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Anabela Moreira: “Este filme foi a maior loucura que todas nós, atrizes, fizemos por um realizador”

Anabela Moreira numa cena do filme

d.r.

O filme “Fátima”, do realizador português João Canijo, chega esta quinta-feira às salas de cinema. O Expresso entrevistou uma das protagonistas, a atriz Anabela Moreira

Para o filme “Fátima”, que estreia esta quinta-feira, fizeste mesmo a pé um dos percursos dos peregrinos até ao santuário. Quantos quilómetros andaste ao todo?
Olha, não te sei dizer. No cartaz diz 400 km. Mas foram mais de 400...

O cartaz engana para menos? Retirou quilómetros ao que realmente fizeram?
Não é questão de enganar. Tem a ver com a questão da publicidade. 11 mulheres, 400 quilómetros. Na verdade acho que nunca ninguém saberá quantos quilómetros fizemos, porque andámos em alguns caminhos alternativos, e às vezes no percurso os marcos diziam que tínhamos andado X km e o conta quilómetros dizia que tínhamos andado Y, no Google maps dizia que o percurso era de W. Era tudo muito confuso. Não sei. Sei que foram muitos. Eu fiz o percurso maior de Bragança a Fátima. Era para ser feito em 10 dias, acabou por ser feito em 9 dias e acabou por ser a maior loucura que eu fiz na minha vida.

Foi duro...
Foi muito duro. Não fui só eu. Fui eu com a Vera [Barreto]. Houve outros grupos, como o da Teresa Tavares com a Iris Macedo. Estas vieram do Norte. Outras vieram de outros locais. Acho que foi a maior loucura que todas nós fizemos por um realizador. Porque às tantas estava em causa a nossa saúde. As pessoas se calhar têm de ver o filme para perceberem o que é uma peregrinação a Fátima. O percurso Bragança – Fátima é o maior em Portugal. Eu pensava que se viéssemos do Algarve seria um percurso maior, mas não é. A maior peregrinação é a que sai de Bragança. Tanto que, quando chegámos ao Santuário, há 3 anos, na altura em que fizemos o percurso verdadeiro, há uma altura na missa em que alguém nos congratula, faz uma festa, porque o nosso grupo, o grupo do maior percurso, tinha chegado bem ao Santuário. Claro que não estávamos bem.
Fez-me muita confusão. Vão-se celebrar 100 anos desde que começaram a caminhar pessoas até ao Santuário

Não estavam bem? Normalmente as pessoas, e são muitas que todos os anos fazem esta peregrinação a Fátima, fazem este percurso por uma questão de fé. É uma experiência de fé. E convosco? E contigo? Que experiência foi esta?
Eu tenho um bocadinho de medo de falar dessa experiência, porque cada pessoa vive essa experiência de maneira diferente. Eu só posso falar de mim. Fez-me muita confusão. Vão-se celebrar 100 anos desde que começaram a caminhar pessoas até ao Santuário. Pois é uma loucura. Eu estava a vir de Bragança, mas a Teresa Tavares e a Irís estavam a vir de Vila Flor. Eu estava a ir por um percurso em que fazia mais quilómetros - íamos sabendo coisas umas das outras através da produção do filme – e eu sabia que em determinado dia elas estavam a fazer um atalho lindíssimo, que a Teresa Tavares diz que foi o percurso mais bonito que fez na sua peregrinação, onde passou por um ribeiro. Imaginando que pouparam uma hora. Ninguém imagina o sofrimento que é. Não está nada organizado nos caminhos de Fátima. É uma coisa absolutamente selvagem. E isto chocou-me. A determinada altura vais encontrando pessoas pelo caminho e alguém te diz ‘por aqui poupa-se uma hora’ ou ‘por aqui poupa-se 5 minutos’, o que seja e...

Mas não há roteiros? Vivemos numa era com os smartphones e Google Maps, que ajudam no caminho...
Existe uma coisa que é a rota do peregrino que fez um percurso, mas duvido que tenham batido o terreno todo para saberem todos os percursos alternativos e pequenos que passam dentro de campos. Aquilo é praticamente feito todo por estrada, por zonas perigosas. Há ali uma zona onde todos os anos há acidentes e eu fiquei a saber que há grupos que fazem um percurso alternativo, por dentro, no meio do campo. E nós estávamos a fazer o percurso na estrada, ao lado de camiões, sem bermas, sem nada. É um choque. E vou por ali porquê? Porque vou com um determinado grupo, com um determinado organizador, e não encontras ao longo do percurso nenhum sinal....Sou a favor que se estabeleçam os caminhos para Fátima de uma maneira mais inteligente. Com graus de dificuldade, e o percurso bem explicado. Tudo isto está por ser feito ainda. Na altura houve uma pequena revolta no grupo porque apareceu um senhor que já fazia o percurso há 30 anos e falava de atalhos, o José Júlio...Quando acabei essa peregrinação verdadeira, eu só dizia: ‘vou criar o caminho do José Júlio’.

Porque todo esse percurso a pé que o elenco fez anos antes até Fátima foi apenas para laboratório. Nada disso foi filmado ou aproveitado para o filme...
Não. Isto foi dois anos antes do filme.

Uau. Só para sofrerem...
(risos) Só para o João poder saber o que era uma peregrinação e para nós todas também sabermos o que era. Porque só quem vive este percurso tão gigante, tão louco, só quem o conhece, é que pode falar dele com propriedade. Até podes observar de fora, mas nunca vais entender.

A tua representação desta tua personagem, a Céu, seria outra se não tivesses feito este percurso dois anos antes?
Ah! Sim. Eu imaginaria que fosse isso que estavas a dizer, um ato de fé. É um ato de fé, não estou a dizer que não seja, mas do que eu consegui perceber...(pausa) Uma coisa é estares num momento de aflição da tua vida porque tens uma doença ou alguém que tu conheces tem um problema e tu virares-te lá para cima, porque achas que Deus ou Nossa Senhora estão tão distantes de ti que para pedires uma coisa tens que fazer uma promessa destas.
Gravei com uma pequena câmara esses percursos diários que fiz na realidade. Antes das filmagens arrancarem. E se os ouvir, e tive de os ouvir algumas vezes, eu estou louca. Completamente louca

São normalmente momentos de desespero que levam a maioria das pessoas a fazê-lo...
Eu depois descobri que algumas pessoas não chegam a fazer promessas, fazem porque gostam da superação, mas também há pessoas que gostam de fazer queda livre

Não é o teu caso...
Não. Mas eu percebi rapidamente que, pelo menos para mim, daquilo a que assisti, uma coisa é o teu ato de fé quando tu fazes a promessa, outra coisa é cumprir a promessa. E, do que eu vivi, acho que esse caminho não é santo nem santificado. São pessoas a cumprir uma determinada coisa. E como pessoas que estão no limite do sofrimento, surgem uma série de aspetos teus que desconhecias. Eu cheguei ao limitar da loucura. Conheci os meus pontos mais positivos e partes da minha pessoa que eu desconhecia que existiam porque o sofrimento é muito.

Como por exemplo? O que te surpreendeu em ti, que aconteceu, por causa do sofrimento?
Eu gravei com uma pequena câmara esses percursos diários que fiz na realidade. Antes das filmagens arrancarem. E se os ouvir, e tive de os ouvir algumas vezes, eu estou louca. Completamente louca.

Porquê? Com pensamentos delirantes?
Não chego a ter pensamentos delirantes, mas aquilo que eu percebia que as pessoas estavam a dizer ou estavam a querer fazer era um bocadinho delirante, paranoico. Porque chegas a um ponto...tenho partes desse diário [gravado] em que estou praticamente só a dizer asneiras, porque a raiva é tanta... Nem é raiva. Nem sei explicar. Ninguém está preparado para andar 50 ou 60 quilómetros nos primeiros dias da tua ida a Fátima. E pensas assim: “São 430 quilómetros. Tens dias para o fazer. O que é que se está a passar aqui?

Anabela Moreira, em primeiro plano, noutra cena do filme

Anabela Moreira, em primeiro plano, noutra cena do filme

Com este filme, já pagaste todos os teus pecados, para trás e para a frente, não?
Eu já tenho um saldo muito positivo. Um crédito enorme, para depois poder cobrar uma série de coisas para o futuro.

És uma mulher de fé?
Tenho fé em muita coisa. Não sou religiosa. E nesta fase da minha vida nem cristã, mas tenho fé.

Em quê?
Não te sei explicar. Seria fácil dizer que sou agnóstica. Não sei. Desenvolvi o meu próprio sistema de crença. Acredito que de facto não somos só o corpo, acredito que de facto isto não acaba aqui. E acredito sem colocar em questão. Não tenho medo da morte. Tenho medo de perder as pessoas que eu amo e de não ter feito tudo o que podia por elas. E tenho medo que elas morram sem estarem felizes. E acho que isso angustia-me um bocadinho. Mas eu tenho plena certeza, e isto é uma loucura, mas fiquei com essa certeza quando morreu a minha avó, que as pessoas não acabam quando morrem. Agora explica-me isto...não sei.

E gostas do resultado do filme “Fátima”, que teve este processo doloroso?
O filme “Fátima” poderia ter sido muita coisa porque é uma obra muito complexa e o João filmou muitas, muitas, muitas horas. Eu gosto muito da versão longa, não gosto tanto da versão curta.

Que é a que vai ser apresentada no cinema...
Sim. Acho que é um bocadinho precipitada. Mas quando digo que é precipitada, são opiniões minhas que não interferem com a qualidade do filme. Mas é um filme sobre uma peregrinação e não pode ser um filme rápido, onde as coisas sejam precipitadas. Quer dizer, aquilo foram 9 dias e o João escolheu apresentá-lo com a lógica da cronologia. E não se pode passar de forma leviana por esses 9 dias de sofrimento.

Com o realizador João Canijo consegues mais espaço para criar, não é?
O João Canijo cria para aquelas pessoas. Ele não cria no vazio, às vezes acontece. Por exemplo no filme “Sangue do Meu Sangue” começámos por ser três atrizes, depois foi preciso um rapaz para fazer de meu sobrinho e filho da Rita - [Blanco] fomos encontrar esse rapaz; depois foi preciso um namorado fomos à procura desse ator. Ele antes de começar a escrever para as pessoas ele pensa nas pessoas. Não é que ele misture, porque é tudo uma coisa só, mas ele acaba por vir buscar o ator logo de início, nós atores fazemos parte desse ato de criação. Estamos ali a criar com ele. E, portanto, é um processo único e diferente de todos os outros, pelo menos daqueles que eu tenho experimentado. Essa confiança que ele me trouxe, de confiar em mim até o ponto em que verbalizo o que estou a sentir com a minha personagem, foi o que me fez pensar que poderia ser giro eu encenar-me a mim própria, a dirigir-me a mim própria. E permitir-me ir a uns sítios que se correrem mal, são projetos meus, fui eu que arrisquei, não tem problema nenhum. (pausa) Nós, atores, somos muito inseguros.

É mais fácil chegar à personagem quando percebes o contexto distante do teu...
Eu descobri neste último processo de trabalho, com o filme Fátima, que às vezes o distanciamento também é muito importante. Ou seja, esta coisa de às vezes imergires de uma tal situação tem de ser doseada. Por isso não posso dizer que tenha um método. Houve alturas do filme “Fátima”, como tinha mesmo ido a pé, como tinha mesmo feito aquele percurso, às tantas estava demasiado ligada ao realismo da questão. E dei por mim a querer reproduzir coisas que tinham acontecido e percebi a meio do processo e depois de ver o filme que não, que tinha que ajustar algumas coisas, tem de haver também esse distanciamento.

Por outro lado, costumas transformar-te fisicamente nos papéis que tens feito no cinema. Neste caso, no filme “Fátima” também te transformaste bastante. Estás quase irreconhecível.
Meu Deus! Eu quando fiz o “Mal Nascida” por uma série de razões decidi engordar 25 quilos. Não foi uma decisão fácil, mas eu sei porque é que a fiz. A fisicalidade que eu ganhei com o excesso de peso facilitou-me inclusive a deixar vir cá para fora uma série de sentimentos mais rudes. Foi um percurso que decidi fazer e que foi essencial para aquela personagem. Até porque eu tinha uma cena de sexo com o meu irmão. E queria ser tudo menos sensual, sentia que a Lúcia era um bicho, uma mulher que se tinha abandonado completamente e que estava desfigurada.

Isso é raro entre as atrizes. Muitas querem estar belas frente à câmara.
Isto é um caso de psicanálise. A primeira vez em que fiquei mesmo aflita numa personagem foi numa em que tinha que ficar linda, nos “Filhos do Rock”, eu era a Maria, a boa da história. Nem eu sabia que eu era assim. Eu chegava de manhã e tapava a cara para não me verem, achava-me feia. Tem a ver com coisas profundas da minha vida. Sinto-me muito melhor a fazer mulheres absolutamente banais. Que não tenham sex-appeal, do que a fazer mulher sensuais.

Foste ao limite mesmo fisicamente no filme “Fátima”.
Eu agora quando fiz este filme “Fátima” não queria nem emagrecer, nem engordar. Mas pensei, a minha personagem é uma mulher de Trás-os-Montes e como estou entre várias atrizes magrinhas e bonitas, vou comendo e vendo no que dá.

Deste-te aos prazeres da gastronomia...
Dei-me aos prazeres da gastronomia de Vinhais, neste caso numa aldeia maravilhosa chamada “Rio de Fornos”, onde eu trabalhava para dois patrões maravilhosos, o Tóino e a Fátima. E eu todos os dias ia tratar dos animais de manhã e eles davam-me de seguida o pequeno almoço. E o pequeno almoço era feito de presunto de porco bísaro que eles passavam por vinho tinto e punham na lareira. E digo-te uma coisa, aquele pedaço de pecado não fica atrás de nenhuma iguaria que eu já comi até hoje.
E só em Lisboa me apercebi que tinha ficado completamente deformada. Tudo bem foi uma coisa que eu quis fazer, não foi pensado, deixei-me ir no processo. Mas neste momento estou a lutar para perder peso e os quilos que ainda ficaram desse filme.

Quantos quilos engordaste?
Entrei num ginásio maravilhoso e durante 2 ou 3 meses não me quis pesar. Emagreci bastante e quando me decidi pesar ainda estava com 70 quilos, com mais 10 ou 15 quilos a mais. Portanto não sei quantos quilos ganhei para o filme. Muitos. Mas vou procurar ajuda para perder o resto. Não posso ser eu sozinha. E eu adoro comer, adoro viajar, adoro música e sou uma apaixonada pela vida por estas coisinhas do momento.

Esses pequenos instantes de felicidade...
Sim, são instantes mas a vida é só isso, não é? O que é a felicidade. A vida é a soma desses bocadinhos. E sem isso resta alguma coisa. Mas grande parte da minha felicidade é usufruir das coisas sem medos.

(Pode ouvir a entrevista completa clicando no botão laranja da barra de som no topo deste texto)