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A primavera é para sempre

Os Real Estate sobreviveram — e com saúde — à saída de Matt Mondanile, guitarrista principal desde a primeira hora

Pode uma oficina de guitarras cristalinas sobreviver à saída do seu artesão? Pode um velho amor ganhar novo fôlego? Sim e sim

Luís Guerra

Jornalista

No momento em que estas palavras se esgueiram, há um céu azulíssimo que acalenta. Sim, os tormentos persistem, mas a olhar para cima qualquer neurótico dá em epicurista por 30 segundos. Na folga de querubins desenhados nas nuvens, uma banda faz trinar guitarras celestiais. Silêncio, que se vai decantar o fardo. “In Mind”, chamam-lhe. Está tudo na cabeça, anuímos.

Há quase um ano, num manto verde na zona oriental de Lisboa, os cinco americanos que agora ouvimos, harmoniosamente, juntar cordas a ritmo compassado e voz maviosa viram abater sobre uma plateia de poucos, mas ferventes, acólitos uma carga de água digna de um desengraçado novembro. Nesse fim de tarde até pouco antes soalheiro do final de maio, o palco alternativo do Rock in Rio-Lisboa, refúgio de melómanos indie num dia em que o cenário principal moveu ancas como Jagger (via Maroon 5) e levantou poeira (com uma ajudinha de Ivete Sangalo), cheirava a terra molhada.

Mais contundente balde de água fria tinha sido, ironicamente, servido alguns dias antes. Num curto comunicado, os Real Estate anunciavam a saída do seu guitarrista principal desde a primeira hora, Matt Mondanile, parte indissociável de um deslumbre pela primeira vez sinalizado ao som de ‘Beach Comber’, o cume do álbum homónimo de 2009. Sem Matt, tecelão das canções que no Parque da Bela Vista se reproduziam, a ver o povo a fazer de duas árvores o seu telheiro, uma banda outrora cintilante parecia perdida no festival errado, no dia errado, numa primavera mentirosa. Às vezes é quanto basta para que a fortuna vire enguiço: tão bons que eram os Real Estate que a enxurrada levou.

Só que não foi assim. É certo que Matt não voltou — ficou com os Ducktails e seguiu a sua vida —, mas os Real Estate, evoluindo da condição de banda à de ideia, voltaram à oficina e de lá saíram com um novo e excitante desdobramento da sua arte. Martin Courtney, vocalista e compositor principal, esboçou o esqueleto para que Julian Lynch, o novo depositário das seis cordas primordiais, pudesse servir a ideia sem perdas que se vejam. Ao rebate de ‘White Light’ parece evidente que Lynch, o novo recruta, não é uma mera peça de substituição. “Martin trouxe as suas composições ao resto da banda e, na maior parte dos casos, compusemos as nossas partes nos nossos instrumentos. Por isso, houve lugar à criatividade individual”, responde-nos um músico que, confessa, conhece os atuais companheiros “desde os 15, 16 anos” e traz para o coletivo uma afeição assumida pela trança de guitarras dos Television (Tom Verlaine e Richard Lloyd) e pelo impressionismo de Adrian Belew. Tão frugal como inspirado.

Uma nova primavera começa com ‘Darling’, dedilhar viciante, filigrana e plano geral em concórdia universal. Imediatamente a seguir, ‘Serve the Song’, título que se explica a si próprio, é tão simples como parece (“I woke up Sunday morning/ Back where I belong/ The chorus only interrupts/ I sing to serve the song”). Prolongando uma sequência balsâmica, ‘Stained Glass’ é jangly e arejada como só os Real Estate sabem ser e, mais adiante, resplandece novamente um sublinhar da guitarra, fio condutor, capaz de trocar as voltas aos mais céticos — ‘Two Arrows’, canção maior do que todas as outras, é uma delícia na forma como ganha corpo para, ardilosamente, se aproximar dos caprichos de “Abbey Road”, dos magnânimos Beatles. Aqui, ao cutucar o passado dos outros, os Real Estate ganham o seu futuro. E é bonito.