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A Bienal com sabor a limão regressa atenta aos problemas sociais mais ácidos

D.R.

A segunda edição da Bienal de Gaia realiza-se entre 8 de julho e 30 de setembro, com 32 exposições e mais de 500 artistas representados

O pintor e diretor da cooperativa cultural Artistas de Gaia tinha um sonho há mais de 20 anos. Em 2015, o onírico fez-se realidade, com a primeira edição da Bienal Internacional de Arte realizada no município. “A arte é como um limão. É ácida mas faz bem”, comparava o responsável artístico, aquando da apresentação do evento. Passados dois anos, realiza-se a segunda edição, entre 8 de julho e 30 de setembro, com 32 exposições e aproximadamente 1500 obras de mais de 500 artistas, oriundos de 11 países. Assume-se, agora, como uma Bienal “de causas”, sem esquecer a ligação com a comunidade local, mas atenta a temas como as crises migratórias, a fome, o desemprego, a guerra e o terrorismo, a corrupção, a homossexualidade ou a dura realidade dos sem-abrigo.

O evento dá visibilidade a disciplinas artísticas como o desenho, a pintura, a escultura, a cerâmica, a instalação e, nesta segunda edição, contempla também trabalhos videográficos. Um dos maiores destaques do certame é o concurso internacional, no qual se inscreveram 292 artistas, dos quais foram selecionados 88, sendo já conhecidos os criadores e trabalhos agraciados nesta secção competitiva.

O Grande Prémio da Bienal, financiado pela Câmara Municipal de Gaia, foi atribuído à obra “Acasos Felizes I”, da autoria da artista plástica Marta Soutinho Alves e que se dastacou com este trabalho de assemblagem. Na categoria destinada a trabalhos escultóricos, o vencedor do Prémio Zulmiro de Carvalho (patrocinado pela Câmara Municipal de Gondomar) foi João Macedo, distinguido pela conceção da peça “Nublar”, na qual alguém procura agarrar e cobrir-se de nuvens.

D.R.

“Autorretrato nº 10 (ou Pedra)”, uma pintura a óleo sobre tela da artista brasileira Mariana Poppovic, foi o trabalho vencedor do Prémio Águas de Gaia. A escolha dos artistas laureados foi uma decisão unânime por parte do júri, conta Agostinho Santos. Os três prémios têm, cada um deles, o valor de 5 mil euros e foram ainda atribuídas oito menções honrosas aos seguintes autores: Ana Almeida Pinto, Daniela Pinheiro, Elizabeth Leite, Frederico Mendes, Joana Couto, Joana Patrão, Niccolò Rossi e Tales Frey.

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Pensar nos mais desprotegidos é, assim, o objetivo deste certame dedicado à arte contemporânea, explica Agostinho Santos ao Expresso. “Entendemos que, neste momento mais do que nunca, os artistas não devem voltar as costas aos problemas de caráter social que existem em todo o mundo”, considera o diretor artístico, para quem os criadores “não podem enfiar a cabeça na areia”. Nesse sentido, foram desafiados – através das exposições temáticas que vão integrar a Bienal – a olhar, pensar e transpor artisticamente várias problemáticas que assolam a sociedade contemporânea. “É uma Bienal que se preocupa com os outros. Pretendemos ter qualidade, mas ao mesmo tempo criar um momento que proporcione reflexão. Queremos agitar e inquietar a consciência das pessoas”, afirma Agostinho Santos.

“Sem abrigo… e se fosses tu?”, “Nem só de pão”, “O consumo na contemporaneidade” e “Pronúncia do Norte” são alguns dos títulos das 32 exposições patentes ao longo da Bienal, realizada este ano no centro empresarial FERCOPOR (localizado nas antigas instalações da fábrica “Coats & Clark”), mas espalhado por oito polos expositivos nos municípios do Porto, Vila Nova de Cerveira, Gondomar, Figueira da Foz, Monção, Seia, Barcelos e Viana do Castelo. Para Agostinho Santos, esta é uma forma de esbater fronteiras, quer físicas quer estéticas. “Só conseguimos consolidar as artes plásticas em Portugal se estivermos unidos. Precisamos que os artistas, as instituições e o público estejam juntos”, frisa o pintor e responsável pela organização do evento.

Além das preocupações sociais e de se assumir como uma Bienal sem muros, a apostar na internacionalização e onde cabem todos, desde artistas mais consagrados até a autores estreantes, esta mostra de arte conta também com duas exposições antológicas, dedicadas a Graça Morais e Guilherme Camarinha, que constituem o par de homenageados na edição de 2017.

Depois de ter sido apadrinhada, na primeira edição, pelo escritor Valter Hugo Mãe e pelo músico Pedro Abrunhosa, a Bienal terá este ano como embaixadores três artistas gaienses: Miguel Guedes, Rui Massena e a jovem pianista Rafaela Oliveira.

A Bienal da Gaia é dinamizada pela cooperativa Artistas de Gaia e conta com o apoio da autarquia local num evento orçamentado em 80 mil euros. Em 2015, na primeira edição, mais de 35 mil pessoas visitaram as 18 exposições que então integravam o certame.