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“Brexit? Há rumores e avistamentos, e profetas que fazem descrições variadas. Mas ninguém sabe”

Murdo Macleod

O romancista britânico David Mitchell falou com o Expresso de literatura, fantasmas, árvores de Natal sem árvore, ovos que saltam a fila. E, claro, política

Luís M. Faria

Jornalista

Um dos inconvenientes do Brexit para um escritor britânico é que toda a gente quer saber a opinião dele sobre os inconvenientes do Brexit. Assim nos explicou David Mitchell, um escritor inglês que vive na Irlanda. Os seus livros costumam cruzar histórias diferentes e às vezes falam de um futuro apocalíptico. O último a sair em Portugal é "As Horas Invisíveis", na mesma editora (Presença) que antes tinha publicado "Atlas das Nuvens". O Expresso falou com Mitchell no LeV, o festival anual sobre literatura de viagens em Matosinhos. A conversa começou pela suspensão das leis da física e acabou por ir ter onde era quase inevitável que fosse.

Um conhecido autor sugeriu que quem escreve fantasia não tem experiência de vida. De onde vem a fantasia, e em que é fundamentalmente diferente do realismo?
Bom, as leis da física, tal como as entendemos na fantasia, são mais flexíveis e fluídas do que no realismo. E isso pode ser usado por escritores literários para dizer determinadas coisas. Os realistas mágicos, por exemplo.

Mas é só para dizer coisas? Não há um valor estético autónomo? Quando fala em dizer coisas, parece que se trata apenas de argumentar um ponto...
É um método, um modo, um instrumento. Pode-se usar esse instrumento para o que se quiser, incluindo apresentar um argumento... "Cem Anos de Solidão" está cheio de exemplos de utilização de fantasia para dizer algo que é político. Se em vez disso o objetivo for simplesmente obter um efeito estético, também está bem.

Pode acontecer o autor ficar fascinado por uma ideia e ir atrás dela. Dois sóis em vez de um...
Pode acontecer. Se é interessante ou não, é uma questão diferente. Claro que podemos sempre fazer o que quisermos. Mas se não houver uma razão para haver dois sóis, o leitor fica um pouco a coçar a cabeça. Por que é que o escritor fez aquilo? Aconselho que seja por uma razão que valorize o romance e não se limite a ser ornamentação. Ornamentação está bem, mas não se faz um romance apenas com ela. Seria como uma árvore de Natal sem árvore.

Pode dar-me um exemplo retirado da sua própria obra?
Onde eu tenha usado fantasia por uma certa razão? Acho que em "As Horas Invisíveis". Tenho dois grupos de imortais que são imortais de formas diferentes e por razões diferentes. Escrevi-o quando fiquei mais consciente da minha propria mortalidade. Usei o tropo fantástico da imortalidade para contemplar o tema duro e muito real da mortalidade. Porque senti necessidade? A experiência humana sem mortalidade seria completamente diferente.

Muito do que fazemos é feito na expectativa da morte, da finitude da vida. Embora tentemos esquecer isso a maior parte do tempo.
Pois tentamos. Mas está sempre lá.

Assim que tem a ideia ou o argumento, como é que o processo funciona? Deixa-se levar por eles?
Defino um conjunto muito firme de regras para essa distorção das leis da física ou da biologia. Isso serve-me de manual, por assim dizer. Uma vez escrito, mantenho-me fiel a ele. Não tenho necessariamente que o explicar ao leitor. Dou-lhe apenas uns indícios para o assegurar que existe, que não estou a inventar aquilo de qualquer maneira, sem controle.

Quando começa um livro, sabe como vai terminar? Tem a história inteira delineada à partida?
Penso nisso como uma viagem de carro, digamos, através da América. Sabemos que vamos sair de Nova Iorque e que vamos acabar em Anchorage. E sabemos que queremos atravessar o Arizona e ir às Cataratas do Niágara. Mas o que acontece nas partes intermédias ainda não sabemos. Às vezes só quando se chega a um lugar é que se consegue ver o que há lá.

Os principais pontos da história…
Tenho quase todos à partida, mas não todos. E não apenas os pontos da história. Também os dos personagens - alguns, não todos. Algumas linhas, algumas ideias. De facto, é uma mistura entre uma economia planificada e um laissez-faire.

É mais frequente começar por uma imagem ou uma ideia?
Depende do livro. Em "Atlas das Nuvens", que basicamente pagou a minha casa, comecei não por uma imagem ou uma ideia mas por uma estrutura. Normalmente é uma coagulação de um momento e um lugar e pessoas. Um esboço de arco narrativo para o que eu quero que aconteça. Preciso um pouco disso. Mas de qualquer forma costumo pensar nas ideias durante anos antes de as escrever.

Um longo período de incubação.
Sim. E para o livro depois disse, e para o seguinte...Como uma galinha tem três ovos em fila dentro dela.

Imagino que por vezes haja umas surpresas.
Sim. Às vezes os ovos não respeitam a fila, empurram o ovo que está à frente.

Qual foi o último romance que publicou?
É uma história de fantasmas. É sobre uma casa. Normalmente não a encontramos. Mas todos os nove anos, indo por uma rua num certo lugar a uma certa altura, encontramos esta pequena porta de ferro. Se formos a pessoa certa, empurramos e ela abre. O que está do outro lado é o tema do livro. Ele evoluiu a partir de uma história que eu tinha escrito no Twitter. 500, 600 tweets. Gostei dessa experiência, mas levantou mais questões do que as respostas que deu. Portanto, foi o ovo que saltou a fila.

Em muitas historias de fantasmas, nunca se vê o fantasma. E se por acaso ele aparece perde o poder, ou a história passa a ser de outro tipo. Estabelecendo um paralelo um bocado forçado, que tipo de história é que o Brexit se vai tornar com o aparecimento do monstro?
(risos) Bom, ainda não o vimos. Há rumores e avistamentos, e profetas que fazem descrições variadas dele. Mas ninguém sabe. Dir-se-ia que o Reino Unido vai entrar num longo declínio. Cultural e económico.

Acha que isso é mais ou menos garantido?
Não. E espero estar errado. Mas por que diabo havemos sequer de o ver? Porquê embarcar nesta experiência? As coisas estavam a funcionar. Claro que a UE é imperfeita. Mas mostrem-me um sistema politico perfeito. Este era bastante bom, tão bom como se pode ter. O meu pai é um gentleman idoso daquele género que costuma querer sair da UE. Mas discutimos o assunto e ele disse: o que tem de errado a minha vida que sair da UE possa resolver? E votou para ficar.