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Que a Força esteja connosco!

Luke Skywalker (Mark Hamill) num fotograma do Episódio VIII de “Guerra das Estrelas”, a estrear em dezembro

d.r.

O novo capítulo, “The Last Jedi”, só estreia em dezembro, mas até lá podemos revisitar a galáxia muito, muito distante onde tudo se passou há muito, muito tempo

Se ficou em pulgas com o primeiro trailer do Episódio VIII da saga Guerra das Estrelas (antes e depois de vê-lo, bem entendido), este texto é para si. O novo capítulo, The Last Jedi, só estreia em dezembro, mas até lá podemos revisitar a galáxia muito, muito distante onde tudo se passou há muito, muito tempo. E podemos fazê-lo revendo os sete filmes lançados entre 1977 e 2015 — pela ordem que entendermos, questão também discutida neste livro — ou lendo uma das inúmeras obras já dadas à estampa sobre este assunto.

É que, como diz a badana de The World according to Star Wars, “há o Pai Natal, Shakespeare, o rato Mickey, a Bíblia e depois há a Guerra das Estrelas”. Prossegue a apresentação da obra de Cass R. Sunstein, numa prosa com que o autor destas linhas se identifica: “Nada se compara a sentarmo-nos com uma criança a ouvir o som da banda sonora de John Williams enquanto aquelas adoradas letras douradas enchem o ecrã” (ou com um velho pai ou avô, acrescentamos nós). O que este volume de leitura fácil pretende é explicar-nos porque é assim. A que se deve o êxito (inesperado para seus próprios criadores) do universo imaginado por George Lucas? Que grandes temas universais quer abordar? A tónica que Sunstein, professor de Direito Constitucional em Harvard e membro da administração Obama, coloca na liberdade de escolher torna esta sugestão a ideal para a semana em que o nosso país celebra o 25 de Abril de 1974, os 43 anos da Revolução dos Cravos que trouxe a democracia.

Será Han Solo (Harrison Ford) um utilizador relutante da Força?

Será Han Solo (Harrison Ford) um utilizador relutante da Força?

d.r.

Perito em ciências do comportamento, este prolixo e bem-sucedido escritor não se dedica à análise narrativa dos filmes nem à crítica do trabalho cinematográfico. Em linguagem acessível e informal, passeia por campos que vão da filosofia à religião, da política à família, de J.K. Rowling a Taylor Swift, de Bob Dylan a Edmund Burke, de Hillary Clinton a Ray Bradbury. Tudo isto a propósito das aventuras de Luke Skywalker (comparado por Sunstein a Martin Luther King, que entretanto também tinha algo de Han Solo e outro tanto de Obi-Wan), Leia Organa, Yoda, Chewbacca, Finn e Rey. Tudo isto, acrescente-se, lindamente documentado e com copiosas notas bibliográficas e índice remissivo.

Teorias e extrapolações

Escrito já depois do sétimo tomo da série O despertar da Força, é um livro atual, nomeadamente no que toca às analogias com os debates que dividem o Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América. E claro que o conflito entre Império e República suscita considerações sobre ditadura e república, Estado de Direito ou tirania e a ação ou inércia dos povos face às tensões entre uma e outra. Também a religião está presente, havendo alusões a budismo e cristianismo, que não parecerão estranhas a quem recordar sacrifícios de pais e filhos ou apelos ao desapego material ao longo dos sete filmes.

Rey (Daisy Ridley) ou o futuro feminino do legado

Rey (Daisy Ridley) ou o futuro feminino do legado

d.r.

Como qualquer obra de arte, Guerra das Estrelas permite muitas leituras e Sunstein diverte-se visivelmente ao apresentar-nos treze delas, algumas arrojadas (Jar Jar Binks como supremo e manipulador líder do Lado Negro?!). De forma interessante, aponta ambiguidades e destrói o maniqueísmo com que alguns podem contentar-se em interpretar a saga, aproveitando de passagem para lançar especulações sedutoras, como a putativa capacidade de Han Solo para usar a Força, mesmo sem crer muito nela.

“The world according to Star Wars”, Cass R. Sunstein, Editora: Dey Street Books; Páginas: 240 páginas; Preço: $12,79/12€ (Amazon)

“The world according to Star Wars”, Cass R. Sunstein, Editora: Dey Street Books; Páginas: 240 páginas; Preço: $12,79/12€ (Amazon)

Do universal ao particular, que é como quem diz de Deus a quezílias familiares, ou dos dilemas morais de fazer explodir a Estrela da Morte aos primeiros diálogos entre C3PO e R2D2 idealizados por Lucas e nunca materializados na tela, eis um livro que, sem ter sido propriamente epifania pascal, encantou o signatário logo a partir da lindíssima capa (que querem?, nas últimas férias do Natal houve lá em casa maratona integral com três aspirantes a cavaleiras Jedi) até aos agradecimentos finais.