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Gira o mundo e toca a revolução na Casa da Música

O compositor Harrison Birtwistle causou escândalo no festival "Proms", em 1997, com a apresentação da peça "Panic", agora trazida até à Casa da Música

D.R.

“Música & Revolução” é o nome de ciclo de três concertos que, ao longo desta semana, vai agitar a Casa da Música com canções banidas pela BBC e peças que causaram escândalo no festival “Proms”

André Manuel Correia

Os sons revolucionários voltam a invadir a Casa da Música (CdM) no Porto, com a 11.ª edição do ciclo “Música & Revolução”, com melodias de diferentes tempos unidas pelo facto de todas terem estado à frente dos seus dias. Num ano dedicado à cultura britânica, a sala de espetáculos portuense abre as portas e dá liberdade, já a partir da noite desta segunda-feira, a canções do universo pop-rock censuradas e banidas pela BBC que, no passado, desafiaram códigos morais estabelecidos. Músicas como “Satisfaction”, dos Rolling Stones, “Another Brick In The Wall”, dos Pink Floyd, ou “I Want To Break Free”, dos Queen, serão reinterpretadas num espetáculo a cargo da Escola de Música Valentim de Carvalho.

O ‘Música & Revolução é “umas das narrativas mais antigas” da Casa da Música, explica o coordenador programático da CdM Rui Pereira, para quem esta iniciativa demonstra “por um lado, o poder da música enquanto contestação social e, por outro lado, o aspeto mais intrínseco da linguagem musical, com o seu lado mais inovador”.

“Censored Songs” é o nome do espetáculo desta noite, pelas 21h, na Sala Suggia, e apresenta um repertório com canções muito célebres do pop-rock anglo-saxónico. “São músicas que depois se tornaram em grandes hits, mas que foram alvo dessa censura. Foram banidas pela BBC dos seus programas”, explica Rui Pereira, em declarações ao Expresso. “Muitas das músicas que causaram estranheza são, passados uns anos, facilmente ouvidas, porque entretanto os ouvidos do público criaram essa compatibilidade com o que estão a ouvir”, acrescenta o responsável artístico.

Os escândalos nos ‘Proms’

Desde 1895 até à atualidade, os concertos do festival “BBC Proms” têm um ponto em comum: causar escândalo e revelarem-se um meio privilegiado para agitar mentalidades. Criado com o intuito de pôr fim à letargia numa cultura de massas sedenta de cultura, as noites dos “Proms” serviram para educar o público gradualmente, com programas mais populares numa fase inicial e que gradualmente se iam tornando mais desafiantes. Este fim de semana, 29 e 30 de abril, algumas das peças que mais controvérsia geraram em Terras de Sua Majestade são trazidas até à Casa da Música, numa “tentativa de conviver com o passado para conseguir compreender o presente”, como descreve o coordenador programático.

Em setembro de 1995, no concerto de encerramento, a obra “Panic”, do compositor contemporâneo Harrison Birtwistle, levou a que a BBC fosse bombardeada com queixas do público pelo caráter inovador e subversivo da peça. “A história da música pode ser contada recorrendo à compatibilidade do público com os compositores e com a música que eles escrevem”, começa por explicar Rui Pereira, recordando que quase sempre os grandes compositores e aqueles que ficam para a história são pessoas que estão um pouco à frente do seu tempo. “Estão a fazer algo único e especial para o qual o público ainda não está preparado”, denota.

No sábado, pelas 18h, a Sala Suggia recebe o concerto “Pânico nos Proms”, dividido em duas partes. A primeira parte fica a cargo do Remix Ensemble, dirigido por Peter Rundel, e conta com as interpretações das obras “Antechrist”, de Peter Maxwell Davis, e “Sinfonia de Câmara n.º 1”, do compositor austríaco Arnold Schoenberg. A segunda metade do concerto coloca a Orquestra Sinfónica da Casa da Música a interpretar as “Cinco peças para orquestra”, de Shoenberg”, e o espetáculo culmina com o agrupamento a fazer soar “Panic”, de Harrison Birtwistle.

No dia seguinte, pela mesma hora, há lugar a mais um concerto, com a primeira parte a juntar em palco o Remix Ensemble e o Coro da Casa da Música para interpretarem a obra “…agm…”, também do compositor contemporâneo Harrison Birtwistle. Para a segunda parte, a cargo da orquestra, fica reservada uma das peças mais apupadas e contestadas até hoje nos “Proms”: “Worldes Blis”, de Peter Maxwell Davies, apresentada em 1969 e atualmente considerada pela imprensa britânica como uma das dez mais fabulosas estreias de sempre no festival.

Ao repertório do concerto de domingo junta-se também “Short Ride in a Fast Machine”, do compositor John Addams, uma peça “bastante acessível ao ouvido”, salienta Rui Pereira, mas que por duas vezes estava no lugar errado à hora errada e acabou banida dos “Proms”. A primeira vez foi em 1997. “O concerto ia acontecer poucos dias após a morte da princesa Diana. Achou-se que era uma coisa insultuosa, sendo que a música não tinha nada a ver com o que tinha acontecido”, conta o coordenador da programação clássica da CdM.

A segunda “expulsão” foi em 2001. O motivo? Mais uma vez a infelicidade, desta feita originada proximidade aos ataques de 11 de setembro, numa altura em que o mundo ainda vivia a ressaca amarga e temerosa de um acontecimento que marcou profundamente o início do novo milénio.

A Casa da Música abre-se assim, durante esta semana, às diversas revoluções e convulsões sociais que a música pode provocar, seja pela componente subversiva, inovadora ou, ocasionalmente, até mesmo por infelicidade. “A arte é o meio ideal para nos fazer refletir. […] É um meio de expressão de excelência para abalar consciências, porque quebrar os cânones é o princípio da revolução”, vinca Rui Pereira.