Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

“O milagre do sol nunca me interessou. Não conheço nenhum artigo científico sobre ele”, diz Carlos Fiolhais.

CAOS. Para Carlos Fiolhais, tal como para os outros subscritores do documento, o AO criou “um monstro”

GONÇALO ROSA DA SILVA

O conhecido físico, com quem o Expresso falou numa conferência em Matosinhos, esclarece que não se trata de rejeitar a religião. Disse que as relações entre ciência e religião já estiveram piores. E contou as viagens muito reais de Einstein – as mentais, pelo Universo, e depois as físicas, pela Terra

Luís M. Faria

Jornalista

Em 1919, o jornal "O Século" trazia um título sugestivo: "A Luz Pesa". O cientista Carlos Fiolhais comparou-o este sábado a um verso de Eugénio de Andrade, numa conferência que deu em Matosinhos. O tema era Einstein, e a ocasião o LeV, o festival sobre literatura de viagens que essa cidade vizinha ao Porto acolhe na primavera.

A referência ao "Século" surgiu a propósito do famoso eclipse de 1919 que confirmou quase magicamente as previsões de Einstein sobre o modo como os raios de luz vindos das estrelas por trás do sol se desviariam ao razar esse astro, devido à deformação do espaço.

A expressão "quase" é bastante pertinente, pois o efeito em causa nada teve de mágico. Resultou das leis da natureza, e Einstein tinha-o previsto com base na matemática. Mas para quem não compreende nem uma coisa nem outra, ele deve ter parecido um mágico.

O certo é que começou aí a fama universal do físico, e nos anos seguintes ele realizaria uma série de longas viagens pelo mundo, sempre de barco e sempre a convite. Fiolhais enumerou-as, sem esquecer uma breve escala lisboeta, em março de 1925, que resultou em observações sobre a apatia portuguesa ("sem consciência nem objetivos") e numa descrição do porte altivo das varinas.

Como ontem foi 13 de maio e o papa estava em Portugal a canonizar os pastorinhos, e além disso foi também no jornal "O Século" que em 1917 surgiu uma famosa reportagem sobre o Milagre do Sol, lembrámo-nos de perguntar a Fiolhais - reconhecendo o provável absurdo da pergunta - que relação entre os dois 'milagres' poderia ser interessante explorar para compreender formas diversas de abordar o mundo.

Existe algum paralelo ou contraste que ache ilustrativo?

Nenhum paralelo ou contraste. Não têm nada a ver. São domínios diferentes. A ciência liga com o observado, o experimentado. Também há crença, mas justificada pela observação ou a experiência. Nenhum cientista andou a estudar o milagre do Sol. A ciência não estuda milagres.

Nem por curiosidade?

Nem sequer isso. Eu não tenho curiosidade, se me pergunta. Nunca me interessou o assunto, pois era perda de tempo. O que se passou, se é que se passou alguma coisa, foram apenas relatos do domínio do individual e do espiritual. Esses fenómenos, que existem, não têm a ver a ciência. Como aliás outros. Se você se emociona com uma musica ou uma peça literária, acha que a ciência tem de explicar porquê?

Muitas pessoas religiosas acham que de facto o sol se mexeu daquela maneira...

Que pensem. Mas os cientistas não vão estudar nem confirmar isso. Não conheço nenhum artigo sobre o assunto.

Não falando de quem lá esteve e viu, ou diz ou viu, fosse por que motivo fosse, mas de pessoas religiosas do nosso tempo que garantem que o sol se há-de ter movido mesmo, uma vez que cem mil pessoas o viram...

Bom, o sol move-se (risos). Qualquer pessoa pode dizer o que quiser. Mas para haver alguma evidência de alguma coisa, são precisas observações fidedignas. Um agrupamento de pessoas como motivações religiosas não são testemunhas fidedignas. Há muitos observatórios em Portugal, na Europa, em todo o mundo, que nesse dia estiveram a ver o sol. Em Coimbra, por exemplo, há um que tira fotografias do sol todos os dias. Não houve anomalia absolutamente nenhuma. Nenhuma.

Se tivesse havido em Portugal, também teria havido em Espanha e no resto do mundo. O sol é só um.

Exatamente. Mas não interessa. Repito, não existe incompatibilidade entre religião e ciência. Há católicos a fazer ciência. Por exemplo, o padre Lemaître, o do Big Bang. Quando ele descobre isso, o Papa quer aproveitar: cá está, o início do mundo. E ele foi suficientemente honesto para dizer, não, não, não falo disso, não temos provas.

Ciência e religião são quase como duas partes diferentes do cérebro. Têm em comum o facto de ambas quererem penetrar o mistério. Enquanto uma delas fala do que é possível desvendar através do método, na outra nunca é possível desvendar senão talvez através dos dogmas, das igrejas organizadas.

Isso, obviamente, é o ponto de vista do cientista. Mas muitas pessoas religiosas não aceitam essa distinção. E as relações parecem estar a ficar tensas.

Não acho que esteja a ficar pior. Não está resolvido, nem nunca se vai resolver, mas nos Estados Unidos, quando se pôs a questão de ensinar o criacionismo nas escolas, por exemplo, o Supremo Tribunal tomou uma atitude decente. Disse que quem quisesse um ensino religioso podia tê-lo, mas as escolas oficiais deviam ensinar ciência. Quanto à Igreja Católica, eu diria que não há problema nenhum. O Papa aceita o Big Bang, aceita a evolução, e diz: cientistas, façam o vosso trabalho. Ele tem uma comissão, salvo erro a comissão pontifícia de ciências, cujo chefe é um prêmio Nobel da biologia, protestante, e da qual o Stephen Hawking faz parte. São oitenta sábios, e não se pergunta a religião de cada um. A questão é só o que eles sabem do mundo. Aliás, a Igreja tem um observatório astronómico no Arizona. Também há uma coisa de brincadeira, histórica, na residência do papa em Castel Gandolfo.

Nos últimos anos esta orientação intensificou-se, mas já vem de trás. O papa João Paulo II fez um gesto de que a Igreja gostou muito, que foi reabilitar Galileu. Ele tinha sido condenado pela Igreja há 400 anos. O Papa reabriu o processo é declarou, com palavras muito cuidadas, que o Galileu tinha razão.

Se é assim na Igreja Católica, pelo menos em relação à fisica, há igrejas evangélicas que têm serios problemas com o darwinismo. E contudo, nessa teoria parece haver provas materiais bastante mais concretas. Fósseis em continentes diferentes que partilham certas características, ou mesmo ADN.

O Einstein é muito mais certo do que a biologia. Não há comparação possível. Na biologia temos restos. Não podemos ir ao passado fazer experiências. Aqui sim. A evidência da física é muito maior.

Podemos ter a certeza absoluta de que as teorias teorias de Einstein estão corretas?

Não. A história da ciência diz que não há verdades absolutas. Isto é, podemos sempre saber mais e melhor. É uma questão filosófica. Os físicos aprenderam a ser modestos, são incapazes de dizer que têm a última palavra. Houve alguns no passado disseram isso e depois arrependeram-se. Os do século XIX achavam que sabiam tudo, e de repente aparecem a teoria da relatividade e a teoria quântica.

A teoria da relatividade não tem assim tanto impacto prático, mas a quântica sim. Isso que aí tem (aponta para o telemóvel) são transistores que funcionam de acordo com a teoria quântica. É teoria quântica condensada. Só tem valor porque nos ajuda nas nossas vidas. E aconteceu estudando um ramo da física que alguns no século XIX davam como morto. No século XIX nem sequer se sabia se havia átomos. Hoje em dia não só sabemos como os manipulamos, fazemos engenharia atómica, transistores cada vez mais pequenos…