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Jorge de Brito, o grande colecionador de arte

Arte II. Jorge de Brito (à dir. na foto) na sua casa de Cascais, com uma obra de Maria Helena Vieira da Silva, quando recebeu a visita da pintora

FOTO cortesia galeria 111

Construiu um império na banca. Após o 25 de Abril foi preso. Mas para a maioria dos portugueses ficará conhecido como presidente do Benfica. O maior legado que Jorge de Brito deixou foi, porém, uma fabulosa coleção de arte.

Podia acontecer com uma certa frequência verem-no a andar pelas salas do Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva e ficar parado em frente a um quadro. Era um homem de poucas palavras. Muito direito, afável, baixa estatura, sempre impecável - boas camisas, bons sapatos -, uma figura. Aparecia sem se fazer anunciar. Lá fora, encostado ao BMW, o motorista esperava. Por vezes, vinha acompanhado. Então, com passo vagaroso, percorria a sala principal do museu e mostrava as obras: "Saint-Fargeau", enorme, colossal; "L'Esplanade", inconfundível na dança da geometria e das cores; "La bataille des rouges et bleus", provavelmente a sua preferida. Não precisava de dizer: "São minhas." Todos sabiam que eram dele, de Jorge de Brito, o proprietário da maior coleção privada de obras de Maria Helena Vieira da Silva. Chegou a ter mais de 80. Entre elas, algumas obras-primas da artista portuguesa exilada em França, realizadas no período de maturidade e adquiridas entre o final da década de 60 e o início de 70.

Era um colecionador imparável. Quando ascendeu a banqueiro e construiu um império - poucos anos antes de abril de 1974 - foi uma corrida entre os dealers de arte para adquirirem os melhores Vieiras da Silva que circulavam no mercado internacional. Nessa altura, a pintora não entrava em Portugal e estava no auge da sua carreira e da sua cotação no mercado. Quando, em novembro de 1994, finalmente se inaugurou o museu da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, Jorge de Brito emprestou cerca de 23 das obras mais assinaláveis da sua coleção. Sem este conjunto não haveria, à época, um espólio tão consolidado para mostrar ao público.

Este empréstimo resultara de um acordo de cavalheiros entre Jorge de Brito e José Sommer Ribeiro, então presidente da fundação, e ficara selado pela confiança que existia entre os amigos de longa data. Durante duas décadas, a relação entre Brito e a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva foi informal. De vez em quando, o colecionador ia ao museu, levava uma obra, trazia outra. Certo dia, pegou em todos os seus quadros e levou-os para casa - 23 Vieiras da Silva saíram do museu de uma assentada só.

Arte IV. Parede do quarto do colecionador

Arte IV. Parede do quarto do colecionador

FOTO cortesia galeria 111

Este gesto, aparentemente impulsivo, que nos foi revelado por João de Brito, o filho mais velho do colecionador, poderá ter uma explicação de ordem prática e afetiva. "Por essa altura, o meu pai foi ao médico e ficou a saber que não teria muito mais tempo de vida. Quis deixar em ordem a situação com a fundação." Mas pouco tempo soube-se que também Sommer Ribeiro estava doente, e os quadros regressaram. Reflete o filho: "Provavelmente, não lhe quis dar esse desgosto e devolveu-os." Dois meses depois de lhe ser diagnosticado um cancro nos pulmões, Jorge de Brito morre na madrugada de 2 de agosto de 2006, com 78 anos. Sommer Ribeiro, o presidente da fundação, morre um mês e meio depois. Para os herdeiros, a situação das obras de Maria Helena Vieira da Silva depositadas na fundação levará 11 anos a ser resolvida.

Personalidade em construção

Jorge Artur Rego de Brito. Dois casamentos, dois divórcios, seis filhos. Atravessou-se na sociedade portuguesa, tornou-se banqueiro dois anos antes da Revolução de Abril, construiu um império na banca, que rapidamente se desmoronou, criou uma coleção de arte ímpar, considerada por especialistas como a mais importante coleção de pintura portuguesa da primeira metade do século XX. Sofreu a amargura da prisão e a traição de amigos. Teve uma longa contenda com o Estado português para reaver os seus bens, e foi graças à venda de uma parte da sua coleção à Fundação Calouste Gulbenkian que o Centro de Arte Moderna abriu, em 1983. O seu último fôlego de vida pública foi o curto período em que passou pela presidência do Sport Lisboa e Benfica. Depois retirou-se.

Personagem controverso, complexo, difícil de perceber, na verdade sempre foi um solitário. Ácido quando desconfiava, implacável com os seus adversários, era extremamente generoso com quem gostava dele. "Só me arrependo do que não comprei", terá afirmado no final da vida.

"O primeiro quadro que o Jorge de Brito comprou foi um Júlio Pomar. Lembro-me de que era uma pintura da Nazaré da fase neorrealista. Eu conhecia o Júlio Pomar, que na altura teria pouco mais de 20 anos, mas já era conhecido como um pintor progressista. O Jorge pediu-me para o levar ao ateliê dele e comprou esse quadro a prestações. Tinha um gosto inato por pintura, uma intuição extraordinária, porque percebeu que o Júlio ia dar. Ele tinha esse dom." De memória, José Cyrillo Machado, hoje com 89 anos - cunhado de Jorge deBrito por via do casamento deste com Ana Isabel Gorjão Henriques -, traça-lhe o retrato da juventude.

Conheceram-se no Liceu Pedro Nunes, ambos viviam ali na zona, eram colegas de carteira e logo no primeiro ano ficaram amigos. Entre a Estrela e a Lapa, o Pedro Nunes era o liceu dos meninos de família, e estas amizades virão a ser importantes para o futuro banqueiro. O grupo dos rapazes circulava entre o liceu, o salão de jogos do Jardim Cinema e a casa de José, que tinha um jardim e campo de futebol. "O Jorge tinha jeito para qualquer desporto. Andava no judo e inscreveu--se numa escola de dança para aprender a dançar, uma coisa inédita para um rapaz daquele tempo. Mas o que ele gostava mesmo era de jogar. Jogava em tudo quanto podia e tinha uma sorte fenomenal. Era um tipo muito inteligente, mas não era brilhante nos estudos. Com 16, 17 anos convenceu o pai a ir trabalhar e começou logo a fazer dinheiro."

Arte III. Retrato de Jorge de Brito da autoria de Pedro Leitão (1963)

Arte III. Retrato de Jorge de Brito da autoria de Pedro Leitão (1963)

FOTO coleção particular

O pai, Artur de Brito, o "Britinho", como era conhecido, dono de uma ourivesaria na Rua Eugénio dos Santos, hoje Rua das Portas de Santo Antão, tinha o gosto pelas pedras preciosas e pelas antiguidades e era conhecido no meio dos colecionadores. Entre eles, Ricardo Espírito Santo, patriarca dos banqueiros, que colecionava de tudo e tinha um monte de gente a trabalhar para ele. Artur de Brito levava-lhe caixas de rapé em ouro e outras raridades. Numa das visitas que lhe fez terá desabafado sobre as intenções do filho em querer abandonar a escola.

Estes homens irão marcar o jovem Brito. Ricardo Espírito Santo reconhecia nele uma cabeça bancária visionária e será uma figura inspiradora. Consta que Jorge de Brito trazia sempre consigo uma bolsa em ouro com duas notas de mil dólares - que só podiam ser usadas em negócios interbancários -, um talismã que lhe tinha sido oferecido pelo banqueiro. Artur de Brito fazia uma vida típica da Baixa de Lisboa daquele tempo, entre casas de câmbio, os ourives da Rua do Ouro e as barbearias, local de encontro de homens, que se juntavam para aparar a barba enquanto comentavam as notícias dos matutinos e os dribles dos jogadores e dos presidentes dos clubes de futebol e trocavam piropos com as manicures. Artur frequentava o Salão Azul, uma barbearia de luxo, tertúlia de cambistas e de benfiquistas, e Jorge, ainda rapazinho, andava nestas andanças com o pai, que admirava e de quem irá herdar o prazer da negociação que lhe molda o carácter.

José Cyrillo Machado retoma a história: "O Jorge entra para o Banco Espírito Santo, sob a tutela do senhor Barata, responsável pela secção de títulos do Banco Espírito Santo, na Rua Augusta, que rapidamente percebeu a sensibilidade bestial que ele tinha para as transações da banca e começou a levá-lo à Bolsa." Pouco tempo depois já o jovem bancário ia sozinho comprar para o banco, aproveitando para comprar também para ele e para outros. Rapidamente começou a fazer dinheiro e a subir na escala hierárquica. Mas não fazia parte do estrito círculo das famílias da banca, nesse tempo isso tinha as suas limitações. Com o quinto ano do liceu incompleto, fica bloqueado, não pode subir mais. Barata desafia-o a ir para Angola, para Cabinda, tomar conta de um negócio de transporte de madeiras. Brito vai para se estabelecer, mas rapidamente volta. Uma infeção pulmonar, que quase o deixa à morte, e uma paixão complicada são as razões adiantadas para a desistência do plano africano. No regresso retoma amizades, passa férias na Quinta da Abrigada, que pertence à família de José Cyrillo Machado, e entra para o núcleo familiar do amigo. Torna-se comercial na fábrica da Abrigada - da qual virá a ser o principal acionista de uma indústria de rés e refratários. Em 1959, casa com Ana Isabel Gorjão Henriques, prima direita de José e irmã da mulher deste, Sofia, tornando-se cunhado dele.

Escalada fenomenal

A década que se segue é atravessada a galope. A intuição para o negócio aliada à natureza do jogador são armas que usa. Não tem medo de arriscar. O desassombro pode ser contagiante, os outros confiam. No currículo sucedem-se operações financeiras por sua conta e risco e somam-se créditos: a compra de um hotel no Algarve com capital do Banco Espírito Santo, que logo em seguida vende; uma intermediação financeira com a especulação de terrenos, em Lisboa, da Cervejas Estrelas, numa transação que lhe é confiada e envolve vários acionistas. O seu nome começa a aparecer associado a vários negócios. Entra para a administração da casa bancária de Augustine Reis & Cia, a convite de Fernando Reis, que anos mais tarde irá adquirir. Depois compra outra casa bancária, a Sousa Cruz, e com as duas pode ter alvará para fundar o seu futuro banco.

Os anos 60 são marcados por investimentos na construção, no turismo e em volumosos negócios que movimentam a Bolsa de valores e o mercado de capitais. Vive-se uma tímida euforia no poder de compra da classe média, e os grandes capitalistas acrescentam impérios. Jorge de Brito adora negociar transações e move-se ao ritmo do léxico do jogo: bluff, aposta, ganho, lucro. Mas é um homem sofisticado. O dinheiro serve-lhe sobretudo para o seu prazer em adquirir, e o seu maior gosto é colecionar antiguidades e arte. Tem um critério definido: pintura portuguesa do primeiro quartel do século XX.

Os primeiros passos na construção da coleção de arte são feitos na aprendizagem informal que o meio lhe proporciona. Segue o trabalho de artistas, não regateia preços. Júlio Pomar, cujas obras representarão um acervo fundamental na Coleção Jorge de Brito, com quem irá manter uma relação de amizade até ao fim da vida, recorda-se de o ver entrar, inesperadamente, pelo ateliê só para ver o que ele andava a produzir: "Tinha aquela vontade de tomar conta de tudo e um dia quis comprar tudo o que havia no ateliê. Fiquei tão admirado que me enganei nas contas. Era um colecionador voraz, mas tinha um gosto marcado e nunca comprava à sorte."

Quando João Teixeira, arquiteto, então jovem colecionador e negociante em arte, se cruza com ele, já Brito é uma personalidade. "Naquela época tinha uma mesa de bridge onde o meu pai também jogava. Era um jogador perspicaz, muito inteligente. Tinha aquela coisa de esperar que fosse o outro a falar e ficava parado a olhar em silêncio, sem expressão. Achei-o muito antipático. Encontrei-o depois no Grémio Literário. Sabia que eu tinha comprado meia dúzia de quadros, pequeninos, lindíssimos, do Alfredo Keil, e disse-me: 'Agora não posso, mas este fim de semana vou ter uma mesa de bridge, apareça-me no escritório terça-feira.' Apareci, lá estava o cheque."

Em 1970, Jorge de Brito compra em leilão um retrato de Fernando Pessoa que Almada de Negreiros pintou para o restaurante Irmãos Unidos e logo de seguida oferece-o à Câmara Municipal de Lisboa. O quadro atingiu cerca de 1300 contos, um valor exorbitante, mas com este gesto largo, assinalado em conferência de imprensa, marca a sua posição como colecionador e mecenas na sociedade portuguesa, que não tinha ainda um mercado de arte instituído.

Raquel Henriques da Silva, da direção do Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que irá acompanhar o percurso do colecionador, revela: "A partir daqui, gera uma dinâmica imparável que vai possibilitar a constituição de uma rede importantíssima entre marchands e pequenos colecionadores e dá um fôlego completamente novo aos artistas. É isto que faz o mercado florescer, e ele foi determinante."

Manuel de Brito foi um destes galeristas, que em 1994 inaugurara a emergente 111 e começara a trabalhar com jovens artistas de então. Conta Arlete Alves da Silva, mulher de Manuel de Brito, que mal se conheceram tiveram uma empatia extraordinária. A relação entre o galerista e o colecionador inicia-se em 1969, com a compra das obras do célebre Grupo do Leão - a tertúlia dos naturalistas portugueses que se reunia na Cervejaria Leão de Ouro, em Lisboa, e contava com artistas como Silva Porto, José Malhoa, Rafael e Columbano Bordalo Pinheiro. A coleção pertencia a Francisco Ramos da Costa, então exilado em Paris, amigo de Mário Soares, que os põe em contacto. Quatro meses depois chega uma carta assinada por Ramos da Costa com a indicação que tinha recebido um cheque do Banco Espírito Santo e Comercial com o valor de "dois milhões e oitenta mil escudos" e a descrição do rol das obras.

"A partir daí, tudo o que aparecia de bom era para o Jorge de Brito", diz Arlete. O casal vai à Suíça, a casa do filho de Paul Klee, e traz três obras. Certo dia, chega à porta da 111 uma limusina com um americano "que trazia o famoso quadro de Vieira da Silva 'Saint-Fargeau' e o Max Ernst mais bonito que vi até hoje. O americano era um duro, foram horas seguidas de negociação, fiquei com uma dor de cabeça terrível." Em 2011, quando os herdeiros realizam em Paris, na leiloeira Tajan, o maior leilão da coleção, com 70 peças, "Saint-Fargeau" atinge perto de um milhão e 600 mil euros.

Picassos, Magrittes e Vieiras da Silva

Entre 1969 e 1974, toda a gente que está metida nos negócios da arte entra na corrida. Na Galeria 111, as exposições são inauguradas com as obras praticamente todas compradas pelos agentes de Brito. José Serra, que na altura trabalhava na Dinastia, hoje dono da Renascimento, revela que durante quatro anos viveu enfiado em aviões a comprar obras para Jorge de Brito. Picassos, Magrittes, sobretudo Vieiras da Silva. A performance do colecionador, conhecido por manobras espetaculares em leilões, de modo a fazer subir a fasquia para a obra ganhar cotação, começa a trazer vantagens ao mercado da arte, até então bastante desvalorizado. Compra às centenas e junta uma série de obras dispersas, a precisar de restauro, como a coleção do café A Brasileira, onde se encontrava o célebre "Autorretrato em Grupo", de Almada Negreiros, ou a coleção de quadros do York Bar, de António Soares, produzida para o Bristol Club. Grande parte destas obras pertence hoje ao acervo do Centro de Arte Moderna da Gulkenkian.

"Tinha o propósito de construir uma história da pintura portuguesa a começar no século XIX, com as obras do Grupo do Leão. A ideia era criar uma fundação ou um museu de arte contemporânea que não existia. A pintura estrangeira que comprou servia-lhe essencialmente para valorizar a coleção", adianta Arlete Alves da Silva.

A chave da Coleção Jorge de Brito é Maria Helena Vieira da Silva. No final dos anos 60, a pintora portuguesa exilada em Paris começara a sua consagração internacional. O colecionador dá ordem aos seus compradores: "Tudo o que conseguirem da Vieira eu compro", revela Arlete Alves da Silva. "Com 26 anos estava na Galeria Knoedler, em Nova Iorque, para trazer obras imponentes de Vieira da Silva." Jorge de Brito compra no momento em que a artista está no topo e rapidamente torna-se o maior colecionador de Vieiras do mundo. É ele que a revela e a traz para Portugal.

Num espaço de cinco anos, Jorge de Brito adquiriu as peças fundamentais da sua coleção: mais de três mil obras de arte, pratas portuguesas, uma biblioteca de edições raras, mobiliário indo-português, Companhia das Índias.

Cada vez que chegava um novo quadro, todos iam à casa do colecionador em Cascais, onde vivia com a mulher e os seis filhos, para lho mostrar. O colecionador recebia os seus colaboradores mais próximos no quarto forrado de obras de arte, onde aos pés da cama estava um cavalete, pronto a receber uma nova obra, para a poder gozar, até decidir onde a iria depois colocar.

José Cyrillo Machado recorda-se da imagem que reteve nesses anos do antigo companheiro de juventude: "A certa altura, fez na casa de Cascais, um palacete moderno com dois andares, um andarzinho só para si. Isolou-se da família. Sozinho, fica na sua torre, com telefones por todo o lado. Naquela altura estava no auge daquela vida de negócios alucinantes que ninguém podia acompanhar. Esses tipos não se aguentam, são insuportáveis para si próprios e para os outros. Parecia-me um bicho, impressionou-me muito."

Também por esta altura João Teixeira recebe um telefonema a pedir para ir a Cascais. A família almoçava com amigos, ao pé da piscina, e encontra o colecionador, sozinho na "torre", parado em frente à televisão: "Ainda era a preto e branco, estava a passar uma tourada. Diz-me: 'Fiz uma grande operação, comprei o Açores.' Naquela altura era dos bancos mais importantes. 'Está aqui o papel. O Açores é meu! Agora é que vamos comprar coisas!' E de facto assim foi assim", revela João Teixeira. Da Sotheby's chega o "relógio mais caro do mundo, todo em ouro", e dos melhores estaleiros de Inglaterra "um veleiro incrível, em madeira, considerado o melhor barco feito naquele ano. Há enviados a Hong Kong que se batem em leilão por uma jarra Ming, que atinge um milhão de dólares. A Guga, a secretária madeirense, dizia-me: 'Ponha-lhe um travão, por favor!'".

Também os negócios se tornavam colecionáveis. Como o do Totta, onde foi presidente por poucas semanas, que logo de seguida foi vendido a José Manuel de Mello, do grupo CUF, que obteve assim o domínio do Lisboa & Açores. Pouco depois Jorge de Brito adquiriu uma posição no Crédito Predial Português, e quando é lançado um concurso público para a construção de redes de autoestradas, já em pleno regime de Marcello Caetano, e com ajuda de capital estrangeiro, concorre e cria a Brisa, Auto-Estradas de Portugal, inspirada no seu apelido - Bri(to), SA. Entretanto, prestes a atingir o tão desejado estatuto de banqueiro, compra o jornal "O Século", para ter a imprensa do seu lado. Quando, em 1972, com a aquisição das casas bancárias Augustine Reis e Sousa Cruz, consegue o alvará para a constituição do seu Banco Intercontinental Português, o BIP, torna-se, fugazmente, banqueiro. O banco, visto por uns como uma manobra de especulação arriscada - por outros como uma lufada de ar fresco no conservador sistema financeiro de então -, funcionava através de crédito autoatribuído, para financiar os negócios realizados por cerca de 60 empresas ligadas ao sector financeiro, imobiliário e turístico, das quais Britodetinha parte ou a totalidade do capital. Pouco depois, dá os primeiros sinais de fragilidade. Em 1973, joga a sua última carta e lança-se num empreendimento na zona de Arraiolos, uma espécie de jardim zoológico inspirado nas planícies africanas com animais selvagens à solta. Chega a ser habitado por leões, girafas e impalas.

O jogo do reverso

"Portugal é pobre? Portugal é rico. De manhã é do Jorge de Mello, à tarde é do Jorge de Brito." O nome do banqueiro anda na boca do povo, e a ironia tem tom de contestação. Em abril de 1974, o BIP está falido e o império à beira de se afundar. "Toda a gente tinha confiado nele e comprado ações. Foi um momento de grande aflição", recorda a dona da Galeria 111.

O BIP é intervencionado pelo ministro das Finanças Silva Lopes, e em julho desse ano a mulher e os seis filhos partem para a Suíça. Jorge de Brito fica em Portugal a tomar conta dos seus bens e faz várias viagens ao estrangeiro. As obras de maior cotação internacional são rapidamente vendidas em grandes casas leiloeiras. "A maioria delas nunca tinham entrado em Portugal", indica João de Brito, o filho mais velho. Os anos que se seguem serão de amargura e ajustes de contas.

Na madrugada de 13 de dezembro de 1974, o ex-banqueiro acorda com o aviso do porteiro: a casa está cercada por militares do COPCON. Trazem uma ordem de prisão, assinada por Otelo Saraiva de Carvalho. A acusação indica exportação ilegal de divisas. Sem culpa formada, entra em Caxias. A casa de Cascais é selada, o recheio arrolado. Em 1975, Jorge de Brito recebe na prisão a visita de Luís Mello Rego, empresário e colecionador de arte, com quem combina transportar para Espanha dois camiões com algumas das obras mais valiosas, peças da sua coleção de antiguidades. Entre elas, 25 quadros de Vieira da Silva, três de René Magritte, entre eles "Le Territoire", 14 obras do modernista francês de origem russa Serge Poliakoff e quatro de Sonia Delauney. Há ainda peças de mobiliário, um lote de pratas antigas, um serviço de folha de tabaco Vista Alegre, vários serviços completos da Companhia das Índias... Um camião passa, outro é apreendido pelas autoridades espanholas. Tudo é confiscado e guardado nos cofres do Banco de Espanha, em Madrid. Melo Rego passa alguns meses na prisão de Carabanchel. O caso, que se transforma numa longa contenda legal entre Brito e Mello Rego, levará anos a ser resolvido, acabando em favor do colecionador.

O canto do cisne

Em 1977, 19 meses depois de ter entrado em Caxias, Jorge de Brito vai a julgamento e é absolvido. Refugia-se no estrangeiro, passa uma temporada na Suíça, perto da família, inicia um divórcio com Ana Isabel Gorjão Henriques - mais tarde voltará a casar, com Ana Adão e Silva, de quem se separa num processo agitado - e vai viver para Paris. Quando regressa, em meados dos anos 80, enfrenta outra batalha judicial com o Estado português para reaver os bens e as suas 22 empresas, que se encontravam em dissolvência. Consegue recuperá-las, num acordo caucionado pelo Estado, por conta das dívidas.

Mas os negócios já pouco lhe interessam. "Depois da prisão nunca mais foi o mesmo, perdeu o vigor, ficou profundamente amargurado", dizem todos os que com ele privaram. É na casa de Cascais que passa a maioria do tempo. Nunca mais voltará a comprar arte, mas a coleção continua a ocupá-lo. Conta Raquel Henriques da Silva: "A primeira vez que fui a casa dele foi para fotografar os Silva Porto, para o catálogo da exposição no Museu Soares dos Reis. Naquela altura tinha 90. Nunca tinha visto uma casa assim. Milhares de obras, muitas delas deslumbrantes, espalhadas no chão, encostadas às paredes. Sabia exatamente tudo o que tinha. Sempre achei que lhe deviam ter feito uma fundação."

Quando se começa a desenhar o projeto do CAM, é a Coleção Jorge de Brito que serve para completar um acervo insuficiente. O negócio, montado por Azeredo Perdigão, presidente da Fundação Gulbenkian, e realizado por José Sommer, o amigo com quem passava férias em Sesimbra, foi um processo doloroso. Conta João Teixeira: "Não queria vender. Detestava o Azeredo Perdigão, dizia que estava feito com os militares e lhe quis comer a coleção. Depois ponderou. Nesta altura, a Gulbenkian tinha dinheiro, e os advogados informaram que se não houvesse uma injeção de dinheiro haveria prejuízo para a sociedade que se tinha conseguido acordar com o Estado." Tinha cerca de duas mil obras de pintura moderna. Escolheram-se duas coleções, uma para Brito, outra para o CAM. Revela João Teixeira: "Foi um processo horrível. Cada vez que eles escolhiam um quadro, ele voltava a pô-lo no lugar. Não queria prescindir de nenhum." O CAM acaba por adquirir 516 obras, que representam uma parte essencial do acervo do museu. Para sublinhar a sua desconfiança, Jorge de Brito exige a Perdigão que lhe pague em numerário. Mais tarde, conta, divertido: "Saí de lá com uma mala cheia de notas!" Acabará por reforçar as vendas com valiosas doações, revelando a sua natureza generosa.

Esta qualidade, apontada por todos que com ele privaram, foi a sua glória e ruína quando se candidatou à presidência do Benfica, clube de que era sócio desde 1935. Foi ele que, em 1973, ofereceu a primeira pista de tartan para o atletismo, tornando-se mecenas do clube, onde participava regularmente com financiamentos durante as várias crises que foi sofrendo ao longo dos anos. Entre 1989 e 1991 foi eleito vice-presidente e em 1992 chegou à presidência, concretizando finalmente um sonho. Breve. Um ano depois de várias derrotas, terminava o seu mandato curto e tumultuoso, que ficou conhecido no meio pelo "verão quente de 93".

Certa noite, no final do anos 90, Leonor Pinhão, filha de Carlos Pinhão, redator do jornal "A Bola", jornalista e benfiquista empenhada, recebeu um telefonema de Jorge de Brito: "Quer vir desembrulhar um Modigliani?" Passava das duas da manhã, Leonor não foi. "Foi o convite mais espantoso que recebi. Deve ter sido na altura em que chegaram as coisas de Espanha e ele queria partilhar aquele momento extraordinário." A jornalista acompanhara-o nos tempos do Benfica, e daí resultou uma amizade. Sobre a passagem meteórica pela presidência do clube, Leonor avança: "Estavam à espera de que o Brito eleito presidente fosse o Brito da banca dos anos 70. Não era. Provavelmente, não se soube rodear das melhores pessoas e acabou por ser vergonhosamente demitido. Mas não guardou o menor ressentimento. Continuava a torcer pelo clube, queria muito que as coisas corressem bem. Isso sempre me tocou."

Esteve com ele pouco tempo antes de morrer, provavelmente já estaria numa fase terminal e não lhe disse nada. Não queria apresentar-se naquela fragilidade. Descreve Leonor Pinhão. "Foi dono de bancos e impérios financeiros, fez uma coleção de arte que até então não havia memória, é preso sem culpa formada. Sai desfeito. Mete-se nos futebóis, que é o mais ingrato e selvagem que há, e as coisas correm-lhe naturalmente mal. Retira-se de cena e fica sozinho naquele casarão sumptuoso, rodeado de obras de arte, com um motorista, que também é secretário e confidente, e os seus dois cães de guarda." E a imagem que para sempre lhe ficou impressa na memória era "daquele homem educadíssimo, um cavalheiro impecável", no topo da escadaria da porta de casa, muito direito, a receber os seus convidados. Como uma figura de romance.

  • Ana Soromenho

    Cheguei ao Expresso em meados dos anos 90 e subi até ao terceiro andar do número 37 da Duque de Palmela num elevador de 1902 de vidro e madeira onde só cabiam três pessoas. A redação, muitas salas pequeninas com porta fechada, cheirava sempre a fumo e até no arquivo, onde havia quilos e quilos de papel e gavetas cheias de fotografias, se podia fumar. O arquivo era o nosso Google. Hoje tudo isto pertence a um passado tão longínquo como a travessia do Atlântico por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Mas o principio mantém-se. Aprender, aprender sempre. Ouvir, confirmar. Nunca partir para um trabalho com juízos ou certezas absolutas. Viajar na escrita. O maior privilégio desta profissão é  poder andar e escutar o mundo. Seja no nosso bairro, seja noutro lugar.