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Leva-me aos fados, meu amor

Há seis anos que a UNESCO reconheceu o Fado como Património Imaterial 
da Humanidade. Percorremos Lisboa 
na rota da canção nacional

FOTO PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images

Escolhemos a mesa do canto, reservada aos casais ou namoros mais clandestinos. A casa estava cheia. Melhor, a abarrotar. O fadista era Filipe Duarte, um senhor de cabelos brancos que completava nessa noite 81 anos e teve direito a aplausos e vibrantes parabéns de toda a clientela. Mas os ânimos demoraram a acalmar quando a luz baixou para o fado acontecer. Foi a dona do estabelecimento, Anabela Paiva, mais conhecida como a “Bela de Alfama”, que meteu ordem no tasco. “Oh meninos silêncio, quando se está a cantar o fado não se fala, senão temos que meter todos na rua. Pronto...” Depois da gargalhada da praxe passou a ouvir-se apenas o trinar da guitarra e o tema ‘É tão bom ser pequenino’, de Fernando Maurício. Bela é uma figura incontornável deste bairro, olhos muito azuis, cabelo cor de fogo e um sorriso de quem sabe receber. Desde que não lhe chegue a mostarda ao nariz. No ano passado teve honras de aparecer em destaque na capa do último disco de Helder Moutinho, “O Manual do Coração”, de cigarro na mão, num jeito de Severa.

A sua tasca de fados e petiscos na Rua dos Remédios é uma casa portuguesa com certeza e atrai boémios, fura noites, fadisteiros, apaixonados, mal de amores, marialvas, artistas, jornalistas, marginais e turistas curiosos. O ambiente é acolhedor, descontraído, misturado e urbano, decorado com rendas na mesa, velas, e pratinhos na parede. E, acima de tudo, é uma tasca sem bêbados aos berros ou televisões ligadas na Sport TV, mas onde se pode apreciar, entre fadinhos, petiscos portugueses, como pataniscas, carapaus de escabeche, salada de polvo ou chouriço assado. E tudo por um preço médio de 20 euros. Antes, Bela abrira o Mesa de Frades (hoje com outra gerência) mesmo ali ao lado, espaço afamado entre os fadisteiros (Rua dos Remédios, 139), que já foi capela e hoje é um altar de boas vozes e fadistas de renome com gosto em acabar a noite na rota de Alfama.

Tasca da Bela

Tasca da Bela

FOTO nuno fox

Mas ainda antes destes dois espaços, Bela — a “alma de Alfama” como alguns a chamam — teve o Nonó, no Bairro Alto, onde tanto havia à mesa clientes ilustres como criminosos de navalha no bolso acabadinhos de sair da ‘choldra’. Estamos sentados na Tasca da Bela, onde se ensina a dizer “bom dia” todas as noites e é proibido dizer “adeus” — prefere-se um “até já”. E ai de quem não faça silêncio para os fadistas. Este é um dos espaços lisboetas onde se ouve fado castiço do bom todas as quartas, sextas, sábados e domingos, pelas 21h15 e estende-se até à uma da manhã. Bela que é amor, coração e fado é, antes de tudo, mãe. Uma mãe de 56 anos que ri e chora as alegrias e tristezas dos seus cinco filhos — quatro biológicos e um do coração — e de todos aqueles que a procuram para desabafar.

“Devo ter cara de confessionário. As pessoas confessam-me coisas da vida delas. As suas relações, os seus fados, os seus problemas no trabalho, o que gostavam de fazer e não fazem, as traições... As pessoas à noite são mais genuínas.” Sigamos a rota da canção nacional ainda por Alfama, por becos e vielas. Na Tasca do Chico, no nº 83 da Rua dos Remédios, o fado obedece a hora marcada, pelas 21h, de quinta a domingo. O chefe de mesa, João Carlos, veste um blazer, cerra os olhos e com as mãos nos bolsos dá voz à viola e à guitarra portuguesa. O chouriço assado já fumega e o tinto está bem aviado. E é mais uma noite de fado vadio. Antes, esta casa tomou o coração do Bairro Alto, na Rua do Diário de Notícias, num espaço bem mais pequeno e igualmente informal.

Maria da Mouraria

Maria da Mouraria

foto Estelle Valente

Ali perto o Arcaz Velho, com uma decoração particular que inclui um forno do século XVI, um altar a homenagear Santo António e um estendal à portuguesa é também uma alternativa para quem procura fado castiço. Todas as quartas, quintas e sextas a fadista Daniela Giblott canta e traz os seus convidados. E para a clientela há o ‘menu fado’ por €30, “com tudo o que têm direito”. A poucos minutos dali, vale a pena reservar mesa para ouvir as boas vozes que chegam ao Coração da Sé, na Travessa do Almargem, 4A. Na parede estão pintados os rostos de Ana Moura, Carminho, Amália e Jorge Fernando, os padrinhos do restaurante. Este último junto às palavras de um tema seu: “No peito abre um suspiro e o povo entoa/ Só há uma Lisboa/ Só há uma Lisboa/ Consigo traz um mistério bem guardado/ Chamam-lhe fado, chamam-lhe fado.” Este espaço do fadista Diogo Rocha aposta na vertente tradicional do fado e apenas encerra à terça-feira, com cantorias das 20h30 em diante. Como fadistas residentes estão Miguel Ramos, Cidália Moreira, Artur Batalha, Diogo Rocha, Ana Lúcia, Beatriz Felício ou Fábia Rebordão. “Não nos interessa tanto o fado turístico das palminhas e do ‘Cheira a Lisboa’.”

Na Mascote da Atalaia (Rua da Atalaia, 13) a tradição ainda é o que era. Nos anos 70, o fotógrafo Luís Pavão chegou a escrever sobre esta baiuca fadista. “Uma humilde taberna, de dimensão exígua, com porta larga e mesas de pedra, balcão corrido onde se cantava todas as noites. A casa era pobre, servia pouco mais do que vinho, cerveja e amendoins, mas o espetáculo era soberbo, os fadistas sucediam-se ininterruptamente com muita gente a inscrever-se e a pedir para cantar.” Nuno Teixeira, um dos proprietários do estabelecimento, é honesto: “Não fui eu que fiz a casa, foi a casa que me fez.” Ele e os sócios queriam apenas abrir um bar, mas quando se aperceberam da fama do lugar quiseram continuar a honrá-lo com bom fado. Servem cantoria todos os dias, das 19h às 23h. O cardápio de vozes pode ser consultado na página de Facebook. “Antes o espaço era ainda mais castiço, com mais sujidade e ordinarices. A dona era de faca na liga...”

Senhor Vinho, de Maria da Fé

Senhor Vinho, de Maria da Fé

tiago miranda

Guinemos agora para a Mouraria, para o restaurante de fados Maria da Mouraria, na Rua do Capelão, 34, o edifício onde há mais de 150 anos a mais ilustre das meretrizes dava música e romance ao conde de Vimioso. Agora é de Helder Moutinho (que também lá canta) e da Bela, a mesma “Bela de Alfama”, que agora anda mais por estas bandas, entregou a sua antiga casa à gestão dos filhos. Na Maria da Mouraria, de portas abertas de quarta a domingo, as toalhas das mesas foram costuradas por Gisela João e há um janelão do tamanho de uma parede que convida a Mouraria inteira a entrar por ali adentro. Vive-se ali o fado tantas vezes trauteado por Fernanda Maria: “É na Severa que todos ouvem fado castiço à desgarrada. É na Severa que toda a gente passa contente até de madrugada.”

O restaurante Coração da Sé

O restaurante Coração da Sé

d.r.

Antes de terminarmos este périplo fadista, entramos numa das casas de fado lisboetas mais antigas e afamadas, o Senhor Vinho, localizada lá para as bandas da Lapa/Madragoa. A anfitriã e dona do espaço é a fadista Maria da Fé que há mais de quatro décadas faz da exigência e qualidade do menu e do elenco o seu cartão de visita. O preço médio ronda os €50, mas vale pela qualidade do serviço. Foi ali que nasceram muitos dos fadistas que quem hoje se fala. “A maior parte deles fui eu que os pari. A Mariza, a Ana Moura, o António Zambujo, a Gisela João e a Aldina Duarte, que ainda hoje aqui canta.” Sobre o interesse das novas gerações pelo fado responde: “Esta coisa de se dizer que o fado está na moda é um disparate. Para mim o fado já é moda há 60 anos. E eu vou completar 75 de vida. Gravei o disco pop fado em 65, entrei no Festival da Canção, em 69 e em 70 gravei fados com letras de Ary do Santos. O fado é a minha vida e é coisa séria. Da nossa gente.” Fazendo fé na Maria e na sua casa de fado é sentar-se à mesa desta sala de jantar para ouvir cantar todos os dias a partir das 20h, até que a voz lhes doa.