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Quando o 25 de Abril levou Amália à Itália

O 25 de Abril acelerou a sua carreira internacional. Um triplo CD mostra um furacão chamado Amália em Itália

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

"Amália em Itália" regista a loucura que a regina Rodrigues espalhou em Roma, mas também em Milão, Turim, Nápoles, Parma, Bolonha, na cadeia de televisão RAI ou nos discos que gravou expressamente para o mercado italiano. Tudo começou em 1970, quando Amália atuou, pela primeira de muitas vezes, em nome próprio, no Teatro Sistina. No ano em que publicou o álbum "Com Que Voz" - por muitos considerado a sua obraprima, exclusivamente preenchido por música de Alain Oulman e com uma escolha de considerados poetas portugueses supervisionada por David Mourão-Ferreira - dava início a uma carreira italiana que galopa a partir de 1974. Amália não tinha Portugal... mas tinha o estrangeiro.

Por aqueles dias, os seus compagnons de route haviam seguido outras pistas, e ela queixou-se naquela que foi alegadamente a sua última entrevista, publicada no "Sol" no 10º aniversário da sua morte: "O Ary, não gostei do que fez. Tanta vez que esteve aqui nesta casa - e depois só me telefonou uma vez a perguntar se eu precisava de alguma coisa. Não, só precisava de cantigas... Ninguém, nem o David, saiu a dizer: 'Olhem que isso é mentira, ela não tem nada a ver com essas coisas.' Ninguém o disse.

Só o Alain, que era mais comunista do que os outros todos. Era maoista..." De pouco lhe terá valido gravar, ainda em 1974, uma versão de 'Grândola' de José Afonso. Seria lá fora que a sua carreira continuaria a vingar depois do silêncio que se impôs em casa. Muito por conta de um agente francês, Jean-Jacques Lafaye, que aproveitou a deixa para lhe relançar a carreira internacional. Aos 54 anos, Amália já tinha lançado charme e ateado chamas em Paris, Nova Iorque, Rio de Janeiro ou Madrid, mas o seu percurso fora de portas viria a conhecer novo alento após a Revolução dos Cravos.

"Amália em Itália", mais uma das reedições que Frederico Santiago tem empreendido sob a égide da Valentim de Carvalho, levanta várias questões e confirma um par de certezas. Que a presente edição mantém o alto perfil das publicadas desde "Busto" e "Com Que Voz", e nas quais se devem incluir "Someday", "Canta Portugal" ou "Amália no Chiado", pelo apurado trabalho de fixação da sua discografia - e onde se fazem incluir inéditos, versões alternativas ou tão-só raridades, além de notas explicativas preciosas na contextualização da carreira, ainda que não substituam a imperiosa necessidade de uma biografia de feição historiográfica que suceda à obra seminal de Vítor Pavão dos Santos. Um único senão: tal sucede em CD, tarde e a más horas, quando o formato está prestes a entregar a alma ao criador.

Reafirma-se também, e isso é notório no alinhamento dos concertos aqui presentes - Roma, em 1973 e 1976, mas também Palermo, Catânia e Milão, em gravações para um documentário de Augusto Cabrita que nunca chegou a estrear-se -, a arte meticulosa na escolha do reportório.

Seja no álbum de estúdio, todo em italiano, "A Una Terra Che Amo", seja, sobretudo, nos espetáculos. Em concerto, fica provado o apetite voraz da regina para saciar o público local - como aliás faria noutras paragens -, mostrando que era génio jubilado em comunicação. Sendo o fado o seu cartão de visita, só um ou dois do seu fulgurante reportório eram incluídos no concerto. 'Povo Que Lavas no Rio' é apresentado como "o fado que deu sentido à palavra fado". Como sublinha Santiago, estes eram o pináculo da sua prestação em cada noite, mas tudo o resto gira em torno de malhões, marchas, trechos do cancioneiro popular e do folclore português, mas também da música italiana e de muitas espanholadas.

São vários os fados traduzidos para a língua italiana. Um exemplo de agressividade comercial imparável.

A escolha das canções italianas é finíssima e, tal como fez e haveria de fazer com o reportório português, corre desde temas do século XIII até aos grandes êxitos do momento, da tarantela de Nápoles à Toscana, de Roma ao popular da Sicília 'Vitti 'na Crozza', acompanhado em coro, como ela queria, pelo público.

Por fim, a voz. Depois dos 50 anos, Amália já não está no seu maior fulgor (e notam-se as diferenças de 1970 para 1973 e daí para 1976), mas casa frescura e maturidade, expressão e subtileza, grito e dicção, sabedoria e meninice. Nenhum malestar consegue abafar essa verve. O vaivém político que desde sempre e até hoje colou o fado ora à esquerda ora à direita não tem, afinal, nada a ver com o fado. E muito menos com Amália.

"Amália em Itália" regista a loucura que a regina Rodrigues espalhou em Roma, mas também em Milão, Turim, Nápoles, Parma, Bolonha, na cadeia de televisão RAI ou nos discos que gravou expressamente para o mercado italiano. Tudo começou em 1970, quando Amália atuou, pela primeira de muitas vezes, em nome próprio, no Teatro Sistina. No ano em que publicou o álbum "Com Que Voz" - por muitos considerado a sua obraprima, exclusivamente preenchido por música de Alain Oulman e com uma escolha de considerados poetas portugueses supervisionada por David Mourão-Ferreira - dava início a uma carreira italiana que galopa a partir de 1974. Amália não tinha Portugal... mas tinha o estrangeiro.

Por aqueles dias, os seus compagnons de route haviam seguido outras pistas, e ela queixou-se naquela que foi alegadamente a sua última entrevista, publicada no "Sol" no 10º aniversário da sua morte: "O Ary, não gostei do que fez. Tanta vez que esteve aqui nesta casa - e depois só me telefonou uma vez a perguntar se eu precisava de alguma coisa. Não, só precisava de cantigas... Ninguém, nem o David, saiu a dizer: 'Olhem que isso é mentira, ela não tem nada a ver com essas coisas.' Ninguém o disse.

Só o Alain, que era mais comunista do que os outros todos. Era maoista..." De pouco lhe terá valido gravar, ainda em 1974, uma versão de 'Grândola' de José Afonso. Seria lá fora que a sua carreira continuaria a vingar depois do silêncio que se impôs em casa. Muito por conta de um agente francês, Jean-Jacques Lafaye, que aproveitou a deixa para lhe relançar a carreira internacional. Aos 54 anos, Amália já tinha lançado charme e ateado chamas em Paris, Nova Iorque, Rio de Janeiro ou Madrid, mas o seu percurso fora de portas viria a conhecer novo alento após a Revolução dos Cravos.

"Amália em Itália", mais uma das reedições que Frederico Santiago tem empreendido sob a égide da Valentim de Carvalho, levanta várias questões e confirma um par de certezas. Que a presente edição mantém o alto perfil das publicadas desde "Busto" e "Com Que Voz", e nas quais se devem incluir "Someday", "Canta Portugal" ou "Amália no Chiado", pelo apurado trabalho de fixação da sua discografia - e onde se fazem incluir inéditos, versões alternativas ou tão-só raridades, além de notas explicativas preciosas na contextualização da carreira, ainda que não substituam a imperiosa necessidade de uma biografia de feição historiográfica que suceda à obra seminal de Vítor Pavão dos Santos. Um único senão: tal sucede em CD, tarde e a más horas, quando o formato está prestes a entregar a alma ao criador.

Reafirma-se também, e isso é notório no alinhamento dos concertos aqui presentes - Roma, em 1973 e 1976, mas também Palermo, Catânia e Milão, em gravações para um documentário de Augusto Cabrita que nunca chegou a estrear-se -, a arte meticulosa na escolha do reportório.

Seja no álbum de estúdio, todo em italiano, "A Una Terra Che Amo", seja, sobretudo, nos espetáculos. Em concerto, fica provado o apetite voraz da regina para saciar o público local - como aliás faria noutras paragens -, mostrando que era génio jubilado em comunicação. Sendo o fado o seu cartão de visita, só um ou dois do seu fulgurante reportório eram incluídos no concerto. 'Povo Que Lavas no Rio' é apresentado como "o fado que deu sentido à palavra fado". Como sublinha Santiago, estes eram o pináculo da sua prestação em cada noite, mas tudo o resto gira em torno de malhões, marchas, trechos do cancioneiro popular e do folclore português, mas também da música italiana e de muitas espanholadas.

São vários os fados traduzidos para a língua italiana. Um exemplo de agressividade comercial imparável.

A escolha das canções italianas é finíssima e, tal como fez e haveria de fazer com o reportório português, corre desde temas do século XIII até aos grandes êxitos do momento, da tarantela de Nápoles à Toscana, de Roma ao popular da Sicília 'Vitti 'na Crozza', acompanhado em coro, como ela queria, pelo público.

Por fim, a voz. Depois dos 50 anos, Amália já não está no seu maior fulgor (e notam-se as diferenças de 1970 para 1973 e daí para 1976), mas casa frescura e maturidade, expressão e subtileza, grito e dicção, sabedoria e meninice. Nenhum malestar consegue abafar essa verve. O vaivém político que desde sempre e até hoje colou o fado ora à esquerda ora à direita não tem, afinal, nada a ver com o fado. E muito menos com Amália.