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Cultura

Da vertigem e da arte

Da dança de mãos dadas se faz “Bit”, de Maguy Marin, onde o ritmo é uma questão política

FOTO Herve Deroo

Os Dias da Dança (Festival DDD) instalam-se no Porto, Gaia e Matosinhos numa segunda edição

Claudia Galhós

Vertigem, corpo político, noção de pertença ou permanente sentido de deslocação na relação entre território e fisicalidade... O começo da escrita é a entrada num dos muitos mundos do “caleidoscópio que a dança contemporânea é e que está presente na segunda edição do Festival DDD — Dias da Dança”, segundo Tiago Guedes, diretor do Teatro Rivoli (Porto) e do evento.

As peças dos primeiros dias, na sua imensa diversidade, oferecem alguns pontos de contacto. Poderíamos dizer que “Muros”, de Né Barros (com estreia dias 27, 28 e 29, Teatro Nacional São João), nada tem a ver com a peça “Terça-feira: Tudo o que é sólido dissolve-se no ar”, de Cláudia Dias (dia 29, Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery), ou com “Bit”, da francesa Maguy Marin (29, Teatro Rivoli). A diferença geracional e de nacionalidades é evidente, assim como se distinguem os universos autorais, mas há uma dimensão política na abordagem do movimento que, em cada caso, assume uma forma específica e se expressa em graus diferentes.

Por exemplo, a peça de Né Barros é colocada “na zona de exploração do corpo e das identidades muitas vezes fixadas na noção de raça e de marca territorial”. “Bit”, de Maguy Marin, suscita o macabro e o prazer da partilha social por via do recurso à dança provençal farândola, explorando as potencialidades do ritmo, fator marcante da sua obra que conta com quatro décadas. Para Maguy, o uso do tempo é uma questão política. Quando está demasiado marcado, em que somos conduzidos a um mesmo lugar no mesmo passo, pode ser entendido como fascista, militar; quando não há ritmo, pode significar uma não escuta do outro e a impossibilidade da vida em comum... É muito disto que está em causa em “Bit”.

Em 2017, o DDD prolonga-se por mais uma semana, tem mais espetáculos (35 ao todo, além de uma grande diversidade de atividades e propostas paralelas), reorganiza-se novamente a partir do eixo das mesmas três cidades — Porto, Matosinhos e Gaia —, abre-se a novos parceiros, como o Teatro do Bolhão, e reforça ligações, como acontece com o Teatro Nacional de São João e o Coliseu do Porto. Nesse panorama intergeracional e plural sobre o que é hoje a dança, esta edição tem uma maior presença de criadores estrangeiros — além de Maguy Marin, destaque-se o regresso de Alain Platel com “Nicht Schlafen” (8 e 9 de maio, Teatro Nacional de São João) ou o francês Yoann Bourgeois com “Celui qui Tombe” (13 de maio, Coliseu) —, mas reafirma a aposta nos criadores do norte.

Num festival que não se quer temático, Tiago Guedes identifica algumas tendências, como um lado vertiginoso da dança, o regresso ao movimento ou as peças que transportam uma relação com a história e o legado desta arte. Deixemos um exemplo apenas, da vertigem visual e sonora, em que “as pessoas ficam nas varandas da sala do Rivoli a olhar para baixo, para o palco, como se estivessem num poço da morte, mas dentro do teatro”, descreve Tiago. É “O Poço”, de Jonathan Uliel Saldanha (12 e 13 de maio, Teatro Rivoli), um nome da nova geração do Porto a descobrir.

FESTIVAL DDD — DIAS DE DANÇA
Vários locais, Porto, Matosinhos, Gaia, de 27 de abril a 13 de maio