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Óscar ou o nome de um sábio

Óscar Lopes faria 100 anos em outubro e a Faculdade de Letras da Universidade do Porto resolveu homenageá-lo com uma exposição inaugurada esta quinta-feira

António Pedro Ferreira

A Faculdade de Letras da Universidade do Porto inaugura uma exposição que celebra o centenário do nascimento de Óscar Luso de Freitas Lopes, um dos nomes maiores da cultura portuguesa do século XX, como linguista, crítico e historiador literário

Aqueles de nós para quem a fortuna de quando em vez admite conceder um sorriso, poderão ter a felicidade de, pelo menos uma vez na vida, vivenciarem acontecimentos, cruzarem-se com personagens, testemunharem situações raras, porventura únicas, talvez irrepetíveis. São momentos marcantes, inesquecíveis e com o poder de nos moldarem a memória ao longo dos tempos.

Numa época de fragmentação do saber, marcada pelo culto da especialização numa só matéria, é útil recordar o luminoso exemplo de homens e mulheres que o tempo já levou, mas dos quais guardamos a invejável recordação de um saber, de um conhecimento tão ávido quanto esmagador.

De alguma forma eram sábios. Podemos pensar numa Maria Helena Rocha Pereira, recentemente falecida e com quem por várias vezes tive a oportunidade de ter longas conversas, num Agostinho da Silva, que nunca conheci, ou em Óscar Lopes, com quem tive a oportunidade de conviver a partir da conquista da liberdade em Portugal.

Constituía a representação maior do que poderemos entender por um sábio. Ocorre-me uma das últimas visitas a sua casa, numa rua transversal à Avenida da Boavista, no Porto, e o modo como se tornara, mais do que sempre fora, um leitor compulsivo, com o acumular de livros a condicionar qualquer movimento no interior dos diferentes compartimentos da habitação.

Caps da primeira edição da História da Literatura Portuguesa

Caps da primeira edição da História da Literatura Portuguesa

Naquele dia, além de astronomia, matemática, linguística – uma das suas grandes paixões – música ou ciência e os seus múltiplos desafios, falou-se de literatura, mesmo se nunca deu aulas de literatura na Faculdade de Letras, onde o fascismo português o proibiu de ensinar, e apesar de ser autor, com António José Saraiva, de uma “História da Literatura Portuguesa” responsável pela formação de sucessivas gerações de portugueses e continuadamente reeditada. Ou, ainda, de ter sido um dos mais reputados críticos literários, sobretudo a partir das páginas do “Comércio do Porto”, ao longo dos anos de 1950 e 1960 ou, antes, nas revistas “Vértice” e “Seara Nova”, das quais foi um dos principais dinamizadores.

A Faculdade de Letras da Universidade do Porto inaugura hoje uma grande exposição destinada a celebrar o centenário do nascimento de Óscar Luso de Freitas Lopes, ocorrido no dia 2 de outubro de 1917. A mostra, com fotografias, manuscritos e numerosos documentos, reconstrói o percurso de um dos nomes maiores da cultura portuguesa do século XX, homem de inúmeros saberes e infindáveis interesses, linguista, crítico e historiador literário, professor, militante antifascista e, sobretudo, um homem de uma grande generosidade.
Naquela tarde de longa conversa, num período em que a surdez o remetera já para uma vida de quase clausura, dizia-me, ainda assim, ser um otimista condicionado. Não recordava rancores, nem amarguras.

Conspirou, teve encontros clandestinos em casas clandestinas durante mais de duas décadas. Foi preso. Esteve meio ano remetido a um quarto com três metros quadrados, sem janela. A luz entrava por uma frincha. O dia parecia-lhe noite. Tentaram quebrá-lo. Nunca o conseguiram. Naquele emaranhado de recordações acaba a afirmar a sua repulsa por Salazar. Não seria capaz de lhe dar um tiro, sublinha, mas simplesmente não o suportava. Não apenas pelas convicções reacionárias, mas também por se lhe afigurar repugnante tanta hipocrisia concentrada numa só pessoa.

Óscar Lopes vivia rodeado de livros

Óscar Lopes vivia rodeado de livros

antónio pedro ferreira

Nesse encontro já distante no tempo, também falou de religiões. Estaríamos em meados de 2002, creio, e dizia-me Óscar Lopes que “as religiões oficiais ganharam uma força que faz com que o seu estímulo seja precisamente uma demonstração das fraquezas humanas. Quem não tem qualquer outra esperança, refugia-se no ignoto, no desconhecido, no mistério. E é por isso que eles matam”.

Palavras sábias de um homem cuja vida sempre foi dificultada pela pequenez pacóvia de um certo fascismo de trazer por casa. Foi militante do PCP até à morte, ocorrida no dia 22 de março de 2013. O preço pago pela militância foi elevadíssimo, mas, assegurou-me naquela tarde em que cada hora parecia escoar-se tão rápido como um segundo se evapora, voltaria a fazer tudo na mesma.

Era a vontade e a convicção do tal otimista condicionado. A frase carece de explicação. O condicionamento resultava de uma constatação objetiva. A inexorável marcha do tempo fazia-o antever a proximidade do fim. Por isso, dizia, “a prazo estou batido”.

A morte levou-o fisicamente. A vida de todos nós guarda o imenso legado de um homem para quem o sentido da vida passava pela absoluta urgência de construir uma vida com sentido.