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Os Insubmissos

O FITEI decorre no Porto de 1 a 17 de junho. Na imagem, cena do projeto comunitário “Anjo Branco”, encenado por Graeme Pulleyne

D.R.

A história dos quarenta anos de vida do FITEI-Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica contém todos os elementos indispensáveis à construção do drama com espaço para a comédia e alguns toques de tragédia.

Nunca foi um festival bem-amado pelos diferentes poderes. Criado em 1977, quando os cravos continuavam viçosos, não obstante todas as curvas e contracurvas de um processo político e social ainda à procura de rumo, o FITEI assumiu desde a origem o propósito de rejeitar as anódinas opções de quantos, já então, defendiam para a arte um lugar numa espécie de Olimpo afastado das preocupações reais das pessoas concretas.

O FITEI nunca foi um espaço de transigência ou colaboracionismo. No FITEI nunca houve medo das palavras. Sobretudo nunca se confundiram lados ou trincheiras. Da América Latina, de Espanha e também de Portugal, em cada ano chegavam propostas teatrais marcadas por uma absoluta disponibilidade e empenho em questionar as ordens estabelecidas. Fossem elas estéticas, políticas ou sociais.

Nunca o FITEI pretendeu ser uma espécie de jardim migratório de revoluções a partir do possível intercâmbio entre os dois lados do Atlântico. Se algo sempre caracterizou o festival, foi uma singular resiliência, expressa em muitas das obras teatrais apresentadas ao nestas quatro décadas, mas em particular no modo como a organização do festival soube sempre resistir a todas as adversidades e contrariedades semeadas ao longo do caminho percorrido.

“Pajaro”, da chilena Trindad Gonzalez estará no Rivoli a 2 e 3 de junho

“Pajaro”, da chilena Trindad Gonzalez estará no Rivoli a 2 e 3 de junho

d.r.

Ainda um dia será contada a história de como até mesmo o poder local autárquico via com incómodo um festival que, apesar de único em todo o espaço de expressão ibérica, apesar de todo o prestígio construído além-fronteiras, nunca mereceu os apoios e o acompanhamento justificados pela dimensão da proposta ali contida.

Se é verdade que o grau mínimo desse apoio terá sido atingido nos mandatos de Rui Rio, não é menos certo que outros presidentes, do PS ou do PSD, não estão isentos de responsabilidade no cortar de pernas a um certame com todas as condições para atingir um lugar único no circuito internacional dos festivais de teatro.

O auge de um certo desprezo por tudo quanto o FITEi representa foi atingido durante o mandato do último governo PSD/CDS. Nunca ninguém ousara ir tão longe. O festival ficou durante dois anos sem qualquer apoio do Estado. Só não acabou, nem foi interrompido, devido ao extraordinário esforço da direção, da estrutura de apoio e de alguns agentes locais.

Aí entra também, e inevitavelmente, a discussão sobre o impacto das opções do poder central. Político e mediático. Ao longo dos anos foi criado um tabu, uma espécie de regra não escrita, segundo a qual qualquer referência aos privilégios de Lisboa em relação ao resto do país seria, não só pecaminosa, como a expressão de um ressabiamento mal resolvido de provincianos sem um pingo de cosmopolitismo.

“Como se chamavam os filhos de Medeia”, com texto de Eurípides, é uma criação da Escola Superior Artística do Porto

“Como se chamavam os filhos de Medeia”, com texto de Eurípides, é uma criação da Escola Superior Artística do Porto

d.r.

De tão martelada, a ideia conquistou espaço de cidadania e hoje são já raras as vozes que ousam dizer que, seja ou não de bom-tom, seja ou não visto um qualquer mau gosto no desejo de continuar a sustentar esta tese, a verdade é que há mesmo uma diferenciação de tratamento.

Embora a afirmação seja do domínio do indemonstrável, não será difícil admitir como inconcebível que alguma vez um importante festival de teatro de Lisboa ficasse dois anos sem qualquer apoio, como aconteceu entre 2014 e 2016 ao FITEI. Seguramente a decisão foi fundamentada. Terá havido erros atribuíveis ao próprio FITEI, mas a penalização não tinha que ser o corte radical e absoluto de apoios.

Ainda assim, o festival resistiu. Conseguiu não deixar de voltar todos os anos ao convívio do público. Todavia ficaram mossas, e graves. A estrutura de apoio praticamente desmoronou-se e, agora, é muito difícil reconstruir o que constituía um suporte sólido, constante e coerente.

Este ano, a Câmara do Porto reforçou o seu contributo e estão finalmente assegurados apoios através da Direção Geral das Artes. Ao comemorar 40 anos, o festival apresenta uma programação fortíssima. Isso só acontece graças à generosidade dos grupos e artistas oriundos de diferentes latitudes. A pouco mais de 15 dias do início do FITEI, a DG Artes ainda não disponibilizou as verbas contratualizadas por concurso. As teias da burocracia, a falta de sensibilidade, a incapacidade de perceber as especificares de uma iniciativa cuja programação começa a ser feita pelo menos com um ano de antecedência, fazem com que a organização de cada edição seja em cada ano um amontoado de dramas, quase tragédias e um permanente caminhar sobre o fio da navalha.

“Calypso”, uma criação de Marta Pazos/Mala Voadora, estará no teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo, e no teatro do Bolhão, no Porto

“Calypso”, uma criação de Marta Pazos/Mala Voadora, estará no teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo, e no teatro do Bolhão, no Porto

d.r.

A resiliência tem sido uma marca poderosa de um festival cuja existência ao longo de quatro décadas é, antes de mais, o resultado da capacidade e da firmeza de quantos se empenharam em erguer e manter o festival. De quantos, insubmissos, souberam dizer não às fatalidades anunciadas, aos silêncios impostos. De quantos, quando o mais fácil seria desistir, sempre souberam avançar. São muitos e é só graças a eles que ainda existe o Fitei.