para que o seu álbum mais fraco pós-“Rubber Soul” e pré-“Abbey Road” pudesse oferecer a um sargento os galões de marechal.

45 RPM

Texto de Ricardo Saló

Não será necessário contratar um detetive para concluir que ainda hoje se distingue na música pop (branca e negra) a marca de singles como '(I Wanna) Testify' (Parliaments), 'Respect', 'Chain of Fools' e '(You Make Me Feel Like) A Natural Woman' (Aretha Franklin), 'Tramp' (Otis Redding & Carla Thomas), 'Cold Sweat' (James Brown), 'I Second that Emotion' (Smokey Robinson & The Miracles), '(Your Love Keeps Lifting Me) Higher And Higher' (Jackie Wilson), 'Soul Man' (Sam & Dave), 'It Takes Two' (Marvin Gaye & Kim Weston), 'Ain’t No Mountain High Enough' (Marvin Gaye & Tammi Terrell), 'Bernadette' (Four Tops), '(I Know) I’m Losing You' (Temptations), 'Funky Broadway' (Wilson Pickett), 'Sweet Soul Music' (Arthur Conley), 'I’d Rather Go Blind' (Etta James) e 'The Hunter Gets Captured By the Game' (Marvelettes). E muito menos um historiador para comprovar que — mesmo à época — nenhum facto de relevo terá resultado da edição de álbuns como “Aretha Arrives” (Aretha Franklin), “Soul Men” (Sam & Dave), “King & Queen” (Otis Redding & Carla Thomas), “High Priestess of Soul” (Nina Simone), “Reach Out” (Four Tops) e “Live In Europe” (Otis Redding) — embora não tenha sido nulo o reflexo conjuntural de “Born Under a Bad Sign” (Albert King) e “Cold Sweat” (James Brown).

A música popular negra andava distraída face à natureza específica dos tempos? Nem por sombras. Obedecia, tão-somente, a uma lógica interna e a um ritmo de crescimento próprios. Na verdade, reflexos da singularidade de uma cultura obrigada a desbravar o seu caminho numa terra de adoção. Mas, como realidade aberta ao mundo (e, por paradoxal que pareça a quem menor consciência tenha da sua história, à música branca), não poderia deixar de refletir na maneira de estar e nas estratégias de inserção numa sociedade na qual exigia participar (Detroit, Harlem e Alabama foram palco de violência racial em 1967) a transformação de fundo desencadeada por Beatles e companhia.

Por isso, o ano não chegaria ao fim sem a discreta publicação de um álbum intitulado — não obstante a ausência de faixas à altura do conceito — “A Whole New Thing” (Sly & The Family Stone). E, embora a viagem de Sylvester Stewart viesse a exceder simples desejos de transição do single para o LP e de adaptação do espírito 'flower power' à realidade negra para se erguer como apuradíssima representação estética de uma utopia democrática cuja matriz coletiva nem no jazz deixaria de ter ecos, George Clinton — perfilhando uma célebre proclamação do 'lado branco' do psicadelismo — não tardaria a advogar o fim do '45 rotações'.

O futuro viria a seu tempo. Porque uma cultura que foi capaz de inventar a primeira linguagem genuinamente americana (ragtime) da sujeição da valsa (e da música de banjo) à síncope rítmica africana nunca se daria por satisfeita pela mera adaptação do psicadelismo aos seus códigos de expressão. E, nesta perspetiva, muito terá que matutar quem ainda não tenha entendido que “What’s Goin’ On” (Marvin Gaye) está longe de ser o “Sgt. Pepper” de um negro cujo irmão acabava de chegar da linha da frente do Vietname.

Mas não andará longe da verdade se concluir que 'Papa Was a Rolling Stone' (Temptations) é o 'Like a Rolling Stone' de quem cedo aprendeu que 'mudar a sociedade' nunca passou de uma 'bedtime story'. E que a música soul teve arte para não se fazer à longa viagem conceptualista sem repensar a sua identidade num mundo novo enquanto convencia plateias e mercado de uma renovada fé no 'entertainment' (herdado de Calloway, Armstrong e Jordan) com um perene sorriso nos lábios e seis singles por ano.