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A folheca cultural & etc ...

Oposicionista, libertária, moderna e irreverente, aberta a novas correntes, esta experiência foi um inesquecível marco nos anos 60. Uma exposição na Biblioteca Nacional assinala os 50 anos do nº 1 do periódico liderado por Vítor Silva Tavares

Vítor Silva Tavares num dia de canícula e de Feira do Livro, no Parque Eduardo VII, Lisboa

Vítor Silva Tavares num dia de canícula e de Feira do Livro, no Parque Eduardo VII, Lisboa

foto Telma Rodrigues

Adivinhavam-se tempos novos a precipitarem-se para as sociedades, mormente com o Maio de 68 a proclamar espaços e um novo estilo entre relações geracionais. Mas também com os provo nos Países Baixos, com os hippies do outro lado do Atlântico, os reflexos do movimento dos direitos civis dos negros nos EUA e o impacto social das lutas contra a guerra do Vietname. Até os estudantes japoneses andavam irrequietos. O mundo movia-se e marcava posições, parecia preparar-se para assumir uma era nova.

Em Portugal, por causa de uma guerra colonial sem sentido, embarcava-se cada vez mais gente nos navios que restavam da frota mercante, ‘carne para canhão’ para liças travadas nas paragens africanas do império. Na ‘Metrópole’, além do terrível desfile desses ‘soldados de chumbo’, mantinha-se outra ferida a sangrar: a da fuga para a emigração dos que escapavam a definhar numa pobreza ingente e inglória. Aqui, neste eterno retângulo passivo, nem a primavera nos aquecia... era a de Marcello Caetano, própria para enganar o burguês crédulo e rapidamente desvalorizada. Apesar de ilusões e promessas, tudo ficou quase igual.

No meio desta lusitana “apagada e vil tristeza” havia quem reagisse e dissesse “não”! Entre outros exemplos — não tantos quantos seriam de desejar —, pelo meio das serranias beirãs, António Paulouro dirimia com dignidade contra investidas interesseiras e ataques ideológicos da ‘situação’ editando o “Jornal do Fundão”. Em 1967, estava ele numa fase em que enfrentava a proibição, pela Censura, de publicar o jornal durante seis meses, por causa de uns escritos dados à estampa na página cultural acerca do livro “Luuanda”, do angolano Luandino Vieira, preso no campo de concentração do Tarrafal. Preparando um regresso estratégico, em conversas com José Cardoso Pires, para consegui-lo sem tantas pressões do poder, lá foram os dois imaginando a ‘instalação’, entre as páginas dadas às notícias, de uma aventura que deu pelo nome de “& etc..., Magazine das Artes, das Letras e do Espectáculo do Jornal do Fundão”, suplemento resguardado pelo osso do jornal.

As capas eram obras de arte, compromisso radical entre os temas dos conteúdos literários, que abrangiam os mais variados assuntos e a participação de artistas plásticos de renome

As capas eram obras de arte, compromisso radical entre os temas dos conteúdos literários, que abrangiam os mais variados assuntos e a participação de artistas plásticos de renome

Para dar-lhe corpo recrutaram Vítor Silva Tavares (V.S.T.). Este tinha sido programador da editora lisboeta Ulisseia e passara a responsabilizar-se pela direção do suplemento literário do “Diário de Lisboa”, no início dos anos 70. Para arredondar os finais de mês, era também escritor de prosas, que fazia publicar em diversos jornais e revistas. É dele o depoimento (numa entrevista dada a Alexandra Lucas Coelho) que explica como (quase) tudo nasceu: “A ideia era esta: se o jornal reaparecer com uma folha que diz ‘Artes e Letras, Suplemento Cultural’, o que quer que seja, é um convite que estamos a fazer à Censura para cortar ab ovo a intervenção cultural dentro do ‘Jornal do Fundão’. Logo, vamos lateralizar a questão. Vamos chamar-lhe magazine, recuperando a velha ideia dos magazines, um bocadinho de cada coisa, o que já tem a ver com o nome.” Dito e feito.

O texto programático dado ao primeiro número continha indicações para se perceberem os conteúdos: “Não se espante o leitor se encontrar ao lado de uma análise literária um texto sobre moda masculina (ou feminina), outro sobre culinária, outro ainda sobre uma equipa de futebol. Os redatores do & etc... consideram que todos os assuntos e mais um são passíveis de reflexão crítica e tratamento cultural (...)”

A coisa era mesmo assim? Bem... Era mais para o ‘assado’: não se brincava neste serviço. Vamos aos trabalhos. A marca que ficará para sempre nas memórias daqueles anos organizar-se-á por duas séries. A primeira percorre 26 números, entre fevereiro de 1967 e 11 de abril de 1971, sob a referida chancela do “Jornal do Fundão”. Logo de seguida, torna-se independente e passa a apresentar-se como “folheca cultural q.b.”, com 25 números entre janeiro de 1973 e outubro de 1974. O editor e livreiro Paulo da Costa Domingos, cúmplice dos mais fiéis a V.S.T., lembra que “ainda esta última se debatia com os habituais cortes ou proibições na íntegra de artigos e desenhos, que a Censura nunca poupou”. Para ultrapassar esses ataques, à época havia toda uma panóplia de artimanhas bem urdidas. Logo que a Censura começou a não deixar em branco os espaços cortados, estes passaram a ser ‘denunciados’ através de estratagemas gráficos, como exposto na publicação ao lado da fotografia, com as mãos-atesouradas presentes no nº 3, de 16 de abril de 1967 — exatamente há 50 anos —, exemplar publicado na primeira fase. O público, um certo público, sabia desses expedientes e registava-os.

Dois aspetos editoriais chamavam a atenção e colhiam sempre mais e mais acólitos: os temas irreverentes e desusados, surrealizantes muitas vezes, sem concessões que desleixassem a qualidade literária e a independência de critérios, e a própria apresentação gráfica, antes de mais por causa do formato, baseado no quadrado perfeito, de 15,5 x 17,5 cm, que foi uma carismática imagem de marca e se prolongou para os títulos publicados no seguimento de uma editora livreira. Eram capas compostas de forma cuidadosamente selecionada, trabalhos de pintores e gráficos reconhecidos. Como dizia Vasco Tavares dos Santos num texto escrito para figurar no livro “Uma Editora no Subterrâneo”, dedicado aos 40 anos da editora de livros & etc..., mas ainda referindo-se ao “quinzenário cultural”, era “um tratado de assombrologia”.

Os colaboradores, quer do quinzenário cultural quer da própria editora livreira, nada ganhavam com esses trabalhos: as empreitadas não rendiam dinheiro e era uma aventura timorata arranjar expedientes para os publicar. Todos militantes, honrados com a seleção, com a sua integração. Atendendo aos colaboradores da revista, fica-nos uma longa lista de impressionantes nomes, sonantes, de múltiplas sensibilidades: Hernâni Cidade, Alves Redol, Luiz Pacheco, António Gedeão, Eduardo Prado Coelho, Liberto Cruz, Luís Pignatelli, Joaquim Benite, Luiza Neto Jorge, Jorge Silva Melo, Maria Teresa Horta, Herberto Helder, João Vieira, José Jorge Letria, João César Monteiro, José Cardoso Pires, Virgílio Martinho, Vergílio Ferreira, Eugénio de Andrade, Pedro Oom, Alexandre O’Neill, E. M. de Melo e Castro, Ana Hatherly, Maria Alberta Menéres, Ernesto Sampaio, Eduardo Guerra Carneiro, Manuel João Gomes... E outros, das artes plásticas e do cinema. E ficam de fora muitos mais.

Paulo da Costa Domingos responsabilizou-se pela montagem da exposição patente na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), que relembra a ousadia dos que fizeram o magazine que começou por ser suplemento de jornal e afinal passou a revista, terminando, galhardamente, por autodenominar-se “folheca cultural q.b.”. Foi também ele que coordenou a edição do livro-catálogo que acompanha e enquadra o que se dá a ver no primeiro andar da BNP, “Prolegómenos a Uma Editora — Efémera, Catálogo e Bibliografia”. E escreve sobre a persistente labuta, que foi também sua: “Neste particular, [V.S.T.] soube rodear-se de indivíduos suficientemente heréticos ou heterodoxos, confidentes e colaboradores satisfatórios no desempenho das tarefas necessárias e também no respetivo exemplo de vida quotidiana. Porque, como veio a confirmar-se, são os costumeiros ‘amanhãs que cantam’ e os abstratos ‘objetivos gerais’ que desmobilizam, conduzindo a energia coletiva — no caso português como alhures — à chantagem do endividamento ao banco, conduzindo o escol intelectual a render-se numa desavergonhada capitulação à gamela dos subsídios estatais com dinheiro do erário público (...)” Ao folhear-se as preciosas duas séries da revista não deve, pois, estranhar-se o vasto ecletismo temático e estilístico aí abrangido, a sua atenção ao detalhe, reflexo de uma consciência de que na intervenção parcelar, mas constante, se faz estrada real da causa dos homens livres.

E que dizer do seu criador maior? Paulo da Costa Domingos destaca que de V.S.T. “ficou a imagem da última memória de uma época perigosa, mas a todos os títulos crítica, criativa e, portanto, mítica”. Já Ricardo Álvaro traça o perfil: “Foi um Homem raro, genuíno, naturalmente vertical, lúcido, felino, livre-livre como um pardal-de-telhado que transporta a Liberdade no voo, senhor de ‘uma grande razão’ e de uma sabedoria e dimensão existencial para além das medidas curtas desta mesquinha alfaiataria humana, certo até à medula da sua altitude e profundidade.”
Com ele, jamais descartável, a história da bela caminhada aventurosa da & etc... há 50 anos.

& ETC: PROLEGÓMENOS A UMA EDITORA,
Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, até 31 de maio