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Fitei celebra a memória e a comunidade

Bacantes-Prelúdio para uma purga, com coreografia de Marlene Monteiro Freitas

Filipe Ferreira

No ano da celebração dos 40 anos, Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica apresenta 19 espetáculos oriundos de Portugal, argentina, Chile e Espanha

A poucos dias do início da sua 40ª edição, marcada para o próximo dia 1 de junho, o Fitei- Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica continua sem receber os apoios acordados com a Direção Geral das Artes, mas conta com um reforço da participação da Câmara Municipal do Porto a uma iniciativa sempre marcada por uma enorme capacidade de resiliência.

O programa deste ano terá grandes momentos, desde logo com o espetáculo de abertura, à volta do qual estão a ser criadas grandes expectativas. Trata-se da estreia de “Macbeth”, de William Shakespeare, numa encenação de Nuno Carinhas para o Teatro Nacional de São João, onde permanecerá em cena até 17 de junho, último dia do festival.

A confirmar um início marcado por grandes propostas teatrais, impõe-se, logo nos dias 2 e 3, no principal auditório do Rivoli, a presença da encenadora chilena Trinidad Gonzalez, com “Pájaro”, uma peça de que é também autora e intérprete.

A extensão do festival a Viana do Castelo explorará a temática da pesca do bacalhau e a obra de Bernardo Santareno através da peça “Anjo Branco”, uma criação comunitária programada para 3 e 4 de junho, encenada por Graeme Pulleyn e com a participação das oficinas de teatro regulares do projeto Comunidade do Teatro do Noroeste; ATIVAjúnior, ATIVAsénior e Enquanto Navegávamos, composta por ex-trabalhadores do Estaleiros Navais de Viana do Castelo.

Da Argentina vem “Todo lo que está a mi lado”, a apresentar durante o “Serralves em festa”, no Jardim da Marina de Viana do Castelo e na Cobertura do Metro da Trindade, no Porto. Uma cama, uma atriz, um espetador e dez minutos de performance. É quanto propõe o encenador Fernando Rubio.

Ainda da Argentina, Lola Arias apresenta “Campo Minado”, a 8 e 9 de junho no Teatro do Campo Alegre. O ponto de partida é um estúdio de cinema transformado em máquina do tempo. Alguns combatentes são teletransportados ao passado e reconstroem as memórias da guerra das Maldivas, numa viagem que coloca em confronto as vivências de combatentes dos dois lados.

No limite da Dor

A partir do livro “No Limite da Dor”, de Ana Aranha e Carlos Ademar, o Mosteiro de São Bento da Vitória recebe a 7 de junho a peça com o mesmo nome, encenada por Júlio César Ramirez. Cruzam-se ali quatro histórias através das quais se lança um olhar sobre o tormento vivido por muitos lutadores e lutadoras às mãos da PIDE, nos anos da ditadura em Portugal.

“Filhos do Retorno”, do Teatro do Vestido, com texto, direção e co-criação de Joana Craveiro, ocupará o Teatro do Campo Alegre a 9 e 10 de junho e trabalha as pós-memórias de personagens cujos pais ou familiares próximos viveram em África no período colonial português.

Entre os destaques dos últimos dias do Fitei está em lugar de relevo “Inferno”, de João Brites/Teatro o Bando. É a primeira estação de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri e constitui um dos desafios maiores de um grupo habituado a apostas na aparência impossíveis.

A fechar, na noite de 17, o grande auditório do Teatro Rivoli recebe o inusitado espetáculo concebido por Marlene Monteiro Freitas. A partir de Eurípides constrói “Bacantes – Prelúdio para uma purga”, um espetáculo que poderia integrar o Festival Dias da Dança, abre novos caminhos e cativa novos públicos ao ser inserido na programação do Fitei.

Como é hábito, o festival terá numerosas iniciativas paralelas. Logo a abrir, ao fim da tarde do dia um faz apelo às origens e convoca para a cooperativa árvore uma homenagem a quantos marcaram a história do Fitei. Nos dias 5 e 12 o festival estará no Pinguim Café para as segundas de poesia. Haverá lugar ainda para o lançamento do livro “Fitei 40 anos – O Festival do Porto”.

Em declarações ao Expresso, Gonçalo Amorim, diretor Artístico do certame, sublinhou o facto de o Fitei ter cumprido a missão de trazer ao Porto “os grandes espetáculos portugueses e internacionais o espaço ibero-americano. Na maioria destes 40 anos, quem apresentava programação internacional no Porto era o Fitei”.

Sempre com grandes dificuldades, sempre “a escavar, às vezes a viver da bilheteira, mas o Porto presta a homenagem ao festival, porque não é fácil de ter essa vontade de assegurar que, não havendo nada, estamos cá nós”.