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“Brazil”, ainda único e inclassificável

Sam Lowry (Jonathan Price) em “Brazil: O Outro Lado do Sonho”, de Terry Gilliam

O tempo passa e é implacável o seu juízo, que não poupou grande parte do cinema dos anos 80. Mas há filmes dessa década que, por terem inventado um tempo tão próprio, ao tempo continuam a resistir, passando entre os pingos de chuva ontem como hoje. A obra que Terry Gilliam escreveu com Tom Stoppard e rodou em 1985 não é apenas a resposta britânica, grotesca, a todo esse delírio que vinha do lado de lá do Atlântico na década de 80, aquela em que Hollywood partiu em busca de monstros e mostrengos, espaços siderais e pesadelos de toda a ordem. Fantasia distópica e sátira feroz à rigidez daqueles anos Thatcher, “Brazil” é também um tratado de ironia (até profética) a que ainda hoje é difícil dar-se uma resposta, ficção-científica doida varrida que — atrevemo-nos a dizer — não teria hipóteses de ser produzida nos dias que correm. A Cinema Bold recolocou-o nas salas 32 anos depois e, em simultâneo, na sua plataforma video on demand.

E a pergunta continua a ser a mesma, com os mesmos ‘ah!’ de espanto: o que é isto, sr. Gilliam? Um film noir, um thriller, um delírio retro-futurista criado pelo mais audaz dos Monty Python? Uma revolta da humanidade contra o absurdo de um mundo vergado à tecnologia? Sabemos que estamos numa paisagem britânica industrial, mas não exatamente em que momento (“algures no século XX”, conta o genérico), quando aquele Sam Lowry (Jonathan Pryce), agente do Ministério da Informação, do departamento dos cadastros, se põe ao trabalho, em noite de Natal. Estamos sempre num amanhã que nos recorda um ontem, mas não no presente, de tal modo este é deformado. O mundo está superpoliciado, a debater-se com a escalada do terrorismo, e um homem é raptado. Por ali anda uma espécie de canalizador/comando perseguido pelo poder e chamado Robert De Niro, também Bob Hoskins, Michael Palin, Gorden Kaye... Sabemos que Sam, na insanidade que o rodeia, tem sonhos de Ícaro em que ele encontra a mulher desejada, uma loura evanescente chamada Jill Layton (Kim Greist) que acaba por lhe aparecer à frente — e, além dela, pouco mais importa. Terry Gilliam, que roda neste momento em Portugal o tão esperado “The Man Who Killed Don Quixote”, com Adam Driver (uma coprodução que envolve a Ukbar, de Pandora da Cunha Telles), concebeu “Brazil” como uma “trilogia de sonhadores”, iniciada em “Os Ladrões do Tempo” (1981) e concluída com “A Fantástica Aventura do Barão” (1988). Visto hoje, continua um filme único, recheado de pormenores anacrónicos que fazem agora mais sentido do que no seu tempo. Poderia ter sido um sonho de Fellini se este tivesse pensado em “1984”, de Orwell. Continua um filme de combate em nome do amor, contra tudo o que é burocracia: é coisa de ver para crer.