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Imaginarius: a festa do teatro de rua ou um ensaio sobre a cegueira e a luz

D.R.

O Imaginarius – Festival Internacional de Teatro de Rua regressa, entre 25 e 27 de maio, a Santa Maria da Feira, com mais de 40 espetáculos e uma “Donzela” de regresso ao castelo. Entre a cegueira e a luz, celebra-se a arte ao ar livre, na procura de ideias frescas

André Manuel Correia

O que leva, todos os anos, aproximadamente 50 mil pessoas até ao centro histórico de Santa Maria da Maria? O motivo é o Imaginarius – Festival Internacional de Teatro de Rua. É para todos e para todas as idades. E acessível, mas introspetivo e provocador. É para pensar. A arte. A sociedade. A vida. O que somos e onde estamos? Entre a sombra da cegueira social e a luz, reside neste binómio o mote para a 17.ª edição do evento. Durante três dias – de 25 a 27 de maio –, a celebração da criação contemporânea de arte pública espalha-se pelas ruas, praças e jardins da cidade, através de 41 espetáculos ou intervenções, a cargo de 400 artistas, oriundos de 13 países. A programação – este ano com a inclusão de mais um dia – inclui 11 estreias absolutas, 23 estreias nacionais e o regresso de uma enorme “Donzela” ao castelo.

O envolvimento com a comunidade e a cultura de proximidade são pedras basilares de um festival que, contudo, tem fome de mundo e se revela cada vez mais internacional. Num ano em que o concelho pretende afirmar-se como a “Cidade das Artes de Rua”, o Imaginarius não se cinge à apresentação de produções culturais e servirá também como ágora para refletir a criação artística. Exemplo disso é o “FRESH STREET#2”, descrito como o maior seminário internacional para profissionais do setor, com 450 participantes confirmados, de 39 nacionalidades.

Fazer convergir artistas portugueses e estrangeiros, bem como criar pontes entre autores emergentes e outros já consolidados, são também objetivos centrais deste evento dinamizado pela Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, como fica patente na iniciativa “Imaginarius Pro”, um espaço dedicado a promover o debate e servir de montra para criadores nacionais perante delegados culturais de todo o mundo. Divulgar novas abordagens criativas e fomentar a exploração estética e sensorial do espaço comunitário são outros dos princípios fundadores.

À conversa com o Expresso, Bruno Costa – que divide há quatro anos a direção artística do festival com Daniel Vilar – não tem dúvidas em afirmar que este “é o Imaginarius mais internacional de sempre”, num ano em que as propostas programáticas surgem relacionadas com a “cegueira contemporânea”. Quase como ensaios artísticos sobre luz e sombra, o responsável explica que a premissa para esta edição – com 49 companhias ou projetos artísticos representados – “pretende ser um desafio aos artistas e à comunidade para refletirem sobre a sociedade atual”. “Procuramos”, acrescenta, “projetos com reflexões vincadas sobre os princípios morais ou problemas da sociedade contemporânea e queremos desafiar o público a interpretar em cada espetáculo de que forma eles estão presentes”.

A título ilustrativo, dentro de uma programação tão vasta, Bruno Costa destaca o projeto “Cegos”, dos artistas brasileiros Desvio Coletivo, trabalho que culmina com duas ‘performances’, resultantes de um ‘workshop’ de intervenção urbana com a comunidade local, ou ainda o macro espetáculo “Pedaleando Hacia el Cielo”, da companhia Theator Tol, “que nos remete para a superação de obstáculos sociais”. Trata-se, este último, de um “jogo de emoções e sensações que nos guiam por entre os obstáculos e elementos obscuros da sociedade de hoje, conquistando o céu como anjos que pedalam nas nuvens e nos guiam aos nossos objetivos”, descreve a organização.

A parceria com o festival sueco “Lights in Alingsas” promove também um ‘workshop’ de design de luz, com alunos da ESMAE, do Porto, pensado para o espaço público, onde se exploram memórias, feridas e sentimentos, culminando com a apresentação de três instalações que marcarão as noites do festival em diferentes locais do centro histórico.

Uma “Donzela” regressa ao castelo

Um dos pontos altos da programação vai para o regresso da “Donzela”, uma das icónicas obras de Joana Vasconcelos, concebida há 10 anos com a colaboração ativa de centenas de habitantes de Santa Maria da Feira, e que agora regressa ao castelo da cidade. “É uma peça do património municipal e acreditamos que faria todo o sentido devolvê-la ao seu espaço natural”, frisa Bruno Costa.

No Imaginarius os artistas da casa são também protagonistas, como é disso exemplo Guilherme Henriques – o jovem de 22 anos que o Expresso entrevistou em dezembro último e que realiza videoclipes para bandas de heavy metal de todo o mundo – com um trabalho espalhado por mais de uma dezena de países, desde a Noruega até Taiwan. No âmbito do festival, Guilherme irá trabalhar com duas turmas de artes do ensino secundário, de forma a explorar “o ser interior” e “o que se encontra no interior de cada um destes adolescentes, que se pode manifestar através de registos fotográficos”, explica o responsável artístico.

De realçar ainda uma escultura da coleção “Luminarium”, do coletivo britânico “Architects of Air”, uma tenda com 60x30m com túneis de luz de caleidoscópicos, com capacidade para 180 pessoas em simultâneo e que acomodam o público no seu interior, com o objetivo de proporcionar uma viagem introspetiva ao interior de cada um. “É um espaço mais intimista, uma vez que durante o festival chegam a decorrer oito espetáculos ao mesmo tempo”, denota Bruno Costa, para quem este é um local propício para os visitantes “pensarem, refletirem ou, simplesmente, para se sentarem a ler um livro”.

O Imaginarius é, assim, um festival interessantemente ambíguo. Virado para dentro, mas com as portas abertas ao mundo. Voltado para a comunidade, mas a funcionar como uma antena que capta o que de mais inovador se faz a nível internacional no contexto da arte de rua. “Muitas vezes dizemos que o festival acaba por ter um reconhecimento maior no exterior do país, do que propriamente em Portugal. Verifica-se uma vontade clara de muitos artistas internacionais estarem presentes no Imaginarius. Há um reconhecimento vincado”, assegura Bruno Costa, algo que pode ser explicado, na sua opinião, com o facto de “apenas algumas autarquias apostarem nas artes de rua pode ser explicação”.

Todos os espetáculos do festival são gratuitos e a programação completa pode ser consultada aqui.