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Mac DeMarco cresceu e quis que todos soubéssemos

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O que acontece quando um cantor conhecido como “palhacinho do indie pop” decide enfrentar os seus receios? Um disco maduro e lírico. E este lado adulto não lhe fica mal

Soraia Pires

Soraia Pires

Jornalista

Mac DeMarco é um tipo sensível - sabemos disso pelo romantismo das suas canções. Também é um tipo com sentido de humor, descontraído com os seus chapéus esquisitos, o estilo “preguiçoso” e com o que faz em palco - andar nu é um dos atributos mais vistosos.

Sabemos que num concerto dele nunca não haverá aborrecimentos - até porque ele gosta de entreter os fãs: “Quando acho que o concerto está a correr mal, dispo-me”. Mas o que vemos nos seus concertos (e observamos muita extravagância) é só uma parte de Mac e não a sua essência. “This Old Dog”, acabadinho de sair, é prova disso mesmo.

Ele olha-se ao espelho e não esconde que fala para si e sobre si neste disco novo. Até porque “não conhece mais nada além da sua vida para falar”. Nos últimos cinco anos, o canadiano de 27 anos tentou mostrar que é feito de sinceridade e romance, de receios e entusiasmos. No trabalho anterior, o miniálbum “Another One” (2015), já não escondia algumas fragilidades emocionais com canções de amor de desfechos ansiosos e tristes. Em “This Old Dog”, converteu-se em canções cruas e honestas sobre a sua família (“Sister”, “My Old Man”), a namorada (“For The First Time”), o amadurecimento (“This Old Dog”) e sobre despedidas (“Watching Him Fade Away”).

Mas “This Old Dog” não é um álbum triste. O “jizz jazz” suave continua presente, com riffs melódicos e sintetizadores adequadamente lentos. O disco nasceu no chão do seu antigo quarto em Nova Iorque, ao som de James Taylor e Paul Simon. Escreveu algumas das canções lá, antes de se mudar para Los Angeles. E foi por lá que se lembrou que tinha família - e teve necessidade de falar dela. Escreveu com o coração, portanto - é assim que deve ser. As letras - que são a virtude deste álbum e o que mais sobressai em comparação com os trabalhos anteriores - são genuínas e despretensiosas. Ele compõe a seu gosto e o isso basta-lhe. Mac DeMarco cresceu - à maneira dele - e quis que todos soubéssemos.

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A carta de despedida para um “homem qualquer”

California, 2013. Eles não se viam há algum tempo. Decidiram encontrar-se à noite num parque de estacionamento, horas antes de um concerto que Mac DeMarco ia dar em Santa Ana, Califórnia. Tiveram uma conversa casual. O cantor ficou de pé e ele dentro do carro, sentado, enquanto lhe ofereceu um chapéu de praia, como os que costuma usar. Mac convidou-o para assistir ao concerto, mas ele não podia: “I got to go”. Prometeram tornar a ver-se e despediram-se com a estranheza do momento. Mac deMarco apresentou a pessoa ao mundo: “Yeah, that's my old man”. O seu pai, Mac III.

Mac deixou de ter o pai presente na sua vida quando tinha cinco anos. Nessa altura, a mãe, Agnes deMarco, fez um ultimato ao pai - viciado em álcool e drogas: ou pagava a pensão de alimentos durante seis meses ou os filhos deixavam de ter o seu apelido. O dinheiro nunca chegou e Mac passou a ser DeMarco, alguém que sabe que devia agir como um filho para o pai mas que, para ele, “é um homem qualquer”. Ficam os ocasionais momentos em que se encontram ou falam pelo telefone.

Mac III ganhou um grande destaque neste álbum devido ao cancro que lhe foi diagnosticado no ano passado e que levava a crer que teria pouco tempo de vida. E “This Old Dog” é quase uma despedida ao pai que não vê como pai. A faixa “My Old Man”, a que dá início ao álbum, leva-nos, através dos sintetizadores e da guitarra acústica, para uma crise de identidade vivida por DeMarco. Ele não quer ser igual ao pai: “Olha-te ao espelho / O que vês? / Alguém familiar / Mas de certeza que não sou eu/ Porque ele não pode ser eu”.

Em “Moonlight in the river” ouvimos sinceridade despida de pretensões e carregada de crueza: “Eu diria: vejo-te mais tarde / se eu pensasse que te veria mais tarde / e dir-te-ia que te amava se te amasse”. É quase uma carta de despedida. Um “see you later”, como o próprio clarifica. DeMarco olha a mortalidade nos olhos e não tem medo disso.

Quem é que posso culpar?

Mac DeMarco consegue ser querido quando quer. Este álbum - que será o último pela editora Capture Tracks - é também sobre amor. Na quarta faixa, “For the first time”, Mac fala sobre a sua namorada, Kiera McNally - uma presença religiosa nos seus discos -, sobre o tempo em que ela fica em casa dele à espera do regresso das tours e do medo dele em que ela se canse das constantes ausências. “Tu sabes que ela não desaparece para sempre / Há muitas vezes em que sinto isso / E não tento esquecê-la / Percebe apenas como me vou sentir nesse dia”. E é também sobre amor que “Sister” fala: amor pela sua meia-irmã. Numa letra curta (tal como a faixa), DeMarco carrega a voz de tranquilidade e faz um anúncio: “Gostava de poder fazer mais / E, sempre que ouvires isto/ Irmã, espero que saibas que o meu coração está contigo.”

Na faixa “This Old Dog” não há uma declaração mas sim uma confissão. Porque mesmo que o seu amor seja colocado em espera, ele não se esquece. “Este cão velho não se vai esquecer/ De tudo o que tivemos e o que está para vir / Enquanto o meu coração continuar a bater / não me vou esquecer”.

E a forma como encara a vida fica refletida em “On The Level”. Os sintetizadores bamboleantes e a sua voz distante e quase sussurrada levam-nos para as expectativas que os outros têm sobre ele. E direcionam-nos para o possível fim da relação que tem com o seu pai: “Carrego um nome / Até o meu dia final / E quem é que posso culpar?”. E a última canção do álbum é talvez a mais crua. “Watch Him Fade Away” é sobre o pai, sobre dizer adeus a alguém que nunca esteve muito presente. Sobre não ter coragem para a despedida: “E mesmo que mal nos conheçamos/ Magoa vê-lo desvanecer-se”.

This Old Dog acaba da mesma forma que começa: com o seu pai, o seu “old man”. Em 2013, a mãe de Mac DeMarco perguntou, numa entrevista dada à “Pitchfork”, o que é que um filho pode dizer a um pai que sabe que preferiu o álcool e as drogas a ele. Quatro anos depois, este álbum é a resposta.