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Ainda a Eurovisão: Salvador agip prop

Salvador Sobral venceu e emocionou os portugueses, que agora discutem que cidade, em Portugal, poderá receber a próxima edição do Festival da Eurovisão

GLEB GARANICH/ reuters

A passagem de Salvador Sobral pelo Festival da Eurovisão, para lá de ter desencadeado uma espécie de comoção nacional, provocou um vasto conjunto de questões e reflexões, seja pelas atitudes e posicionamento do jovem cantor, seja pelo debate suscitado por algumas das suas afirmações. Por exemplo as posições sobre os refugiados, abafadas pela organização da festa sempre que conseguiu controlar o jovem Salvador.

Em tempo de vitória tudo se desculpa, até as hipérboles criadas à volta de uma canção generosa, envolvente, mas longe do fulgor lírico e musical de outras já apresentadas por Portugal na Eurovisão. Basta-me um só exemplo para que nos situemos e desçamos à terra nesta pouco saudável glorificação unanimista. Sem diminuir por um instante a importância do trabalho de Salvador e da sua irmã, Luísa, penso em várias canções aqui evocáveis, mas não resisto a ficar-me com uma em particular. “Cavalo à Solta”, com poema de Ay dos Santos e música de Fernando Tordo, apresentada em 1971:

“Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa
Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo
(…)”

Outros são os tempos e as dinâmicas do festival da Eurovisão. De tal ordem assim é que, para bem do prestígio da própria organização, venceu a única canção digna desse nome, e a única verdadeiramente preocupada com a construção de um discurso musical, não apenas sólido, como coerente e consistente.

É a tal questão da rejeição do fogo de artifício musical, enunciada por Salvador, numa lúcida intervenção depois criticada, entre outros, pelo concorrente sueco.

Lisboa e o Meo Arena foram de imediato anunciados como sede do próximo festival da Eurovisão FOTO TIAGO MIRANDA

Lisboa e o Meo Arena foram de imediato anunciados como sede do próximo festival da Eurovisão FOTO TIAGO MIRANDA

FOTO TIAGO MIRANDA

Consumada a vitória, nasce um outro debate. Nas primeiras horas após a euforia da conquista aparecia em todo o lado o anúncio dado como tão certo, como inevitável, da realização da próxima edição do festival em Lisboa, no Pavilhão Meo Arena.

É o centralismo em todo o seu esplendor. Nem será por mal. É feitio. É uma forma de ser e estar tão natural como o respirar. Pensa-se numa grande iniciativa em Portugal e a imediata reação pavovliana é de visualizá-la em Lisboa. Por defeito é assim, e nem ocorre pensar noutra possibilidade.

Só muito depois, e quando se começou a perceber que noutros países existem, por norma, concursos nacionais para determinar o local da realização do evento, surgiram alguns responsáveis da RTP a assegurar, embora sem muita convicção, que nada está decidido e todas as hipóteses estão em aberto.

A Câmara da Feira quer conhecer as condições para candidatar o Europarque

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FOTO RUI DUARTE SILVA

O problema – e aqui fica feita uma boa radiografia do país que temos – tem de ser encarado com frieza e racionalidade. Se assim fizermos, depressa se concluirá que, obviamente, o festival vai ter de ficar em Lisboa. Pela razão simples de que, em resultado dos desequilíbrios centralistas alimentados ao longo de décadas e décadas, não há neste momento em Portugal outro espaço (Lisboa e o Meo Arena) com condições objetivas (técnicas e logísticas) para receber um festival com as exigências e especificidades do da Eurovisão.

É dramático que assim seja posta a nu a política seguida ao longo dos tempos, cega para a absoluta necessidade de criar uma descentralização efetiva.

Os poderes locais não são isentos de responsabilidades. Quando Rui Moreira, por exemplo, diz que a cidade do Porto não está interessada em gastar os milhões implícitos na organização do festival, a afirmação não passa de um sofisma.

A verdade crua é que a segunda cidade do país não dispõem de uma estrutura capaz de albergar o festival da Eurovisão. A questão é relevante, não pelo festival em si mesmo, mas pelo conjunto de oportunidades perdidas face à evidente falta de capacidade de resposta. E, aí, torna-se indispensável perguntar como é possível a segunda cidade do país, ao longo de sucessivos mandatos autárquicos, ter deixado degradar-se o Pavilhão Rosa Mota, ao ponto de ser hoje um equipamento suspenso da sua própria inutilidade.

O Pavilhão Rosa Mota continua ausente das grandes iniciativas

O Pavilhão Rosa Mota continua ausente das grandes iniciativas

d.r.

É bom que Gondomar, Guimarães ou Santa Maria da Feira persistam em querer ver o caderno de encargos imposto pela Eurovisão. É bom que batalhem para conquistar a possibilidade de realizarem o certame. É excelente que sigam o exemplo resiliente de Salvador Sobral. Pode ser que desta campanha de “Agitação e Propaganda” resultem ganhos futuros, num país mais equilibrado. Afinal, só não vence, quem não luta.