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A Leste de um paraíso

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A Cortina de Ferro caiu, a Guerra Fria está congelada. Antes e depois de ambos os acontecimentos, duas figuras marcaram a História no leste da Europa: Soljenítsin, nas Letras, e Putin, na Política

Reinaldo Serrano

Não terá o protagonismo que outros agentes da política mundial têm merecido por parte da chamada opinião pública; reflexo de um mistério com o qual o ocidente sempre aprendeu a lidar (quando não, a fomentar), a Rússia – pré-soviética, soviética e pós-soviética – permanece ainda hoje como um puzzle demasiado grande para ser objeto de fácil apreensão. A atual liderança do imenso país (pátria de um povo e influência para outros) não ajuda a mitigar incertezas nem a dissipar dúvidas sobre o real pensamento político subjacente às ações tomadas no presente e num passado recente, mais exatamente quando o esfíngico Vladimir Vladimirovitch Putin assumiu os destinos da nação, em maio do ano 2000. Pese embora já a liderasse desde 1 de janeiro desse mesmo ano. De então para cá, muito se tem especulado, antecipado, justificado e errado nos juízos de valor tecidos sobre a figura do Senhor (do) Kremlin.

O significado da própria palavra (“fortaleza dentro de uma cidade”) é, em si mesmo, sintomático no que concerne à governação de Putin: rei e senhor do centro da decisão política, o homem forte da Rússia beneficiou dos seus próprios méritos e do demérito das políticas seguidas sobretudo depois da era Gorbachov. É pelo menos uma das leituras possíveis saídas da leitura de “O Novo Czar – A Ascensão e o Reinado de Vladimir Putin”.

A obra de Steven Lee Meyers, editada entre nós pelas Edições 70, é uma viagem fascinante que segue, a par e passo, o percurso pessoal, profissional e político de um homem nascido no seio de uma família humilde, que por causa de uma série televisiva quis ser agente secreto, e que teve um surpreendente trajeto até chefiar uma das nações mais poderosas, e influentes, do mundo. Saída da pena de um experiente e experimentado jornalista do “New York Times”, correspondente em Moscovo na altura da ascensão de Putin, esta biografia comentada revela os antecedentes familiares de Putin e a sua simultaneamente paulatina e firme ascensão no aparelho do Estado, as suas relações familiares e profissionais, o seu círculo de (poucas) amizades, a sua aproximação e afastamento de Bush, as motivações e obstinações na guerra da Chechénia, a sua liderança no FSB (o antigo KGB), a sua diplomacia, a sua aversão a campanhas eleitorais, as polémicas e suspeitas em que se viu envolvido, em suma: como se constrói o seu pensamento, o seu raciocínio e a lógica desconcertante em vários processos decisórios.

As conclusões ficarão, naturalmente, a cargo de quem as escolher e interpretar, sendo que a personalidade de Vladimir Putin não se alberga com facilidade sob o rótulo de um anjo ou de um diabo (o modo como lidou com o problema do “Kursk” é, no mínimo, bizarro) mas, mais importante que rotular um líder, é perceber qual a essência da sua liderança; só deste modo se podem aferir quais as suas eventuais virtudes e as suas eventuais fraquezas. Creio firmemente que, após a leitura, fácil e interessante, de “O Novo Czar”, é possível ter um retrato tão próximo quanto possível de alguém que, para o bem ou para o mal, já inscreveu, de forma súbita e inesperada, o seu nome nas letras que a História há de ler... e julgar.

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Eventualmente mais fácil é a apreciação da obra de Aleksandr Soljenítsin, nomeadamente daquele que será o seu expoente máximo: escrito entre 1958 e 1967, “O Arquipélago Gulag” é um poderoso retrato dos campos de detenção e de trabalhos forçados que proliferaram durante a liderança soviética de Josef Stalin. O manuscrito só seria descoberto pelo KGB em 1973 e a sua publicação oficial em território soviético só aconteceria em 1989, anos depois de já circularem edições na Europa Ocidental. Espelho vívido do quotidiano de presos políticos mas não só, o livro reflete as experiências vividas pelo próprio Soljenítsin durante os 11 anos que passou nos campos.

Romancista, dramaturgo e historiador, Aleksandr Soljenítsin recebeu o Nobel da Literatura em 1970 e deixa notável obra, designadamente o extraordinário “Um Dia na Vida de Ivan Denisovich”, onde já surgem as denúncias ao sistema prisional soviético e o duríssimo e raro (mas possível de encontrar em alfarrabistas) “O Pavilhão dos Cancerosos”; aqui, as críticas estendem-se a toda a sociedade soviética, sendo o hospital que serve de cenário à poderosa e genial narrativa uma alegoria ao inferno a que parecia condenada boa parte da nação “confiada” à liderança estalinista.

Aleksandr Solenítsin morreu há menos de uma década, com 89 anos, mas o seu legado em defesa dos direitos humanos continua a ser tão relevante como foi a sua própria vida. Saber até que ponto os fantasmas de ontem estão ainda presentes no país que é hoje a Rússia – e o seu líder – é um curioso exercício que se torna mais estimulante após a leitura da vida de Putin e da obra de Soljenítsin. Ambas se recomendam vivamente.