Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Os deuses estão loucos

Shadow (Ricky Whittle) e o deus da mitologia eslava Chernobog 
(Peter Stormare) enfrentam-se em “American Gods”

Bryan Fuller e Michael Green pegaram no livro de Neil Gaiman e transformaram-no em série de televisão. “American Gods”, em streaming no Amazon Prime Video, mostra-nos uma América diferente

A única coisa boa de estar preso é o alívio. Não te preocupas se te vão apanhar quando já foste apanhado. O amanhã nada pode fazer que o dia de hoje já não tenha feito.” No pátio da prisão, e a apenas cinco dias — 120 horas, mais coisa menos coisa — de sair da prisão, Shadow Moon (interpretado por Ricky Whittle) ouve as palavras de Low Key Lyesmith (Jonathan Tucker) em silêncio. O tempo que lhe resta lá dentro é tão pouco que é preferível manter-se calado para que tudo corra pelo melhor.

Condenado a seis anos de prisão por assalto agravado e agressão, cumpriu três e vai sair em liberdade no final da semana. Acaba por sair ainda mais cedo, mas o motivo da decisão de o libertar é uma penitência muito mais dolorosa do que o tempo que passou encarcerado. Laura Moon (Emily Browning), a sua mulher, teve um acidente de automóvel e morreu. Shadow ainda não sabe, mas a sua vida está prestes a mudar. E não é apenas a perda de alguém que se ama que está em causa.

O homem, que não acreditava em nada que não pudesse ver, vai transformar-se no servo perfeito de um deus ‘da velha guarda’ e abraçar a missão de encontrar outros deuses esquecidos — como Czernobog (Peter Stormare), Bilquis (Yetide Badaki), Mr. Nancy (Orlando Jones), Easter (Kristin Chenoweth) ou Mad Sweeney (Pablo Schreiber). O objetivo de Mr. Wednesday — personificação de uma divindade antiga, o nórdico Odin, interpretado por Ian McShane — é reunir os seus para enfrentar os deuses contemporâneos, mas a guerra ainda só está no início. E será Shadow a travá-la. O ex-recluso, habituado a viver privado de qualquer liberdade, não a vai conquistar tão cedo. Percorrer os Estados Unidos não é prémio, faz parte do contrato, e Shadow terá de enfrentar a fúria de entidades divinas, cuja força é muito superior à que adquiriu enquanto praticava musculação na prisão, pelo caminho. Technical Boy (Bruce Langley) é o deus da tecnologia e vai usar tudo o que estiver ao seu alcance para impedir Shadow de alcançar os seus objetivos, mas não será o único. Media (Gillian Anderson) e Mr. World (Crispin Glover) também estão atentos a todos os movimentos.

Pode parecer estranho que o enredo de “American Gods” cruze uma ação passada num tempo próximo à contemporaneidade com uma dimensão mitológica forte — que mistura crenças de diversas regiões e épocas —, mas isso não passa de uma forma encontrada para definir a América. Por um lado, lembra-se a formação do país e como este sempre foi composto por migrantes (é até com a chegada dos primeiros conquistadores ao continente que a série começa). Por outro, lança-se um olhar crítico sobre a sociedade atual, com todos os seus defeitos a subirem à tona. A miscigenação e a aculturação, o racismo, a xenofobia e a sexualidade são alguns dos temas em debate na série.

UM LONGO CAMINHO ATÉ À TELEVISÃO

Lançado em 2001 em livro, “Deuses Americanos” (editado em Portugal pela Editorial Presença) esperou 16 anos até tomar a forma de série e o projeto mudou de mãos mais do que uma vez. Desde 2011 que o autor Neil Gaiman falava da possibilidade de o seu trabalho de maior sucesso chegar à televisão através da HBO, mas o dia parecia não chegar. Depois de ter declarado o seu interesse na produção, o gigante acabou por desistir da mesma, e foram várias as produtoras que se seguiram na tentativa inglória de produzir a série. Ainda houve negociações para que se transformasse em filme, mas também nunca chegou a acontecer. Havia de ganhar vida no mundo do streaming.

Finalmente adaptado para televisão por Bryan Fuller (responsável por “Hannibal”) e Michael Green (argumentista de “Heroes”) a partir do best-seller de Gaiman, “American Gods” será disponibilizada em streaming no serviço de televisão por subscrição Amazon Prime Video ao longo das próximas semanas. O primeiro episódio da série, composta por oito episódios de uma hora e renovada para uma segunda temporada, já estreou e mostra apenas o início de uma aventura épica que mostra um outro lado (desconhecido e em grande parte imaginado) dos Estados Unidos.

Durante um painel de apresentação da série no South by Southwest, Bryan Fuller aproveitou para explicar qual foi o caminho que percorreu ao escrever o argumento de “American Gods”. “A nossa primeira tarefa ao fazer a adaptação passou por garantir que a série seria como nós gostaríamos de a ver enquanto telespectadores”, contou na última edição do festival realizado em Austin, lembrando que tanto ele como Michael Green já eram “grandes fãs do livro” antes de se dedicarem ao projeto. Segundo o showrunner, só foi preciso seguir o instinto de “levar para o ecrã o que imaginaram ao ler o livro” para que os objetivos fossem cumpridos.

A viagem ainda está no início e espera-se que o argumento da segunda parte da série continue a seguir o livro de Gaiman. Para a escrita dos primeiros capítulos em formato televisivo, os showrunners optaram por utilizar apenas uma parte do volume de quase 500 páginas original (cerca de 100), pelo que há espaço para prolongar a série sem fugir à visão do autor britânico. Neil Gaiman fala mesmo na possibilidade de se chegar às cinco temporadas — por enquanto, foi apenas renovada para a segunda —, sem que o universo de “American Gods” tenha de se encerrar aqui. Ainda sem qualquer confirmação oficial da parte do canal, tem sido referida a vontade de se avançar também para a construção de spin-offs, centrados em personagens específicas da série.