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Salvador Sobral: “Não sou o novo herói nacional. Esse papel é do Ronaldo e espero que assim continue”

Pedro Melo

Uma multidão eufórica encheu a zona de chegadas do aeroporto de Lisboa para dar as boas vindas a Salvador Sobral, o primeiro português a vencer o Festival da Eurovisão

Recebido em apoteose no aeroporto de Lisboa, considerado o novo “herói nacional”, Salvador Sobral recusa o título e prefere salientar a fórmula de sucesso que o fez vencer o festival da Eurovisão: “O importante foi a música. As pessoas na Europa inteira votaram a canção e não perceberam uma palavra”.

O ambiente parecia o misto da festa da conquista de um troféu de futebol com a da veneração a alguém cujo exemplo é algo a seguir. Centenas de pessoas, em ambiente de apoteose, encheram na tarde deste domingo a zona das chegadas do aeroporto de Lisboa, para receber Salvador Sobral (e a irmã, Luísa Sobral), que na noite de sábado venceu na Ucrânia o Festival Eurovisão da Canção.

Com bandeiras nacionais e cachecóis com as cores e o nome do país, um coro de circunstância, no qual se viam pessoas de várias gerações, entoou os nomes de “Salvador” e de “Luísa”, antes de gritar “Portugal” e cantar o Hino Nacional. Populares entrevistados pelas televisões, alguns dos quais percorreram centenas de quilómetros para estar em Lisboa, falavam do “novo herói nacional”.

Poucos minutos após a aterragem, ocorrida cerca das 16h00, ainda sem saber da dimensão do banho de multidão que o aguardava, Salvador Sobral recusou ser tratado como nova estrela nacional.

Entrevistado pela RTP, e questionado se se sente um “novo herói nacional”, o jovem músico e intérprete usou a mesma desarmante modéstia que vai sendo uma das suas imagens de marca: “Não. Esse papel é do Ronaldo e espero que assim continue. O que eu gosto é de cantar”.

Cabeça nas nuvens e pés no chão

Ainda antes do contacto com o público, foi um Salvador Sobral visivelmente cansado que, ao lado de Luísa Sobral, enfrentou os jornalistas. Algumas das respostas pareciam desconexas, mas em todo o caso pontuadas com tiradas de humor.

A vitória conseguida em Kiev, onde Salvador conquistou a Europa com a canção “Amar Pelos Dois” (escrita e musicada pela sua irmã), fará com que seja Portugal no próximo ano a receber o Festival da Eurovisão.

Interrogado sobre o impacto que isso terá, Salvador não tem dúvidas de que o certame dará um contributo importante “para a cultura e o turismo”. Mas deixa o aviso de que será preciso abrir os cordões à bolsa: “Vi lá em Kiev que é preciso gastar muito dinheiro. E peço desculpa à RTP...”, prosseguiu, interrompido por gargalhadas.

Às diversas perguntas, foi reagindo Salvador da forma habitual: parecendo com a cabeça nas nuvens, mas lá no fundo com os pés assentes no chão. Não há deslumbramento sobre o que gira agora em seu redor: “Ao início, isto pode ser uma loucura. Mas sei que estas coisas são efémeras”, podendo durar apenas “dois a três meses”, afirma.

O novo ídolo das multidões (mais tarde, ao abandonar o aeroporto, gritar-lhe-ão “Salvador, meu amor”) mostra uma forma de lidar com a popularidade à revelia dos ventos dominantes no show bizz: “As fotos e os telemóveis são coisas que hoje em dia invadem o meu espaço”, disse a dado passo da conferência de imprensa.

O idioma da música

Visto de Portugal, o facto de uma canção cantada na língua de Camões ter conquistado um concurso em que o inglês é uma espécie de língua oficial é dos pontos que mais questões suscita.

É precisamente nesta altura da conversa que Salvador surge mais solto, ajudado e acompanhado por Luísa. Por mais de uma vez, os dois irmãos disseram que, desde o primeiro momento, a canção “só fazia sentido em português”.

A cedência de muitos concorrentes ao inglês levou Luísa a contar um episódio: “Eu que falo inglês fluentemente, não percebi muitas palavras [de certas canções]”. Salvador interrompe: “Nem eles...”. Prossegue Luísa: “Há até uma rapariga que cantou em inglês, mas que não [sabe] fala[r] inglês”.

Antes, afirmara Salvador: “O importante foi a música. As pessoas na Europa inteira votaram na canção e não perceberam uma palavra”. Luísa haveria de concordar mais tarde: “As pessoas não percebiam o que ele dizia”, mas ele venceu, porque “ele sentia o que estava a dizer” (e as pessoas viam isso).

Uma tranquilidade cara

Terminada a conferência de imprensa, faltava a parte mais difícil para os irmãos Sobral: abandonar o aeroporto Humberto Delgado. E isso só foi conseguido graças a um impressionante cordão de polícias. Estes criaram uma bolsa de segurança para que Salvador e Luísa percorressem o átrio das chegadas sem serem esmagados.

Enquanto gritava o nome do vencedor do festival, a multidão compacta confluía para ele, como se um enxame de abelhas se deslocasse todo para um mesmo ponto.

Minutos antes, ainda na conversa com os jornalistas, Salvador disse como gostaria que fosse o seu futuro próximo: “Continuar a fazer as coisas com tranquilidade. Se calhar, teremos de cobrar um pouco mais pelos concertos...”, deixou cair, bem disposto.

Esta receção no aeroporto de Lisboa parece tornar aquele desejo impossível de concretizar. Pelo menos a 100 por cento. Com efeito, “tranquilidade” parece agora algo deveras afastado do quotidiano do “novo herói nacional”. Já quanto a uma subida do cachê, isso parece ser mesmo a coisa mais fácil.