Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A idade adulta

De volta ao ativo, a banda ‘desenhada’ mais celebrada da música pop oferece ao mundo uma mixtape de canções de intervenção

Louvamos esta versão adulta, mais séria e mais negra, dos Gorillaz: as canções ganharam outra dimensão, um outro corpo, uma maior densidade. Mas, após sete anos de afastamento, e por muito que “Plastic Beach” e o experimental “The Fall”, ambos editados em 2010, já deixassem no ar algumas pistas para perceber esta evolução, a verdade é que sentimos falta da ligeireza e diversão de canções como ‘Feel Good Inc’, ‘Dare’ ou o velhinho ‘19-2000’. “Humanz” é uma mixtape, perdão, um álbum de sombras, enigmático e a transbordar de colaborações interessantíssimas, celebrando a diversidade de registos e geografias (quer musicais quer espaciais) com as participações de Grace Jones, Benjamin Clementine, Jehnny Beth das Savages, De La Soul, Kelela, Vince Staples, Zebra Katz… A lista é infindável. No entanto, aquilo que se ganha com este choque de universos musicais perde-se em personalidade. Quem são os Gorillaz de 2017, afinal? Ficamos realmente a saber, com estes novos 20 temas (26 na edição expandida)? Nem por isso. A banda virtual de Damon Albarn deixa-se engolir num disco musicalmente demasiado disperso, ao qual falta a coesão, por exemplo, de “99,9%”, registo de estreia de Kaytranada, também amplamente colaborativo, editado no ano passado. Falta igualmente a frescura que poderia ter sido trazida por um punhado de temas mais respiráveis. ‘Andromeda’, com a colaboração de D.R.A.M., é o que temos de mais próximo disso, o que não deixa de ser curioso, visto que é indiscutivelmente a canção mais Gorillaz de todas as que aqui ouvimos.

O cariz político de “Humanz” era, neste período conturbado da história mundial, uma quase inevitabilidade — o primeiro avanço, ‘Hallelujah Money’, foi divulgado, sem coincidências, na véspera da tomada de posse de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos e Benjamin Clementine canta, sem um pingo de luz na voz, “pensei que a melhor forma de proteger a nossa árvore era construindo muros”... Muitas das canções debruçam-se, portanto, sobre temáticas que nos dizem respeito a todos, humanos: em ‘Ascension’, irrompendo por entre um grandioso coro gospel, Vince Staples deixa no ar coisas como “ouvi dizer que o mundo vai acabar em breve” ou “há polícia em todo o lado/ como se um negro tivesse matado um homem branco”; em ‘Saturnz Barz’, tema ao qual o jamaicano Popcaan empresta um pouco do seu reggae, ouve-se “o sistema força-me a ser um assassino” e “tenho dívidas, sou da ralé”; em ‘Submission’, Kelela canta o seu amor por Danny Brown, que lhe responde coisas como “tudo se resume ao todo-poderoso dólar/ ganância e luxúria, abuso de poder”. A esperança de um futuro diferente daquele que a Humanidade está a construir (ou destruir) neste momento chega, no último capítulo, na forma de um assertivo dueto de Albarn com Jehnny Beth: “Temos o poder de nos amarmos uns aos outros/ aconteça o que acontecer, temos esse poder”, canta a dupla... Mas, depois de um disco tão difícil de digerir, torna-se difícil acreditar verdadeiramente que ainda há salvação