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Para explodir com o drama

Dumont: “O ator profissional só me interessa a partir do momento em que eu o posso deformar”

FOTO Tim P. Whitby/Getty Images

Conversa com Bruno Dumont sobre “Ma Loute”, em que ele persegue um burlesco e um sentido do absurdo inéditos. Já está nas salas

É na Costa Opal dos primeiros anos do século XX, em Nord-Pas de Calais, que decorre “Ma Loute”, o filme que Bruno Dumont estreou em Cannes no ano passado. Dois polícias trapalhões, Machin e Malfoy, investigam o estranho desaparecimento de alguns turistas burgueses que ali costumam passar férias, na mesma baía em que uma família de pescadores — e cujo filho mais velho é o Ma Loute do título — pratica atos de canibalismo.

A comédia sempre esteve latente na sua obra desde os primeiros filmes mas talvez só tenha sido assumida com o trabalho anterior, “O Pequeno Quinquin” [2014] — que resultou em algo de único dentro do género. “Ma Loute” vem nesta linha?
Eu diria que aquilo que eu procuro agora é um aspeto cómico que vem de uma ironia sobre mim próprio. Quer dizer: passei para o ‘outro lado’ para me colocar em perigo, para colocar em perigo o drama. Este continua a ser a matéria cinematográfica com a qual trabalho, mas acrescento-lhe agora a ironia. E faço explodir o drama no processo. É como se eu quisesse que a minha própria estátua caísse. E isso agrada-me. Sou sobretudo um iconoclasta. Destruir a imagem que os meus filmes representam é uma forma de humor.

O humor não é novo nos seus filmes...
Mas sempre esteve cercado. Nunca encontrei o lugar para o praticar e sempre o quis fazer. A questão do humor para mim é esta: é preciso trabalhá-lo sinceramente. Se me faz rir, talvez possa fazer rir os outros. Não vou mais longe do que isso. Gosto muito daquela frase de Proust em que ele diz “eu escrevo para mim”, ou seja, o prazer começa aí, em nós, antes de tudo. Esta não é uma ideia consensual, mas sim um risco. Se “Ma Loute” é uma tragicomédia é porque encontrei nesse género um campo ainda mais vasto para falar da natureza humana.

Outra questão que já não é nova nos seus filmes é o contraste entre atores profissionais e não profissionais, que “Ma Loute” volta a cruzar. Tardou a trabalhar com os primeiros, até ter dirigido Juliette Binoche em “Camille Claudel 1915”. E aqui 
a vemos de novo, ao lado de Fabrice Luchini, que é uma estrela em França, e de Valeria Bruni Tedeschi...
O ator profissional só me interessa a partir do momento em que eu o posso deformar. Não gosto especialmente deles pelo que são, ao contrário dos não profissionais que escolho para os meus filmes, e que têm sempre alguma coisa que ver com as personagens que interpretam. Com os profissionais, preciso de os dirigir contra aquilo a que eles estão habituados. No caso de “Ma Loute”, convidei-os a serem cáusticos. Quero desestruturá-los, desorganizá-los e isso não pode ser feito às três pancadas, pelo contrário, exige um esforço maior que começa no guião. É claro que o Fabrice Luchini, que é um comédien no sentido mas literal do termo em francês, está disponível para esse jogo. Não o colocaria num filme a fazer de pescador, por exemplo. Nesse caso, filmo o pescador verdadeiro.

O seu cinema nunca foi justiceiro ou moralista mas testemunhou muitas vezes a violência que existe no mundo. Essa violência em “Ma Loute” vem do choque de classes, burgueses doidos de um lado, pescadores canibais do outro?
Bom, o que é claro para mim é que o cinema não está dentro de uma cerca moral, mas sim para lá do bem e do mal, que é onde o cinema se regenera. Ao mesmo tempo, a representação das classes em “Ma Loute” é em tudo caricatural: quanto mais alterada e deformada ela é, com a consanguinidade dos ricos de um lado e o canibalismo dos pobres do outro, mais verdadeira essa representação se torna. O filme dirige-se ao espectador que o olha e que tem porventura tudo isso dentro dele: o homem rural, o canibal, mas também o excêntrico burguês. E eu gosto tanto de uns como de outros. Gosto tanto da personagem de Ma Loute como de Billie. Tento glorificá-los da mesma maneira. Ninguém sai vencedor da batalha no final.

Portanto, este não é um filme de luta de classes, mas de luta de atores?
Exatamente. Atores esses que são muito diferentes e que, uma vez reunidos, tiveram de descobrir uma certa fraternidade entre eles. O ator que faz de Ma Loute [Brandon Lavieville], por exemplo, nunca ouviu falar de Juliette Binoche. Não sabe quem é. Não vai ao cinema. Vive ‘noutro mundo’. O Luchini percebeu bem isso na rodagem, porque ali ninguém o reconhecia, e isso perturbava-o. Diziam-lhe todas as manhãs de rodagem, “como vai, senhor?”, como se ele fosse só mais um, e era tudo. E isso gerou um estranho equilíbrio: ele estava tão fascinado pelos não profissionais como estes pela extravagância da sua personagem.

O facto de o filme se passar nos anos 10 do século passado não é também usado como um elemento 
de comédia em potência?
O cinema não tem nada que ver com a realidade, é uma representação. E o filme de época permite-me à partida desembaraçar-me de uma ideia de realidade e de naturalismo. A representação do passado torna-se uma ideia poética que já não é presente e que, por isso mesmo, se torna para o espectador de hoje uma forma de alegoria. A vantagem dos anos 10 é que aquela era uma época esquemática: a diferença entre ricos e pobre era muito clara. Veja os vestidos deles, que não estão longe do ridículo, por exemplo. Nos anos 10 estavam na moda. Hoje não. O mesmo se passa com o polícia, que parte de um registo burlesco.

Vai continuar nesse registo?
O meu próximo filme é uma comédia musical, a adaptação de uma peça de Charles Péguy sobre Joana D’Arc. Adaptei a primeira parte, que conta a infância dela e como Jeanette se tornou Jeanne. O filme chama-se “Jeanette”, precisamente. E é um filme dançado e cantado, em som direto, em que trabalho com um compositor de música pop eletrónica e só com não profissionais. A atriz principal tem oito anos. A complexidade técnica é muito maior e vejo isso como uma forma de remotivação.