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Luís – dentro da saudade cabe um festival

António “Kili” Loureiro

Há dois palcos montados, a música ouve-se a centenas de metros de distância, das barracas exala um forte cheiro a comida e os copos de cerveja são companhia indispensável. O Party Sleep Repeat, em São João da Madeira, poderia ser mais um festival de música. Mas não é. Porque por trás de tudo isto há uma bonita história de amor e amizade que tem de ser contada

Gabi tem uma memória “horrível”, mas há uma imagem que não lhe sai da cabeça: “Lembro-me de entrar no liceu [Escola Secundária Dr. Serafim Leite, em São João da Madeira] e ver um rapaz super alto, com o cabelo encaracolado, lindo”. Gabi sabia quem ele era. Sabia que se chamava Luís. Lembrava-se de o ter visto uma noite, na cidade. Tinham vários amigos em comum, mas ainda não eram muito próximos. “O Luís era alguém que marcava as pessoas. Era sempre aquele sorriso enorme e o brilho nos olhos”. Não conviviam muito, até porque Gabi, filha de mãe portuguesa e pai inglês, reside em Espanha há quase dez anos, mas era sempre tudo muito “intenso” quando se encontravam. Ela sabia do que se estava a passar. Perguntava-lhe: “Está tudo bem, Luís?” Ele respondeu sempre com um “sim”, até ao final. A conversa desviava depois para temas aparentemente mais supérfluos, mas mais confortáveis para ele. Falavam das exposições no Museu do Prado ou no Thyssen, em Madrid. “Eram estas as nossas conversas… Estou a ficar nervosa. Pause. Fuck!”

Luís Lima, conhecido por “Chicken” entre os amigos mais próximos, morreu em 2012, com apenas 23 anos, vítima de cancro. Desde então, os companheiros de infância e juventude têm-se reunido todos os anos para organizar um festival de música em sua homenagem, o Party Sleep Repeat (PSR), em São João da Madeira. Por se tratar de um tributo, todo o evento é “construído a pensar no Luís, desde a programação e a decoração, à escolha do próprio espaço”, explica Tiago Valente dos Santos, presidente da Associação Cultural Luís Lima (ACLL), que organiza esta festa em parceria com a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de São João da Madeira, a que se junta a Associação de Jovens Ecos Urbanos.

A quinta edição do PSR teve lugar no último sábado, na Oliva Creative Factory. Uma verdadeira maratona de concertos, iniciada às 17h e concluída quando no céu raiavam já os primeiros sinais da aurora de domingo. A grande novidade deste ano foi a presença dos madrilenos Baywaves, que vieram concretizar o desejo antigo da organização de ter uma banda de outro país a constar no cartaz. “Era uma coisa que almejávamos. Conseguimos e vamos tentar que o festival tenha sempre um apontamento ou outro nesse sentido”.

Além dos Baywaves, atuaram artistas e bandas como The Legendary Tigerman, Marvel Lima, Riding Pânico, Prana, Toulouse, The Sunflowers, num evento igualmente animado pelos DJ sets de Adão, A Boy Named Sue e La Flama Blanca. No que diz respeito à programação, Tiago Santos explica que a principal preocupação é, “por um lado, garantir que as bandas estão alinhadas em termos de género, e por outro, se o alinhamento escolhido agradaria à pessoa em nome da qual este festival se realiza”.

António "Kili" Loureiro / D.R.

Se nas primeiras edições mais de metade das bandas conheciam Luís ou a sua história, hoje essa marca já não é tão forte. “Cada vez mais essa ligação desvanece-se”, diz Tiago Santos. O PSR recebe aproximadamente dois mil espectadores por ano e mobiliza dezenas de voluntários, que trabalham de perto com o núcleo duro da organização. Alguns deles não chegaram a conhecer Luís, mas “sentiram-se sensibilizados com a história e quiseram contribuir”, explica o presidente da ACLL. Ali, todos dão o que podem. Ninguém recebe nada em troca, apenas o sentimento de realização. As receitas de bilheteira revertem a favor de causas sociais, como a iniciativa “Apadrinhe Esta Ideia”, da Associação de Jovens Ecos Urbanos, e alguns projetos de investigação da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

“O Luís era uma pessoa muito espontânea e encantadora, muito ligado aos amigos. Tinha uma visão artística e cultural bastante avançada para a idade. Interessava-se sempre por coisas novas e fazia questão de mostrá-las aos que o rodeavam”. Se Tiago tivesse de explicar quem foi Luís a estas centenas de pessoas que vêm ao festival, era isto que diria. Mas esta é só “a primeira parte da história”. A segunda começa quando lhe foi diagnosticado um tumor cerebral. “Mudou um pouco depois de saber que estava doente. Focou-se muito na sua atividade académica e profissional e também em ações de voluntariado. Eu costumo dizer que o Luís, no momento mais frágil da sua vida, fez-se forte e começou a apoiar os outros”, sintetiza o dirigente da ACCL.

Quando a saudade se transforma em energia

Há uma palavra que traduz muito bem isto, que é a palavra sublimação. Segundo Freud, significa transformação, a possibilidade de transformar uma dor extremamente severa e aguda em algo socialmente útil (Luís Quintino).

Esse trabalho de voluntariado, Luís manteve-o durante muito tempo em segredo. Por nenhuma razão em especial, simplesmente aconteceu assim. O próprio pai, Luís Quintino, conta que só descobriu numa noite em que ele e a sua mulher Adelaide combinaram ir jantar com o filho ao Porto, para onde Luís se mudara já depois de saber que estava doente, para ir estudar Som e Imagem na Universidade Católica, após interromper o curso de Direito. “Ele disse-nos para irmos ter com ele perto da Igreja do Marquês. Quando o encontrámos, a mãe perguntou-lhe o motivo de o termos ido ali buscar. Com a maior naturalidade, explicou-nos que fazia trabalho voluntário, a prestar apoio a pessoas sem-abrigo, e a conversa virou logo para outra coisa”. Quintino explica que o filho, depois de se sentir doente, e “quando a saúde já lhe fugia na totalidade, voltou-se muito para os outros”.

António 'Kili' Loureiro / D.R.

A doença e o trágico desfecho trouxeram várias alterações. Para todos. “Sinto que mudei extraordinariamente a minha maneira de ser. Não perdi os meus valores. Esses mantêm-se. Mas mudei as minhas perspetivas de vida. Atualmente, sou muito mais do que um economista”, diz Luís Quintino. “Sou alguém muito disponível para falar a outras pessoas do que é uma família ter um elemento muito amado afetado pelo cancro e com um prognóstico muito reservado”, algo que descreve como uma “verdadeira tormenta”, que ninguém pode minimizar. “Mas no meu caso acabou por me dar oportunidade para refletir sobre a vida, a morte e o significado da nossa passagem pelo mundo”, reitera.

O Party Sleep Repeat nasceu de uma homenagem que os amigos de infância de Luís quiseram fazer-lhe, quatro meses depois da sua morte. Amigos, médicos, enfermeiros, professores e outras pessoas que o acompanharam também estiveram presentes para falar sobre Luís. O encontro decorreu durante a tarde. No mesmo dia, à noite, houve um concerto. Foi tudo “muito intenso”, diz Luís Quintino, contando que nesse dia, ao deitar-se, teve “a sensação de ter regredido até ao momento em que o Luís tinha partido”. “Senti uma saudade indescritível. No dia seguinte, eu estava como que perdido. A Adelaide até se assustou”. Não foi “nada fácil”, mas Quintino não se arrepende de ter dado o seu aval a essa cerimónia. “Se fosse hoje, voltaria a tomar a mesma decisão”, assegura.

A partir dali, o caminho foi outro. O “sofrimento atroz” ficou para trás e a “saudade”, de algum modo, transformou-se em “energia”. Em 2014, publicou o livro “A Geometria do Amor”, em que fala sobre a doença, a morte, a ausência e a saudade. Este ano, prevê editar uma segunda obra. As receitas, como aconteceu com o primeiro volume, serão doadas à Liga Portuguesa Contra o Cancro. “Escrever”, diz Luís Quintino, “foi útil de alguma forma”. “Em vez de simplesmente fugir ou evitar pensar, obriga-nos a interiorizar e a tomar consciência, e isso acaba por ter um efeito positivo sobre a dor”, explica. “Acho que foi o que aconteceu comigo. Escrever, e a seguir pousar a caneta, dava-me uma sensação de bem-estar quase inexplicável; uma sensação, posso mesmo dizer, de felicidade”.

Durante o processo da doença do filho, Quintino acabou por conhecer outros pais em situação semelhante à sua, mas que nunca recuperaram da morte dos descendentes. Também ele não o fez totalmente, mas conseguiu encontrar um novo caminho no meio de toda a sua dor. Apesar disso – e do brilho nos olhos e dos sorrisos e abraços que distribui durante o festival – o sentimento de perda permanece avassalador. “Tal como o Luís – não sei se fui eu que aprendi com ele ou ele comigo – eu era um viciado em música. Era uma componente essencial da minha vida, tal como a leitura e a fotografia, três hobbies que ambos tínhamos”.

Com a morte do filho, conta, deixou completamente de ouvir música. Depois, aos poucos, conseguiu voltar a ouvir. “Viste o concerto dos Prana?”, perguntava, com entusiasmo, a um amigo, ainda antes da conversa com o Expresso. Já a máquina fotográfica, essa, está guardada desde 15 de dezembro de 2007, dia em que foi detetada a doença a Luís. “Tiro fotos com o telemóvel, mas na máquina fotográfica ainda não tive coragem de pegar. Às vezes, penso em perguntar a um amigo se quer vir comigo tirar umas fotografias, mas depois acabo sempre por mudar de ideias. Ainda assim, tenho esperança de um dia voltar a ser feliz com a minha máquina. Sei que vou lá chegar”.

António 'Kili' Loureiro / D.R.

Um nome continuado por muitos outros

“Acho que conseguir organizar um festival para um amigo traduz muito a importância que essa pessoa tinha para nós”, explica-nos João Pessegueiro, um dos muitos voluntários que todos os anos contribuem ativamente para a realização do Party Sleep Repeat. Era um amigo próximo de Luís. “Este é sempre aquele momento do ano em que o Luís surge de uma forma mais intensa nos nossos pensamentos. É sempre bastante emotivo”, acrescenta o responsável criativo de 31 anos. Não precisava de o dizer. Os olhos não deixam dúvidas. “Todos os anos é isto. E vai ser sempre isto”, assegura, com uma firmeza que lhe falha momentaneamente na voz emocionada.

Entre os dois, trocavam CD com músicas de artistas que descobriam, quando ainda eram “aqueles miúdos que andavam com os emblemas das bandas nos casacos”. As memórias dos concertos partilhados multiplicam-se. “Este ano, temos o Legendary Tigerman, um artista que o Luís me mostrou”, frisa João, recordando a atuação a que assistiram juntos há vários anos, num bar em Matosinhos, quando Paulo Furtado ainda não era um nome consolidado junto do grande público. “É fixe podermos ter o Tigerman este ano, por causa dessa ligação forte que há com o Luís”, enaltece o diretor criativo do Check It Out! Studio.

João é um dos responsáveis pelos vídeos promocionais e este ano ajudou também na decoração do recinto; integra igualmente o núcleo duro que anualmente perpetua a memória de Luís através desta homenagem musical, ornamentada sempre com muito afinco e boa vontade. “Nunca existe grande orçamento”, diz. “É sempre um bocado à portuguesa”, reconhecendo que se “faz com aquilo que há”. E aquilo que mais há no PSR são emoções fortes. Como um nome continuado por muitos outros nomes. Mais do que amigos são uma família, unida por Luís, a celebrar a eterna musicalidade da vida.

António 'Kili' Loureiro / D.R.

“Todos os anos se vai buscar um bocadinho do Luís”

Outro dos amigos de infância é Gonçalo Antunes, responsável pela comunicação do Party Sleep Repeat, distinguido este ano nos Iberian Festival Awards como Melhor Festival de Pequena Dimensão em Portugal. “Eu costumo dizer isto: se há coisa que há atualmente são festivais de música. Há festivais para tudo e o nosso é mais um, porque, de facto, não é muito diferente dos restantes a nível de programação, recinto, etc.”, reconhece Gonçalo.

Em Portugal, realizam-se anualmente mais de 200 festivais de música. O PSR podia ser mais um. Mas não é. “O que o diferencia dos restantes é a origem, a história por trás da história, as razões que levam a que se realize […] Nasceu de um tributo com objetivos solidários e é assim que o queremos manter”, justifica Gonçalo, habituado a transmitir eficazmente o conceito e princípios do evento. Pedimos-lhe para explicar quem era “Chicken” e garante-nos que “qualquer pessoa que conhecesse o Luís ficava um bocadinho apaixonada por ele, porque ele era de facto muito intenso”.

Mesmo aqueles que não tiveram a oportunidade de conhecer Luís tão de perto, descrevem-no como alguém “muito querido por todas as pessoas em São João Madeira”, começa por dizer Andreia Santos, a estrear-se este ano como voluntária, tendo ficado encarregada de monitorizar e encaminhar as pessoas para o autocarro que assegura o transporte gratuito desde o Porto até à Oliva Creative Factory, tal como a viagem de regresso no final da noite. “Foi uma forma de poder dar o meu contributo em honra do Luís e do ótimo trabalho que o grupo tem feito”, assegura a jovem de 27 anos.

“O Luís sempre foi uma pessoa bastante dinâmica, estando envolvido em várias atividades. Muito ligado às artes, sobretudo à música e à fotografia. Focou-se ainda mais em tudo isso nos últimos anos, quando já estava bastante doente”, conta a voluntária do PSR, para quem o festival é “uma espécie de oportunidade para terminar aquilo que ele não conseguiu fazer até ao fim”.

Muitos daqueles que estão no recinto conhecem a história do festival. Outros nunca terão, porventura, ouvido falar dela, mas para Andreia isso é algo que não importa. “Qualquer motivo que leve alguém a vir aqui é válido”, sustenta. “O facto de cá estarem já é razão suficiente para a organização, e sobretudo para os pais do Luís, saírem daqui de coração cheio”, afiança, com a convicção de que “todos os anos se vai buscar um bocadinho do Luís”.

António 'Kili' Loureiro / D.R.

Cinco gargalhadas, três asneiras e a constante vontade de regressar

Gabi (alcunha de Gabriela Wilkes) respira fundo, dá uma passa no cigarro e recomeça a falar: “Se eu não estiver a fazer sentido, por favor digam-me”. Tem 25 anos e vive em Espanha desde os 16. Primeiro em Madrid, atualmente em Bilbau. Todos os anos, em abril, regressa à Oliva Creative Factory para se reencontrar, de certa forma, com Luís. “Ele olhava-te nos olhos. Nem que estivesse contigo só cinco minutos, interessava-se por ti e pelo que tu dizias”.

A morte do amigo fez com que tenha começado a encarar a vida de outra forma. “Ensinou-me a pôr as coisas em perspetiva, a deixar de me queixar disto e daquilo, ou de perder tempo com coisas que não importam”, afirma Gabi. “Fez-me pensar: ‘tenho de ir a casa, estar com os meus amigos, nem que seja para uma cerveja, cinco gargalhadas e três asneiras’”.

Luís adorava ir a Madrid visitar o Museu do Prado ou o Thyssen-Bornemisza. Gabi nunca chegou, porém, a estar com ele na capital espanhola. Foi por isso que quando o amigo morreu, decidiu agarrar num peluche de uma galinha e levar, simbolicamente, “Chicken” até à cidade onde nunca chegaram a cruzar-se. Passeou com o peluche e tirou uma série de fotografias em todos os pontos onde, juntamente com Luís, podia ter “filosofado” sobre os interesses que tornavam aquela amizade tão especial. “Não sei se faz sentido… Faz?”.

Apesar da memória “horrível”, Gabi jamais se esquecerá do momento em que viu Luís, alto e de cabelo encaracolado, no liceu onde ambos estudaram. “Tenho esta merda gravada na memória”. Com ele aprendeu, entre outras coisas, a não fazer fretes. E a saber “valorizar as ligações genuínas” que encontra no recinto do PSR em cada regresso. “Estas pessoas [amigos do Luís], que pensam de forma altruísta, mostram que ainda há amor no mundo e tentam espalhar o amor pela cultura, a vontade de ajudar a comunidade e aportar algo de melhor para o mundo. Não sei se faz sentido… Mas a vida é só uma e há que aproveitar mesmo, sabes?”.

Nota: ao longo deste texto, Luís foi o nome repetido 36 vezes e que continuará a ser escrito com todo o afeto em São João da Madeira, enquanto Tiago, João, Gonçalo, Andreia, Gabi e muitos outros jovens voluntários continuarem a optar por celebrar a vida. Os jornalistas podiam ter relatado apenas aquilo que viram durante os concertos, como estava previsto quando chegaram à Oliva Creative Factory, mas preferiram contar esta história de amor e amizade. Fez sentido?