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Temo que algo esteja errado: o pânico começou

Este é um disco em que a tensão e o stress crescem até uma espécie de euforia. Com muito desconforto e perigo - mas também luz. Na capa do álbum, que tem poucos dias, há um homem a tentar suportar o peso de uma pedra, visivelmente em esforço e no entanto parecendo estar em paz. “Essa imagem é ambígua mas resume perfeitamente tudo o que estava a acontecer nas canções”

A capa do novo disco de Forest Swords

A capa do novo disco de Forest Swords

A intenção pode não ser fazer uma “grande afirmação política”, mas nos tempos em que vivemos nem sempre é fácil deixar as interpretações de lado. Acontece com a música, com o cinema e com todas as formas de arte; aconteceu a Matthew Barnes, mais conhecido pelo projeto de música eletrónica que assina como Forest Swords, mesmo que involuntariamente. “Acho que neste momento não dá para evitar: não acho que possas fazer um disco – ou qualquer pedaço de arte – sem essa atmosfera a intrometer-se”.

A “atmosfera” política que refere pode ter que ver com muitos aspetos – quando começou a trabalhar neste “Compassion”, sucessor do EP de estreia “Dagger Paths” (2010) e do primeiro disco de longa duração “Engravings” (2013), era setembro do ano passado e o mundo tinha acabado de passar pelo choque do Brexit e preparava-se para as eleições nos Estados Unidos, dois acontecimentos que sondagens e antevisões não conseguiram prever.

Créditos: conta no Facebook de Forest Swords

Barnes, britânico nascido em Liverpool, não conseguiu ficar imune durante os meses que se seguiram: “Acho que percebi que é difícil para os artistas de qualquer tipo fazer alguma grande mudança no mundo e isso levou-me a olhar para como podemos agir a nível hiperlocal”. E começou logo a assumir essa responsabilidade: farto das barreiras entre as pessoas, entre os muros que nos dividem e especificamente dos “obstáculos” que impedem que os músicos façam a sua arte chegar aos fãs (“se a puseres no Spotify pode acabar enterrada; se fizeres upload no Soundcloud, o site pode morrer um dia e as canções foram-se”), no fim de março ficou impaciente e tomou a iniciativa - no Twitter, publicou um número de telemóvel para que os fãs o avisassem por Whatsapp se quisessem receber em privado pedacinhos de música. Em resposta, teve 700 mensagens (esperava cerca de 50, relata a “The Skinny”).

Essa união que a música traz, como as barreiras que são derrubadas hoje em dia pela facilidade da comunicação (“fui inspirado pelas formas como comunicamos agora, para melhor ou pior, e a pensar em novos canais nos quais podemos distribuir ideias”), acaba por fazer parte do projeto político de Forest Swords, fosse ou não essa a intenção de Barnes. Basta, aliás, olhar para as fotografias que acompanham o disco – da chegada de imigrantes de Liverpool aos Estados Unidos, escolhidas por Barnes, que diz “gostar de cultivar a relação entre a parte visual e o som” – ou os nomes das faixas que compõem o segundo disco do artista, que falam de guerra, pânico, vandalismo e fronteiras.

“Temo que algo esteja errado”

“War it”, a faixa de abertura de “Compassion”, é a responsável por dar início a um ambiente de tensão que se vai manter nas nove faixas que se seguem, acrescentando com cada camada de som a sensação de sufoco, de suspense para o que vem aí. É seguida por “Highest Floods”, onde aparecem os primeiros apontamentos vocais – ainda sem formar palavras reconhecíveis, como se fossem vocábulos desconstruídos, desmontados, em que tudo o que nos resta para montar o puzzle é o tom e o sentido de urgência na voz.

Mas é em “Panic” que ouvimos a primeira e uma das únicas frases completas do disco, e que parece funcionar como uma espécie de clímax e de tradução das sensações que já se vinham impondo nas primeiras faixas. “Temo que algo esteja errado / O pânico começou”, ouvimos, numa espécie de crescendo. Pelas palavras de Barnes, a interpretação é certeira: “A maior parte das faixas em Compassion foram começadas num estado bastante pesado mas conseguiram mover-se para a luz enquanto trabalhava nelas. ‘Panic’ é o ponto em que a tensão e o stress crescem até uma espécie de euforia”.

Créditos: conta no Facebook de Forest Swords

A sensação é em muitas destas faixas de desconforto e perigo: “Exalter”, o quarto tema, traz de novo o mesmo incómodo incompleto das palavras desmontadas e “Arms Out”, o sexto, soma apontamentos por uma voz que parece quase devota, como numa espécie de cerimónia sagrada, em jeito de revelação. “Vandalism” deixa-nos em alerta para uma passagem com o ritmo até aí mais frenético, assumidamente eletrónico – o disco mistura com frequência elementos mais eletrónicos com passagens exclusivamente asseguradas por instrumentos analógicos – e em “Sjurvival” os gritos parecem de dor, de lamento ou desta sobrevivência que lhe dá o nome, deixando ao critério de quem ouve interpretar e sentir o que se impuser no momento.

Também há lugares de luz

Falamos de desconforto, incómodo e perigo porque foram as sensações que invadiram Barnes no início deste trabalho e que o próprio identifica como forças motrizes, mas, como ele explica, também há neste disco lugares de luz – um processo que é assumido no próprio título, “Compassion”, e na imagem de capa do disco, que mostra um homem a tentar suportar o peso de uma pedra, visivelmente em esforço e no entanto parecendo estar em paz. “Essa imagem era tão impressionante; é ambígua, mas resume perfeitamente tudo o que estava a acontecer nas canções”, diz à “The Skinny”.

Créditos: conta no Facebook de Forest Swords

Não é, por isso, tarefa fácil ou linear falar do que se sente ao ouvir “Compassion”, um disco que reconhece as dificuldades mas não se rende a elas – “queria fazer um disco que olhasse em frente, e que pensasse em formas de comunicação diferentes, diferentes atitudes em relação à forma como tratamos os outros”. Talvez por isso, sem contarem com a força das palavras, as últimas canções do disco se distingam pela luz que se esforçam por trazer: “Raw Languages” com uma energia renovada e as palmas a obrigar a um ritmo mais acelerado e disruptivo e “Knife Edge” a trazer, para concluir, o primeiro piano melódico, que acaba por se impor em toda esta faixa final.

“Como muitas pessoas, tive dificuldades em ver alguma espécie de luz ao fundo do túnel, por isso percebi que há algum poder em tentarmos criar a nossa, em alternativa”, explica em comunicado. Para isso, Matthew Barnes pegou nos meses de viagem entre Banguecoque, Istambul e Escócia durante os quais compôs o disco e esforçou-se por criar algo que pudesse trazer esperança e falar de compaixão, qualquer que fosse o recetor da música e destas mensagens mudas: “Desta vez, quis criar algo mais universal”. (Importa lembrar que essa universalidade passará também por Portugal durante a digressão do músico, a 29 de novembro em Braga, no GNRation, e a 30 em Lisboa, na Galeria Zé dos Bois)