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O privilégio da tristeza

Isto é difícil mas vale a pena, é intrincado mas delicado: “Arca”, o novo álbum do músico e produtor venezuelano Alejandro Ghersi, é um testemunho poderoso e corajoso sobre o amor, a morte, o desejo, a dor e a sexualidade

Helena Bento

Jornalista

A capa do último disco

A capa do último disco

DR

Tudo começou assim: Alejandro Ghersi e Björk estavam no carro a ouvir música e a cantar. “Alguma vez pensaste em cantar nas tuas músicas?”, perguntou-lhe Björk. Alejandro não respondeu logo. Nunca tinha pensado nisso. E também não seria naquele momento que ia pensar. Mas mais tarde, e por respeitar muito o trabalho da cantora islandesa, com quem já havia colaborado no passado, decidiu considerar.

“Arca”, o terceiro disco do músico e produtor venezuelano, depois de “Xen” e “Mutante”, nasceria pouco tempo depois disso. “Ela aconselhou-me muito, preocupou-se muito durante todo o processo. Não sei se teria conseguido fazer isto sem ela”, diz numa entrevista à “Vice”.

É precisamente a forma como o músico que se apresenta sob o pseudónimo “Arca” usa a voz que distingue o novo álbum dos anteriores. Como se as suas palavras, até aqui raras e fugazes, surgindo apenas de tempos a tempos, irrompendo discretas por essa densa malha eletrónica de sons rasgados e batidas angulares que dava corpo aos seus trabalhos anteriores, tivessem finalmente adquirido vida, estendendo-se ao longo de toda a superfície e ocupando aí todo o espaço. Na mesma entrevista à “Vice”, Alejandro Ghersi explica que recorreu a efeitos sonoros “mais tradicionais”, em vez dos anteriores artificialismos e afinações alteradas e manipuladas. É isso que explica que a sua voz nos soe agora tão limpa e tão límpida, tão cristalina e escorreita, uma vezes muito próxima, como um lamento sussurrado (“Piel”, “Coraje”, “Sin Rumbo”), outras vezes mais desprendida e leve (“Desafío, “Fugaces”) e outras vezes ainda mais majestosa e espacial (“Anoche”, “Reverie”).

A juntar a tudo isto, há o trabalho visual de Jesse Kanda, violento e visceral, desde a capa do álbum, uma fotografia editada de Alejandro, em que ele aparece com os olhos inchados, com circunferências negras à volta e os dentes pintados de preto, aos videoclips. O músico justifica estas escolhas evocando a sua “atração pela sugestão de violência”, que não é o mesmo que “celebrar a violência”. “Não me interessa ter vídeos e imagens que mostrem a violência. O que me interessa é aquilo que cada um nós faz depois de a violência ter acontecido… Se a repetimos para com outras pessoas ou se nos apercebemos da tristeza e dor que isso causou e transformamos essa violência noutra coisa qualquer.”

O meu corpo paralisava

Alejandro Ghersi nasceu em Caracas, na Venezuela, em 1990, no seio de uma família abastada. O pai era investidor da banca. Quando tinha três anos, a sua família mudou-se para Darien, no estado norte-americano do Connecticut. De volta a Caracas, tempos depois começou a ter aulas privadas, com professores que, entre outras coisas, o ensinaram a tocar piano. Foi como crescer “numa espécie de bolha”, conforme o próprio descreveu numa entrevista ao “Guardian”, em 2014. Aos 17 anos, com dificuldades em aceitar a sua própria homossexualidade numa cidade que ele sabia “não ser o lugar mais fácil para assumir isso”, decidiu abandonar o país e partir para Nova Iorque. “Eu esperava deixar de me sentir atraído por homens mas, por outro lado, não queria que toda a minha feminilidade desaparecesse.” Noutra entrevista, à revista “Dazed”, conta um episódio revelador desta tensão em torno da sua homossexualidade, envolvendo o seu avô, “o típico patriarca venezuelano de ascendência espanhola”. “Quando eu era pequeno, costumava dançar para os meus pais e familiares. Dançava e cantava como uma mulher, de uma forma verdadeiramente exagerada. Até que um dia o meu avô, que nunca tinha assistido a nenhuma dessas sessões, apareceu e disse-me coisas feias. Foi a primeira vez que alguém olhou para mim com desdém e vergonha.” Com o tio, a situação foi ainda mais desagradável. “Ele tinha registos de todas essas sessões e então passou o tempo todo, desde a minha puberdade até aos 17 anos, a torturar-me com isso, ameaçando mostrar os vídeos a toda a gente. O meu corpo paralisava de cada vez que o ouvia dizer isso.”

O amor e a morte depois da carta enviadas às profundezas

Ainda em Caracas, e querendo explorar outros meios que não os que tinha imediatamente ao seu dispor dada a sua formação clássica em música, trocou o piano pelo computador e pelos software de programação e produção digital de música e lançou, em 2005, o seu primeiro projeto musical, sob o nome Nuuro. Ainda nesse ano, editou o EP “In Transit”. “All Clear” chegou em 2006 e “Paper Heart” em 2007. Em 2009, e já em Nova Iorque, lançou “The Reddest Ruby”. Foi também por volta dessa altura que conheceu o artista e videasta Jesse Kanda, de quem já aqui falámos, que viria a tornar-se o seu melhor amigo e colaborador em vários discos e projetos musicais. Em 2012, Alejandro estreia-se sob o pseudónimo “Arca” com o EP “Baron Libre”. Ainda no mesmo ano, lança os EP “Stretch 1” e “Strech 2”, que marcam a sua incursão no universo hip-hop e trip-hop. É também por esta altura que começa a chamar a atenção de músicos como Kanye West, FKA Twigs, Kelela e Björk, com os quais viria a colaborar. Antes disso, em 2014, lança o seu primeiro longa-duração, “Xen”, a que se segue “Mutant”, um ano depois.

Se “Xen” e “Mutant” eram, como o próprio descreveu em tempos, “uma carta enviada às [suas] profundezas” e uma “grande celebração”, respetivamente, “Arca” é um testemunho poderoso e corajoso sobre o amor, a morte, o desejo, a dor e a sexualidade. É também, se quisermos, o seu álbum mais íntimo e pessoal. Não só por usar a sua voz como nunca o fizera antes, assumindo-a por completo, como também por cantar em espanhol, idioma nativo. O facto de ter escolhido para título do álbum o seu pseudónimo é também prova disso.

Em “Arca”, o disco homónimo, começamos com “Piel”, esse apelo vertido em canção que primeiro nos embala, mas vai depois, progressivamente, deixando-nos cada vez mais sozinhos, passamos por “Reverie” (que vai buscar alguns versos a “Caballo Viejo”, clássico do cantor folk venezuelano Simón Díaz), “Coraje” (praticamente só piano e voz, de uma simplicidade que desarma e comove), “Sin rumbo” (o mais desesperançado dos lamentos, que o som do que parece ser uma guilhotina só vem tornar ainda mais tenebroso) e “Desafío” (quase otimista no meio de toda a tragicidade) e acabamos com “Child”, um instrumental disruptivo que vai amainando até culminar num longo e negro silêncio.

“Arca” é um álbum triste e as palavras de Alejandro Ghersi à “Vice”, na entrevista já aqui citada, não desmentem isso. “Neste disco, estou em comunhão com o oceano de tristeza que tenho dentro de mim.” Uma tristeza que já dilacerou, mas que foi depois acomodando-se até não ser mais do que elemento entre muitos do quadro da vida. “Há muito tempo, comecei a ver a tristeza por aquilo que ela é e a vê-la até como um privilégio, em vez de fingir que ela simplesmente não existe.”