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Crime, disse eu

D.R.

Reinaldo Serrano

Com todas as suas especificidades, os britânicos que agora se preparam para ser mais... britânicos, têm um longo historial relacionado com o mundo do crime. Desde gangues violentos que perduraram até aos anos 80, passando por casos frequentes de rapto e os inevitáveis homicídios de Jack, O Estripador, a Velha Albion encerra uma série de histórias relacionadas com o crime, pelo que, o que esta semana se propõe é o visionamento de crimes transformados... em série


Quase todos os dias e a um ritmo cada vez mais galopante somos surpreendidos por aberrantes exemplos de perfídia humana. Da barbárie do autodenominado Estado Islâmico perpetrada sobre reféns que acabam decapitados ou fuzilados aos crimes de rapto que fizeram manchetes em todo o mundo, passando pelos crimes de sangue e não esquecendo os crimes de guerra, o planeta está pejado de casos que tornam difícil decifrar que mecanismos estão por trás de comportamentos ignóbeis e absolutamente fora de quaisquer convenções ou rituais que remetem sem margem para dúvida para um passado em que a bestialidade tinha a primazia sobre uma (inexistente) condição humana.

O prólogo pré-anuncia duas séries britânicas que merecem destaque, nem que seja pelo facto de terem passado quase despercebidas no nosso mercado e, por isso mesmo, nas nossas escolhas. A primeira (e mais recente) chama-se “10 Rillington Place”, morada última para pelo menos 8 mulheres, vítimas da loucura (chamemos-lhe assim) de John Reginald Halliday Christie. A figura de Christie é das mais sinistras entre as muitas que o Reino Unido deram a conhcer em matéria de criminalidade violenta. O homem nascido em finais do século XIX, transitou para o século seguinte onde, nas décadas de 40 e 50 cometeu, com um calculismo e um sangue-frio impressionantes, vários homícidios que tiveram sempre lugar na sua própria habitação na zona londrina de Notting Hill. Como se tal não bastasse, um jovem de nome Timothy Evans (seu inquilino temporário, juntamente com a mulher e a filha nascida no apartamento) foi considerado culpado pela morte da esposa, condenado e enforcado. Vários erros na investigação policial impediram a descoberta do verdadeiro culpado: John Christie matou não apenas a mulher como a filha recém-nascida de Timothy.

Sem querer relatar em detalhe todos os factos que conduziram à detenção e posterior condenação de Christie (disso se encarrega, e muito bem, a minissérie), quero apenas sublinhar que a vida criminosa deste homem discreto, muito discreto, começou ainda na década de 30, onde foi condenado por uma série de crimes menores até à escalada (e escondida) progressão para o homicídio. De antecedentes tantas vezes invocados neste tipo de situações, John Christie teve uma infância complicada, com um pai austero, pouco comunicativo e muito punitivo. Nada serve de atenuante, contudo, para a sua vida sórdida e para a sua personalidade desconcertante retratada de forma soberba por um dos melhores desempenhos que já vi de um ator de que nem sequer gosto particularmente : Tim Roth.

Os 3 episódios da série constituem uma nova roupagem para uma história que já havia sido adaptada ao teatro e ao cinema: data de 1971 o filme com o mesmo nome dirigido por Richard Fleischer e que teve no seu elenco vários nomes de peso, entre os quais os de Richard Attenborough, Judy Geeson e John Hurt e cujo visionamente se aconselha igualmente sem reservas. A história dos crimes do número 10 de Rillington Place é absolutamente arrepiante e as três partes do argumento não facilitam nem embelezam a dura realidade dos factos, antes deixando à realização e aos atores a incrível tarefa de nos arrastar, lenta e irreversivelmente, para as profundezas do terror.

Também com 3 partes mas datada de 2009 é a produção igualmente britânica de “Red Riding”. A trilogia exibida na antena do Channel 4 narra os acontecimentos ocorridos no nordeste de Inglaterra nas décadas de 70 e 80 do século passado e que ficaram conhecidos como o caso do "Yorkshire Ripper". Fica desde já o aviso: a série é propriamente fácil ou, mais exatamente, não é propriamente... "ligeira". Desde logo, porque a linguagem fílmica utilizada em cada uma das três partes é distinta; há várias explicações para este facto que aqui se elogia, mas a principal é que cada um dos três episódios tem o seu próprio realizador; também aqui há boas notícias: o primeiro é dirigido por Julian Jarrold que, em 2008, assinou a realização (arriscada) de "Brideshead Revisited"; o segundo tem a assinatura de James Marsh que, no mesmo ano de 2008, conquistou o Óscar (e a projeção para o estrelato) para Melhor Documentário com "Man on Wire"; finalmente, a terceira etapa desta história teve realização do menos experimentado mas não menos eficaz Anand Tucker. Andrew Garfield, Sean Bean e Rebecca Hall asseguram, do lado dos atores, a a eficácia devida a esta quase gótica produção televisiva que, surpreendentemente, esteve (estará ainda?) disponível entre nós.

Mais do que a narração dos crimes hediondos perpetrados nas referidas décadas, o que "Red Riding Trilogy" proporciona é uma visão sem contemplações de corrupção a vários níveis e de como esta tornou ainda mais pérfidas as práticas e as consequências dos crimes praticados. A ver, a descobrir e a meditar.