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Nada de homenzinhos verdes

Na semana em que estreia mais um Alien, vejamos quão realista é pensar que vamos conhecer seres de outros planetas

Deste sempre presentes na imaginação do ser humano, os extraterrestres nunca deram sinal de vida consensual para a ciência. Hoje sugerimos um livro sobre as possibilidades de isso suceder

Os mais atentos a esta coluna (a havê-los) terão reparado que a última sugestão daquele que assina estas linhas tinha que ver com o Espaço e com filmes para o grande público a lançar este ano. Passa-se o mesmo esta semana, mas o tom é, como verão, completamente diferente. Se há dias se falou da maravilhosa fantasia da “Guerra das Estrelas” e do que nos ensina sobre a vida, agora voltamo-nos para a ciência.

Esta quinta-feira estreiou em Portugal mais um capítulo de Alien (o sexto ao todo, segunda prequela do original de 1979), com o título Alien: Covenant. Um iniciado que olhe para a capa do livro que hoje sugerimos notará, decerto, as semelhanças estéticas com os cartazes da saga de Ridley Scott, mas não é dela que falaremos, aproveitando antes o mote para introduzir um livro que procura saber, para lá da imaginação, o que poderemos saber ou supor sobre seres alienígenas.

Dirão mesmo “leve-me até ao seu líder”? Abduzir-nos-ão com feixes de luz? Dirão “viemos em paz” para logo nos exterminarem, como no “Marte ataca” de Tim Burton (1996)? O físico quântico britânico Jim al-Khalili, nascido no Iraque, foi tentar descobrir. Para tal, reuniu em Aliens — Science Asks: Is There Anyone Out There? (Alienígenas — a ciência pergunta: está aí alguém?) a opinião de vários especialistas no estudo de um dos enigmas que a Humanidade mais tem explorado ao longo dos séculos.

Novos mundos, novos seres

A pertinência da questão é reforçada pela descoberta, em anos recentes, de milhares de novos planetas, alguns com características que os tornam teoricamente compatíveis com a vida como a conhecemos. Isto “revolucionou o nosso conceito de quantos mundos habitáveis poderão existir”, escreve no livro a astrobióloga Nathalie Cabrol. A obra “dificilmente poderia ter sido publicada num momento melhor”, escreve o diário “The Guardian”.

Os assuntos cobertos, em ensaios curtos (talvez demasiado breves, observa o jornal inglês), vão da putativa natureza da consciência extraterrestre aos discos voadores, passando pela experiência que poderá aguardar quem for raptado pelos visitantes espaciais. Ian Stewart escreve, no livro, que a especulação sobre os ET nos “proporciona problemas para ultrapassar, funcionando como um espelho em que podemos examinar as nossas próprias falhas e erros”. Conclui o matemático: “A forma como tratarmos os extraterrestres ou reagirmos à sua presença revelará muito sobre nós mesmos”.

Não é provável que extraterrestres nos venham a saudar com o gesto de Spock (Leonard Nimoy) em Star Trek

Não é provável que extraterrestres nos venham a saudar com o gesto de Spock (Leonard Nimoy) em Star Trek

Virão algum dia ou descobri-los-emos no espaço sideral? Terão a aparência que a ficção implantou na nossa mente coletiva ou obrigar-nos-ão a reconsiderar o que entendemos por vida? “Nunca poderemos ter certeza absoluta de que encontrámos indícios de vida noutro planeta apenas nos gases produzidos pela vida”, alerta a estudiosa de planetas Sara Seager, explicando que os mesmos gases podem resultar de outros processos.

Desfazer mitos

A revista “Time” elogia, neste compêndio, a destruição de certos mitos sobre a vida fora da Terra. O primeiro: não, os extraterrestres não viriam comer-nos, sossega o astrobiólogo Lewis Dartnell, já que tal implicaria que os corpos dos alienígenas fossem capazes de digerir as nossas moléculas, o que é arriscado pressupor. Segundo mito: não, não iria haver cruzamentos entre os forâneos e a nossa espécie, como retratam certos filmes, até porque nem com a espécie terrestre que nos é mais próxima (o chimpanzé, com 98% de coincidência genética) é possível o ser humano reproduzir-se (felizmente, acrescento eu).

Mito número 3: não, os seres humanos não teriam o visual antropomórfico de Mr. Spock ou, até, Chewbacca. O neurocientista Anil Seth imagina-os tão diferentes como polvos (um dos animais com maior nível de inteligência e consciência, além de um sistema nervoso descentralizado), que aliás foram a inspiração do recente filme “O primeiro encontro”; quarto mito: não, os ET não virão necessariamente com um aperto de mão, podendo a prova da sua existência surgir-nos em máquinas que cheguem à Terra, fabricadas por civilizações do espaço que poderão ainda existir ou não quando os seus artefactos cá chegarem; e, para nos tranquilizar

“Aliens — Science Asks: Is There Anyone Out There?”, Jim Al-Khalili (coord.), Editora: Profile Books; Páginas: 240 páginas; Preço: £6,29/€7,39 (Amazon)

“Aliens — Science Asks: Is There Anyone Out There?”, Jim Al-Khalili (coord.), Editora: Profile Books; Páginas: 240 páginas; Preço: £6,29/€7,39 (Amazon)

O quinto mito desmontado é o de que os extraterrestres viriam para sugar os recursos do nosso planeta, como em O dia da independência. Escrevem os co-autores do livro que é mais de crer que viessem por curiosidade científica e existencial, que é, aliás, o que nos faz procurá-los. Para os que tiverem visão oposta, valha a frase do sempre sábio miúdo Calvin, que dizia para o tigre Hobbes na sublime banda desenhada de Bill Watterson: “O sinal mais evidente de que existe vida inteligente em algum lugar do universo é o de que ninguém até agora tentou entrar em contacto connosco.”