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João Canijo: “A pergunta que mais gosto que façam sobre o filme é se elas são todas atrizes. E são”

lucília monteiro

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

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Jornalista

Lucília Monteiro

Lucília Monteiro

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Fotojornalista

Quando começou a pensar neste filme, queria fazer um filme sobre Fátima?
Não, queria fazer um filme onde houvesse um grupo de mulheres, 24 horas por dia, sempre juntas. Já não há aquelas campanhas que eram feitas com mulheres, as colheitas de arroz, as ceifas, as campanhas nas fábricas de conservas, de maneira que andei ali às voltas. Um dia lembrei-me: uma excursão de camioneta. E depois foi automático, encontrei a ideia da peregrinação a Fátima a pé.

E a partir daí?
Fui a Fátima a pé.

Para experimentar fisicamente?
Sim, fisicamente...

Mas o mais importante das peregrinações a pé não é o recolhimento, as orações em conjunto, a meditação?
As peregrinações a pé são sobretudo uma prova de fundo, algo para fazer o mais depressa possível. É uma tarefa a ser cumprida, como quem faz a maratona.

O que concluiu da sua viagem?
Que é um esforço de doidos. Eu fiz o caminho a partir de Coimbra, em dois dias, sem preparação. Fiz 42 quilómetros no primeiro dia e 38 no segundo. Aconteceu-me tudo o que pode acontecer...

...as bolhas nos pés, as cãibras...
Tudo, tudo... E interroguei-me sobre o que leva as pessoas a fazerem aquele esforço, nos limites da resistência, em nome de quê — e o filme é sobre isso.

Fez isso para escrever o filme?
Não, fiz isso para mim, para perceber como é que era. Depois, peguei nas atrizes, dividi-as em grupos, enviei-as numa verdadeira peregrinação e pu-las a fazer um diário da sua experiência, usando as novas tecnologias. Cada grupo tinha um iPhone, e todos os dias gravavam e mandavam-me as suas impressões por e-mail. Com isso lá se escreveu qualquer coisa...

Quando diz “lá se escreveu qualquer coisa”, o que é que significa? Definiu personagens?
Os personagens estavam delineados antes. Qualquer uma delas já sabia qual era a relação de cada personagem com Deus Nosso Senhor...

Mas já se sabia quem era cada uma delas? Se era camponesa, se era professora, se era casada ou viúva, se gostava de homens ou de mulheres?...
Ainda não se sabia tudo. Achei que não valia a pena definir coisas antes de saber como é que cada uma delas se relacionava com aquele esforço.

Fala de esforço, não de fé, mas as manifestações de fervor que vemos quando se chega a Fátima são reais.
Claro, mas o que se passa em Fátima não tem nada a ver com o caminho. A chegada a Fátima é quando ficam todos reunidos com Deus Nosso Senhor e com Nossa Senhora. No caminho, nem por isso...

E depois partiu para a rodagem?
Não, depois elas fizeram uma peregrinação em que falseámos as etapas. Em vez de fazerem 40 quilómetros por dia, fizeram só 20. Era aquilo a que podemos chamar trabalho de improvisação. Elas já eram personagens e improvisavam em situações reais, dormiam onde deviam dormir, comiam quando deviam comer... E eram filmadas durante todo o tempo.

Esse material foi para quê?
Para eu escrever. Entre os diários e as improvisações, houve uma espécie de ‘cozido’ — e ficou o argumento mais ou menos escrito.

E então filma-se?
Ainda não. Depois, as atrizes foram viver para Trás-os-Montes, para Vinhais, durante quatro meses.

É nesse momento que algumas vão trabalhar para o campo e num café?
Exato.

Mas para quê? Não se vê no filme o que elas fazem fora da peregrinação...
Não se vê no filme, mas elas sabem. Em suma, não se pode interpretar a dona de um café de Trás-os-Montes sem se saber como é uma dona de um café de Trás-os-Montes, que é diferente de um café aqui na Pontinha. E há sempre a esperança de um sotaque, a esperança de uma maneira de falar, independentemente do sotaque, a esperança de um contágio transmontano e de elas serem transmontanas, o que é muito diferente de serem atrizes de Lisboa.

Quatro meses chegam para esse tipo de contágios?
Chegam. E depois, nas conversas, há sempre referências à vida de Vinhais.

Mas os diálogos são improvisados ou são escritos por si?
Neste filme, os diálogos estavam escritos, mas eu acho que elas nunca dizem o que está escrito. Os diálogos estavam escritos como guia. Duas ou três dizem o que estava escrito, o resto é improvisado.

Filmou-as juntamente com verdadeiros peregrinos?
Há algumas cenas em que sim e há mesmo uma contracena. Falam o que toda a gente fala: como é que estão dos pés, quantos quilómetros fizeram, quantos falta fazer, já falta pouco, já faltou mais...

E elas são outras pessoas ou são um bocadinho elas próprias? É a velha questão de quanto do ator está em cada personagem...
São um bocadinho elas próprias. É que o filme tem um fio condutor que nasceu da peregrinação que a Anabela [Moreira] fez. Nessa peregrinação, ela teve uma relação muito conflituosa e muito apaixonada com outra mulher — e essa mulher passou a ser a personagem da Rita [Blanco]. Essa senhora existe, é de Vinhais, e a Rita esteve com ela muito tempo para perceber e para sedimentar o ponto de vista dessa senhora quanto ao que tinha acontecido na peregrinação.

Esse mergulho na realidade é uma forma de ser justo com as pessoas, com os trabalhadores, com o povo — como queriam, nos anos 40, os neorrealistas?
Não, não quero ser justo com os trabalhadores, quero é que as atrizes sejam justas consigo próprias.

Mas quer estar perto de uma verdade qualquer?
Da verdade delas. Só. Os atores não se transformam, os atores são sempre eles, adaptados à circunstância do personagem, mais nada. E, portanto, quanto mais elas forem elas, naquela circunstância, mais concreto é o objeto que me fornecem, mais eu posso manipulá-lo, porque só se pode manipular o concreto. Só me interessa a verdade delas — e a verdade delas é relativa, porque a verdade não existe, logo, é a delas.

Não lhe interessa a verdade de Fátima, a verdade da relação das pessoas com Fátima?
Quero mostrá-la, mas é sempre a relação delas com isso. A pergunta que mais gosto que me façam sobre o filme é se elas são todas atrizes. E são. Era isso que eu queria — e isso está conseguido.