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A grande denúncia

Transporte ferroviário de condenados, em processo de deportação para os campos de trabalho na Sibéria

FOTO APIC/GETTY

Em muitos aspetos. “O Arquipélago Gulag”, de Alexander Soljenítsin, permanece inultrapassável, desde logo por combinar o testemunho de terceiros com a experiência pessoal

Luís M. Faria

Jornalista

Se existe um livro que merece ser considerado um ato de heroísmo, é “O Arquipélago Gulag”. Em 1973, quando saiu a edição original, tinha acabado há muito a abertura que se seguiu à morte de Estaline na URSS. Soljenítsin beneficiara dela em 1962, quando, contra todas as expectativas, Kruschev autorizou a publicação de “Um Dia na Vida de Ivan Denisovich”, uma novela sobre a vida nos campos de prisioneiros russos. Com a deposição de Kruschev, em 1964, as veleidades críticas terminaram. Soljenítsin publicou mais dois romances, e ganhou o prémio Nobel da Literatura em 1970, mas cada vez lhe era mais difícil publicar no seu país.

Consciente de que o seu grande “ensaio de investigação literária” sobre o Gulag dificilmente veria a luz na URSS, tomou as suas precauções. O livro começara a ser escrito ainda nos anos 50, mas após a publicação de “Denisovich” muitos antigos presos lhe enviaram cartas. Ele credita 227 testemunhos diretos como a base do “Arquipélago”. Foi escondendo fragmentos do livro nos locais mais improváveis, jamais reunindo o texto todo no mesmo local. Em 1973, a apreensão de uma cópia levou-o a decidir publicar a obra no estrangeiro. Perante o embaraço do que fazer com aquele escritor de reputação mundial, o Kremlin decidiu expulsá-lo para a Alemanha.

Soljenítsin mudar-se-ia depois para os EUA, e embora tenha dedicado as décadas seguintes a um ciclo de romances, não será arriscado dizer que a sua reputação assenta sobretudo no “Arquipélago”. Foi o primeiro grande livro sobre o Gulag, e em muitos aspetos permanece inultrapassável, desde logo por combinar testemunho de terceiros com a experiência pessoal. Em 1945, o jovem oficial Soljenítsin fora preso por se ter referido depreciativamente a Estaline em cartas trocadas com um amigo. Condenado a oito anos nos campos, passaria por diferentes tipos de prisão, desde campos de trabalhos forçados até um instituto científico e campos destinados a presos políticos.

“Como escrever acerca de um campo especial?”, pondera. “A memória é o único papel em que se pode conservar o que se escreveu, onde se pode carregá-lo através das buscas e transferências. A princípio não tinha muita confiança nas possibilidades da minha memória e por isso decidi escrever em versos (...) Mais tarde, descobri que também a prosa se acomoda nas profundezas daquilo que nós trazemos na mente. Liberta do peso de conhecimentos agitados e inúteis, a memória de presidiário tem uma capacidade impressionante e pode sempre dilatar-se (...) Uma vez por mês repetia tudo aquilo que tinha escrito.”

Conhecendo o sistema a partir de dentro, Soljenítsin examinou não apenas a sua concretização prática como a sua história e as bases jurídicas que alegadamente lhe subjaziam. Não menos importantes são as considerações filosóficas, onde aparece a formação religiosa que Soljenítsin recebera na infância. Esses vários elementos dão ao livro o seu tom único, combinando relato, descrição e explicação com comentário moral, não raro sardónico. Mesmo quando as metáforas são vulgares, há uma autoridade de inteligência e de experiência vivida que se impõe. Há um direito de usar essas metáforas.

O texto começa com a prisão, geralmente realizada à noite, como parte de uma elaborada estratégia para quebrar psicologicamente o detido. Depois vem um exame da lei, centrado no artigo 58, em cujos 14 artigos podia caber tudo por via de “interpretação dialética”. Soljenítsin mostra que a monstruosidade começou realmente com Lenine e não com Estaline, ao contrário do que uma boa parte da esquerda europeia, e não só, ainda pensava nos anos 70. Estaline limitou-se a expandir imensamente o sistema. Embora este tenha existido continuamente desde os primórdios da URSS, as principais ondas de aprisionamento foram em 1929-1930 (os kulaks), 37-38 (as purgas) e 44-46 (prisioneiros de guerra, soldados soviéticos “traidores”).

Os métodos brutais aplicados são descritos em pormenor, não faltando episódios horríveis, a uma escala que, conforme Soljenítsin lembra, não tem nada a ver com o que acontecia no tempo dos czares. Também aqui, Lenine, um ex-preso privilegiado, sai mal no retrato. A recusa dos determinismos estende-se do cultural ao psicológico. Não existe maldade absoluta no Gulag, ou submissão absoluta. Chegaram a acontecer insurreições.

Extraordinárias como algumas foram (nomeadamente a descrita no capítulo ‘Os quarenta dias de Kenguir’), a maior de todas acabaria por ser a “força moral” louvada pelos jurados de Estocolmo, que atinge consumação máxima nesta obra.