Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

O’Neill e os atacadores da língua

“Poesias Completas 
& Dispersos” integra 
os poemas de O’Neill das sucessivas edições da sua obra. Além 
de textos dispersos 
em jornais, revistas, discos e catálogos, 
e inéditos recuperados do espólio. Uma bela ocasião para ler 
o poeta maior 
da língua portuguesa

Clara Ferreira Alves (texto), fotografias de Fernando Lemos 
cedidas pela Fundação Coleção Berardo

Fotografia de Fernando Lemos 
cedida pela Fundação Coleção Berardo

Só alguns poetas têm acesso à dor, ao amor, ao fulgor, ao horror, sem se repetirem interminavelmente num lirismo enxovalhado. Só alguns, raros, poetas, escrevem com as mesma palavras que nós, usam o mesmo alfabeto, e descrevem com elas e com ele tudo o que existe, existiu ou está para existir. Só alguns poetas nos descrevem escrevendo, aos que damos pelo nome comum de seres humanos. Não faço ideia se nasceram assim, com as chaves penduradas nos bolsos, ou se assim se fizeram. A minha ideia é que estas coisas não se aprendem. Como é que se aprende isto:

“E também tu ó o dos gestos de martelo cósmico
vaidade espiada nas montras
onde o luxo mostra os dentes à canalha
tu mesmo
miséria esplendente destas ruas
enrodilhado sonho de grandezas impossíveis
cisne pálido do cinismo
arroto azul
sangue de empréstimo
lapela das pequenas virtudes dos pequenos
mitos (…)”

Até um analfabeto sabe de que fala este poeta. Isto foi escrito em 1951, faz parte de uma coleção de poemas chamada “Tempo de Fantasmas”. Digamos que o tempo, nos idos de 50, não era exatamente excitante ou brilhante. O poeta chamava-se e chama-se Alexandre O’Neill e diz-se que descendia dos reis da Irlanda. Pode ser… nas ruas e pubs da Irlanda os bêbados vendem poesia declamada em cima de barris e baldes virados ao contrário, ou caixotes de sabão. Toma o poema dá cá a moeda. A não ser que a União Europeia tenha proibido e regulamentado os usos e abusos da poesia oral, nunca se sabe, isto continua a ser um modo de vida ou de passar o fim da tarde com uma Guinness nas mãos. De modo que um tipo vai por uma rua empedrada de Dublin e leva com um Yeats em cima. Faz parte do cromossoma local. O nosso O’Neill, Alexandre Manuel Vahia de Castro e O’Neill de Bulhões, nascido em Lisboa a 19 de dezembro de 1924, pode ter herdado esta loucura dos irlandeses que serve para pegar nas palavras de todos os dias, aquelas que gastamos na mercearia e na farmácia, no escritório, na conservatória e no laboratório, no pombal e no curral, e fazer crescer poemas que chegam às estrelas. Pode ser. Também escreveu crítica de televisão no “Diário Popular” com o pseudónimo de A. Jazente e parece que abandonou o Curso Geral dos Liceus já depois de ter entrado como escriturário na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio. E nunca lhe caíram os parentes, os tais reis, na lama, porque ele era um príncipe num país cabisbaixo. Esta parte da vida, que vai da sonoridade do nome próprio aos acontecimentos biográficos, parece caber todinha num poema do O’Neill, na fase satírica e Nicolau Tolentinesca. E mais tradicional e português não há. A nossa propensão satírica é tão visceralmente constitucional como a nossa veia lírica.

Retrato. Fernando Lemos, amigo surrealista do poeta, imortalizou O’Neill na película

Retrato. Fernando Lemos, amigo surrealista do poeta, imortalizou O’Neill na película

Fotografia de Fernando Lemos 
cedida pela Fundação Coleção Berardo

Alexandre O’Neill permanece, pelo menos para mim, um poeta misterioso. Um grande poeta misterioso que entrou na língua portuguesa e nela ficou, autorizando-nos a usar como nossas e de todos os dias as palavras e expressões que ele inventou. A da vulgata é esta, “há mar e mar há ir e voltar”. Ou, “Bosch é brom”. Apuradas para uma campanha de publicidade sobre a segurança nas praias e o dito eletrodoméstico. O lápis azul caiu em cima e assegurou-se que Bosch era bom. O autor presumia de publicitário nas horas de expediente e para ganhar a vida. Nas horas vagas era poeta, e poucos nos podemos gabar disso. Da poesia faz parte um dos mais famosos poemas de amor e ódio da língua portuguesa e, já agora, da modernidade universal, com o título ‘Um Adeus Português’.

“Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor”

O poema continua, sempre em tom maior, e por favor não o percam. Leiam-no.
Eu gostava tanto de ter escrito isto. E isto não é apenas o lirismo épico da primeira estrofe, com as rimas de rigor e vigor e amor, de ombros e sombra, mais a luz, puros, angústia, purificada as rimas das vogais que ele manejava melhor do que ninguém. Isto, a genialidade disto, é sobretudo a entrelinha, a insinuação subliminar. A pata ensanguentada que vacila, “quase medita”. Qualquer pessoa que escreva como vida e modo de vida e que goste de escrita, da excelsa arte, sabe quanto vale este “quase medita”. Este não sei o quê que serve de tempero e especiaria das palavras maiores, antes de “e avança mugindo pelo túnel”. O verbo, o verbo é tão difícil de usar em poesia. Quase sempre dá asneira. Dá tautologia, redundância, exagero e petulância, literatice. O verbo, como o adjetivo, é uma besta que tem de ser domada pela musa. E a musa amava o Alexandre O’Neill, não duvidemos, estendia-lhe a lira sem que ele a demandasse.

Leiam-no porque têm agora uma oportunidade de o ler numa bela edição da Assírio & Alvim, “Poesias Completas & Dispersos”, editada por Maria Antónia Oliveira, a biógrafa e investigadora do poeta. A edição integra os poemas das sucessivas edições na Imprensa Nacional das Poesias Completas de 1951 a 1986 (algumas coreografadas à luz de novo conhecimento) e de outro livro de poesia, “Anos 70: Poemas Dispersos”, de 2005, recolha de Maria Antónia Oliveira. Além de textos dispersos em jornais, revistas, discos e catálogos, e inéditos recuperados do espólio.

A primeira edição da poesia completa deveu-se ao Vasco Graça Moura, então diretor da Imprensa Nacional. Uma posterior edição deveu-se a Manuel Hermínio Monteiro, na Assírio & Alvim. Com um e outro tive grandes conversas sobre O’Neill, que ambos admiravam com a dedicação do ofício. O Vasco tudo fez para organizar a primeira edição das “Poesias Completas” em vida do poeta, e não foi fácil. Havia mais admiradores do O’Neill, alguns com o privilégio suplementar da amizade e do convívio literário e boémio. O José Cardoso Pires e o António Tabucchi, eram dois. E os surrealistas que restavam, como o Mário Cesariny de Vasconcelos, embora o Mário fosse de outra filiação poética, e o cineasta Fernando Lopes ou o jornalista/romancista/poeta/cronista Fernando Assis Pacheco. Ao Zé, um dos amigos da série “Amigos Pensados”, escreveu o O’Neill isto

“Ao Zé Cardoso peço uma miúda
com um toque de chiado ou de grandella
às nove e duas pernas da manhã,
que, como o peixe, tesa de frescura,
tenha perdido a escama de donzela,
mas não venha falar-me do Vailland…”

Estavam os anos 60 a começar, percebem? Outro tempo, outro lugar, e nem sempre de fantasmas. Havia riso, humor como forma de resistência ao cinzento clima. E eles eram todos bons rapazes e uns malandros organizados em tertúlia noturna. Muito ouvi falar do O’Neill aos que lhe sobreviveram, e que entretanto morreram. E de todos eles, o único que me serviu de mestre foi o que me ensinou a escrever juntamente com Eça. Admiração não chega, Alexandre O’Neill ensinou-me, ensino à distância, o gosto das palavras, de as capturar e de as domesticar ou deixar voar. Não há uma frase dele que me tenha desapontado pela banalidade. O homem era incapaz de uma má linha, como se diz dos sobredotados. A ele roubei o título da minha crónica no Expresso, “Pluma Caprichosa”. ‘A Pluma Caprichosa’ (“Poemas com Endereço”, 1962) começa “Estou onde não devia estar”. E uma das estrofes mais risonhas diz assim: “No jornal cantei na festa do embaixador/ e todos gostaram muito/Ofereci vinte escudos a uma pobre mulher tuberculosa/ e todos acharam bem/ Roubei cinco mil contos ao país/ e todos foram no final de contas muito compreensivos.”

A ironia deste rebelde não era imediatamente acessível, era fina demais, inteligente demais, e por ser tão mal interpretado e confundido, tomaram-no muitas vezes por um cultor da pilhéria num país de penúria. E dele mesmo disse, em tom bocagiano (outro grande poeta romântico que passa por inventor de anedotas porcas e que era antes de o ser um camoniano): “O’Neill (Alexandre), moreno português,/ cabelo asa de corvo; da angústia da cara,/ nariguete que sobrepuja de través/ a ferida desdenhosa e não cicatrizada.// Se a visagem de tal sujeito é o que vês/ (omita-se o olho triste e a testa iluminada)/ o retrato moral também tem os seus quês/(aqui, uma pequena frase censurada…// No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)/ e tem a veleidade de o saber fazer/ (pois amor não há feito) das maneiras mil// que são a semovente estátua do prazer./ Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se/ do que neste soneto sobre si mesmo disse…” O soneto chama-se “Auto-Retrato”.

É verdade que Alexandre O’Neill nem sempre foi bem tratado pelo tempo, os contemporâneos respeitáveis são quase sempre bestiagas. No tempo em que o Fernando Namora passava por graúdo romancista, como podia o O’Neill ter o prestígio da função de escrever? Tinha os amigos, tão pouco respeitados como ele, ou mesmo perseguidos, e a ironia salvadora. Os surrealistas não tinham good press e não eram apreciados pela crítica vigente, graças a deus e aos deuses do Olimpo. Nunca ganhavam prémios nem concursos oficiais. Viviam livremente. E, como o mesmo O’Neill de si disse, nunca falou como poeta fora da sua poesia. O narcisismo costuma ser apanágio da mediocridade ou mediania. O surrealismo foi uma aventura experimental que não o reteve, era demasiado solto para ficar preso em escolas ou estilos.

E era, como todos os aristocratas e artistas sérios, um homem com pudor que tinha horror a falar sobre a sua pessoa. De modo que lhe chamaram tudo. Crítico de costumes, pequeno-burgês, anedoteiro, choramingas, imoralão. Compreende-se que o Estado Novo e o Alexandre O’Neill não eram água da mesma fonte. Uma escorria morta pelos canos e a outra rebentava cristalina por entre as ervas altas das montanhas de onde nascem os rios. Não era um ativista político de manifestação e martelo, usava as palavras e usou-as como forma de resistência à flacidez do regime.

Conheci-o quando o cabelo já não era asa de corvo. Era sal e pimenta. Tinha tido um ataque cardíaco e estava debilitado, dizia que estava proibido pelos médicos de andar contra o vento. Andar contra o vento era o que tinha feito a vida toda. Apareci-lhe numa casa do Bairro Alto, sem recomendação, pedindo uma entrevista. Nunca se devem conhecer os escritores que se admiram, no caso do Alexandre O’Neill abri exceção. A entrevista não me interessava tanto como a possibilidade de ver o homem do qual tinha lido tudo e que me tinha ensinado, nos poemas, que a língua portuguesa pode ser plasticina de várias cores. Conhecia quem o conhecesse e dele fosse amigo mas nunca o tinha visto adejar num dos poisos do bairro. Estava, enfim, doente, e mais velho do que o Alexandre asa de corvo. Ele, modesto como poucos, de uma modéstia que era amassada em indiferença, disse que não era razoável entrevistá-lo, não gostava de falar dele. Não valia a pena. Podíamos conversar, se eu quisesse. Sobre livros e assim. Uma coisa em forma de assim, aquela entrevista, e foi no que resultou. Foi também a última que deu, e nenhum de nós felizmente sabia.

Eu era muito jovem e lembro-me que o achei envelhecido, um pouco alquebrado. Livros por todo o lado. Com a arrogância da juventude, acabei a dizer-lhe que não seria possível ele não perceber que não só era um grande poeta como era o maior poeta da língua portuguesa. Vivo. No vivo, ele embatucou. Antes vivo que morto, e disse-me, e não me lembro se ficou na entrevista, que não tinha medo de morrer mas tinha medo de ficar para aqui e para ali morto-vivo depois de um qualquer ataque, vagando no purgatório dos acidentes vasculares. Ligado a máquinas, numa cama de hospital. A hipótese enchia-o de terror. Mal sabíamos nós que lhe aconteceria, como se o destino com que a pluma caprichosa escreve o obrigasse a estar onde não queria estar. A conversa, longa, regada com whisky, teve partes cómicas e partes poéticas e partes humanas. Que depois cortei no texto final que, como sempre em jornais, estava grande. A mais importante de todas foi a conversa sobre T.S. Eliot, que ambos venerávamos. Eu afirmava a impossibilidade de o traduzir decentemente para português e ele ofereceu-me a que considerava a única tradução decente do Prufrock. Uma edição brasileira. O’Neill, declamando “A Canção de Amor de Alfred J. Prufrock”, demonstrou-me mais uma vez que a língua portuguesa tem uma dureza aparente que esconde uma maleabilidade feita para a prosa e o verso. E para andar contra o vento. Infelizmente, nas minhas mudanças de casas, perdi este livro de vista e creio que mo roubaram. Estava dedicado, pedi que mo dedicasse. E ele, perdido entre o substantivo e o advérbio, escreveu “Com Cordialidade”. Do Alexandre O’Neill, com cordialidade. A falta de jeito dos poetas para a dédicace...

Um cigarro ardia-lhe nas mãos todo o tempo e percebia-se que não iria durar muito. O homem, não o cigarro. Não por estar doente, por estar aborrecido. Jurava que ia barbeiro às vezes para falar com alguém, entreter a solidão. Estava proibido de noitadas e devaneios, ordens do médico, e a imobilidade entediava-o tanto como a velhice a que ainda não chegara em pleno. Aquilo devia ser pior para ele do que a Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio ou o Curso Geral dos Liceus. Lia prodigiosamente, era o seu entretém.

Só o voltei a ver mais uma vez, ao longe, as costas curvadas e os óculos encavalitados na testa larga. As intrigas da corte do “país do monólogo” e do “fala-só” não o interessavam. Muito menos a vidinha que servia a maus escribas para escrever os seus maus romances e poemetos. Nunca o tinham interessado. E nos anos 80, ele morreu em abril de 1986, vivia-se de intriga e utopia em Portugal. Nem uma coisa nem outra o alegravam.

No posfácio, ‘A Doença das Palavras’, Maria Antónia Oliveira traça-lhe o retrato com a intimidade de quem o estudou e biografou. Diz o que só sabem os que o leem e conhecem, que ele tinha a mania das listas e dos dicionários e que roubava palavras onde podia quando não inventava as suas. Mendespintar, por exemplo, é um dos neologismos do Alexandre O’Neill. E que ele queria “submeter as palavras doentes, afinal entes orgânicos, a um processo de reanimação. Observá-las a lutar entre elas, mas também deixá-las bailar”.

“O meu estilo é não ter estilo”, dizia meio a brincar e meio a sério. Não tinha estilo porque inventou um, o estilo O’Neill. “Bem sei que muitos dos meus versos nem para atacadores.” Não exatamente. Ele pôs os atacadores, se quiserem a imagem de pobrezinho no país do diminutivo, nos sapatos com que anda a língua portuguesa. Sem os atacadores não iríamos a lado algum. E já agora, além dos atacadores, deu corda aos sapatos que mandou fazer por medida. E depois abriu estradas e trilhos, escavou atalhos, desbravou matos e silvados. E por fim levou-nos caminhando pelos caminhos dele, com os sapatos dele, os atacadores dele, para uma outra vida e uma outra terra. Foi um descobridor da língua. Devíamos estar-lhe agradecidos.

E se ouvirem a Amália cantar a ‘Gaivota’, versos deste senhor, podem chorar à vontade. E podem molhar os sapatos, estão garantidos para a eternidade.