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O Porto de Miguel Araújo

tiago miranda

É um dos músicos com mais sucesso em Portugal, mas caminha tranquilamente pelas ruas da cidade a que chama casa sem que o importunem ou até reconheçam. Às portas de lançar o novo “Giesta”, nas lojas a 19 de maio, guiou-nos pelos locais da sua infância e do seu quotidiano, provando por que razão é um “antissaudosista”

Lia Pereira

Lia Pereira

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Encontramo-nos pelas 11 da manhã no Café Moreira, estabelecimento com história que, ao invés de ostentar no toldo a verdadeira idade, proclama ir “a caminho dos 75 anos” — o tipo de pormenor em que Miguel Araújo repara. A esta hora, o músico do Porto, a quem alguém certa vez disse ser “o Rui Veloso português”, já tomou dois dos seus três ou quatro cafés diários. É a pé que todas as manhãs percorre as ruas do bairro onde vive, na Foz do Porto, encontrando amigos e conhecidos que o abordam simpaticamente, reconhecendo-o não como um dos artistas portugueses mais bem-sucedidos do momento, mas como vizinho. Além de caminhar, Miguel Araújo também corre: praticamente todas as manhãs faz 12 quilómetros de jogging, prática que mantém há anos e garante ser excelente para lidar com o stresse. Não que aparente ser uma pessoa nervosa, pelo contrário: quando temos de abandonar a sua ‘coutada’, levando o automóvel pelas ruas estreitas da Foz, lembra que foi devido a uma confusão de trânsito nestas pequenas artérias que pela primeira vez na vida gritou com alguém. “E depois fiquei a pensar que o homem ia para casa berrar com o filho, e o filho ia crescer e matar alguém, e essa pessoa ia morrer por minha causa”, ri-se, descontraído no banco de trás.

Aos 38 anos, Miguel Araújo é pai de dois filhos, Luís e Joaquim, de quase três e quase cinco anos — a um ano de entrar na escola, o mais velho aprendeu a ler sozinho e decorou por sua iniciativa o nome de todos os reis de Portugal e respetivos cognomes. “Não sabíamos como é que lhe havíamos de lhe explicar porque é que D. Afonso Henriques é o Conquistador”, confessa horas mais tarde à beira Douro, num fim de tarde cheio de sol. “Pediu delicadamente aos que cá estavam para se ausentarem?”, brinca. Foi graças ao filho, também, que Miguel Araújo, conhecido, até há pouco tempo, pelo mais extenso nome de Miguel Araújo Jorge, descobriu que a lista de reis de Portugal não é consensual. “Ele aprendeu num cartaz que vinha na ‘Visão’”, conta, “e na Wikipédia alguns reis não batem certo”. Expedito, o garoto, que olha para as canetas “como nós olharíamos para uma pena”, resolveu a coisa à maneira da sua geração, escrevendo no Google: “Reis de Portugal direito”.

Estúdio. No pequeno quarto, em casa, onde gravou boa parte do novo disco, dedilhando uma guitarra de 1934 que uns amigos encontraram ao comprar uma casa com recheio; e, nas págs. anteriores, na cave da igreja onde deu o primeiro concerto

Estúdio. No pequeno quarto, em casa, onde gravou boa parte do novo disco, dedilhando uma guitarra de 1934 que uns amigos encontraram ao comprar uma casa com recheio; e, nas págs. anteriores, na cave da igreja onde deu o primeiro concerto

tiago miranda

Alto e bem-parecido, ainda que naturalmente discreto, Miguel Araújo é um homem de família. Casou-se com Ana, que desenha cenários para os seus concertos e para espetáculos de outros artistas, em 2011. O casal vive com os filhos num rés do chão na Foz, a dois passos do mar, onde o cantor e compositor termina muitas das suas corridas matinais com um mergulho corajoso. “Como o Marcelo”, ri, aludindo à conhecida predisposição do Presidente da República para entrar em águas menos cálidas. Em breve, e graças à turbulência imobiliária que também já afeta o Porto, terá de abandonar a casa onde gravou 80% do disco novo, “Giesta”. O senhorio, que vive em Macau, decidiu vender o apartamento a um comprador chinês em busca de visto gold. Os Araújos mudar-se-ão, em breve, para “o interior. Vamos para a raia!”, exagera propositadamente o nosso anfitrião. A casa nova, uma vivenda com jardim, fica a alguns metros daquela onde vive agora. Tentando falar um pouco mais a sério, o maiato que pelos dez anos se tornou “um beto da Foz” afiança que até o clima será diferente daquele de que gozava junto à praia, acrescentando a razão pela qual a casa que agora comprou esteve tanto tempo disponível: “Tem umas torneiras douradas horríveis, parece uma pensão de duas estrelas na Covilhã”, descreve, sempre bem-disposto.

Mas voltemos à Rua da Senhora da Luz, onde começa a nossa jornada e que Miguel Araújo se gaba de utilizar para todos os efeitos, desde comprar pilhas, almoçar no restaurante Capoeira, encontrar camisolas Termotebe (um item precioso e em desuso, lamenta) ou fazer todas as compras de Natal. No próprio dia 24, confessa, explicando que começa numa ponta da rua e acaba na outra. “Até deixo os sacos nas lojas para não andar carregado, depois volto para os levar”, congratula-se.

Também naquela pequena rua da Foz, onde novos e velhos se cruzam na esplanada do Café Moreira, o músico costuma deixar os sapatos a consertar, num pequeno sapateiro. “Arranjar coisas é do tempo dos nossos antepassados”, considera este apaixonado pela análise comparativa de passado, presente e futuro — sempre de forma intuitiva e despretensiosa. O seu pai ainda manda arranjar os guarda-chuvas, partilha, mas a geração seguinte não pensa duas vezes antes de comprar uma máquina de café nova, ou até mesmo um iPhone, cuja obsolescência programada é um sinal dos tempos modernos. Ainda nem começámos a caminhar, rumo à praia, e já a conversa segue animada, frente às chávenas de cimbalino vazias. Numa recente mudança de casa, Miguel Araújo que, não é demais recordá-lo, é músico de profissão, percebeu que não voltara a pegar nas centenas de CD que tanto trabalho lhe deram a transportar. Tendo em mente a facilidade com que, num segundo, coloca a tocar, no computador ou smartphone, a canção que quer ouvir naquele momento, desfez-se dos discos. “Já ouvi uns 20!”, troça ali ao lado o recetor da oferenda, o seu agente.

Ligado à família, às recordações e aos lugares, o homem que muitos conhecem como voz do êxito ‘Os Maridos das Outras’ acaba de gravar um disco chamado “Giesta”, no qual regressa, precisamente, à sua infância e juventude passada naquela zona do Grande Porto (“Há taxistas que dizem Forno, em vez de Giesta, mas Giesta era melhor para nome de disco”). Entre referências à “TV Guia”, às chicletes Gorila ou à final da Taça dos Campeões Europeus ganha pelo Futebol Clube do Porto em 1987, ano que dá nome ao primeiro single, Miguel Araújo garante não ser saudosista. “Um disco são 12 músicas de uma vez, enfiadas num pacote”, explica, com o pragmatismo que também permeia o seu pensamento. “Eu olho para as músicas que tenho e vejo entre elas alguma uniformidade. E, desta vez, reparei que tinha muitas canções sobre a casa da minha avó. Há um momento na nossa vida em que rompemos em completo com o sítio em que nascemos, porque simplesmente já não existe. Como na história do Minotauro”, compara, “em que o herói, Teseu, conseguiu resgatar a princesa Ariadne do labirinto, porque levou um fiozinho de lã e conseguiu desfazer o caminho. Quando nasce, uma pessoa vem com esse fiozinho durante uns tempos, até que se parte, porque o passado é só uma memória. Já não existem os sítios, as pessoas já morreram. E eu fiz músicas a falar desse fenómeno”, reconhece. “Mas não sou nada saudosista. Até estive a falar com a minha mulher sobre o facto de não haver uma palavra que seja o total antónimo de saudade. Os portugueses orgulham-se muito da palavra saudade, mas não há uma que seja o seu contrário”, assinala. Ao contrário de um verdadeiro saudosista, Miguel Araújo não deseja voltar ao seu passado. “Falar sobre as memórias não é necessariamente saudosismo. Nunca faço juízos de valor como: que bom que era naquele tempo”, assegura. “Quando as músicas são alegres, como por exemplo a ‘1987’, são centradas no ponto de vista de quem tinha aquela idade [nove, em 1987] e se deslumbrava com as fachadas em espelho [de um centro comercial] ”. Numa esplanada no Passeio Alegre, numa idílica manhã de primavera, com melros a chilrear de fundo, o músico aproveita para desmontar aquela que parece ser uma ideia falsa a seu respeito. “Serei um antissaudosista. Por exemplo, a ‘Fizz Limão’, do meu primeiro disco, pode parecer uma canção saudosista mas, na verdade, critica esse saudosismo”. Quanto a “Giesta”, o seu novo conjunto de canções sobre o passado, remata: “É um disco de memórias, e as memórias não são do passado, são do presente.”

Na casa da avó

Os toldos poeirentos de diminutos supermercados anunciam a chegada à zona onde Miguel Araújo viveu até aos dez anos, e que dá nome e inspiração ao seu novo álbum a solo (no final do ano passado, anunciou estar de saída da banda a que pertenceu desde 2002, os Azeitonas). “Esta rua vai até Guimarães!”, informa, enquanto percorremos uma pequena avenida ladeada por árvores em flor e rica em pequeno comércio e portas de alumínio. É numa pacata zona residencial que encontramos a quinta de 11 hectares que durante décadas foi casa da avó paterna (“foi vendida há 15 dias”, informa) e o centro de saúde de Águas Santas, que agora ocupa o terreno onde o artista cresceu. “Do lado do meu pai eram oito irmãos, do lado da minha mãe cinco: quatro raparigas e um rapaz”, recorda. “Uma coisa que tenho em comum com muitos amigos é que somos a primeira geração em que não era só o pai a trabalhar — a minha mãe trabalhava num banco. É a primeira geração que se viu a braços com a pergunta: o que é que se faz à canalha?”, reflete. “No nosso caso, deixaram-nos com a nossa avó, o dia todo”. 13 primos entregues a uma mulher que de frágil não teria nada, ilustra. “A minha avó ficou viúva muito nova e nunca voltou a casar ou a ter namorado, e passou a desdobrar-se em duas pessoas: um homem e uma mulher. Tinha um quarto de ferramentas em que arranjava máquinas de lavar. Andava lá a martelar, subia a escadotes… tinha um lado físico, masculino, muito forte. E tinha um chicote para afugentar os ladrões mas com que também nos ameaçava a nós, se nos portássemos mal.”

Percorrendo o quintal do agora centro de saúde, Miguel Araújo confirma: o terreno é mais pequeno do que a memória o guarda. Mas lembra-se dos fardos de palha onde brincava, do outro lado do muro, da porta da cozinha pela qual se entrava em casa ou do “campito de futebol” onde jogava com os primos. A solidão, que lhe parece ser um traço natural e até necessário no trajeto de qualquer autor, também esteve presente em doses saudáveis numa infância com o seu quê de caricato. “A casa da minha avó era cheia de personagens”, relata, recordando o machismo de um lar governado por mulheres. “Lembro-me de a minha mãe contar que uma vez o meu pai ou um dos meus tios se levantou para fazer um café e a minha bisavó o repreendeu, porque era uma tarefa de mulher”, explica. Não sabendo dizer se esta infância condicionou o seu entendimento do universo feminismo, o trintão sublinha, porém, que apesar da multidão de crianças “à solta” na casa da avó, passava muito tempo consigo mesmo. “Lembro-me de passar muitas horas sozinho, numa casa com recantos. Uma casa antiga, que puxava pela fantasia.”

Album I. Em Ofir, onde passava férias, em 1991

Album I. Em Ofir, onde passava férias, em 1991

Fotografia do arquivo pessoal de Miguel Araújo

Ainda que hoje enfrente grandes multidões, como as que acorreram à inacreditável série de 28 concertos que deu nos Coliseus de Lisboa e Porto, com António Zambujo, a voz de ‘Anda Comigo Ver os Aviões’ sente que apenas aprendeu a disfarçar a timidez que fazia de si uma criança “doentiamente envergonhada. Se chegasse atrasado às aulas, era capaz de não entrar”, confessa. “A ideia de entrar na sala e ficar toda a gente a olhar para mim petrificava-me, chamarem-me ao quadro petrificava-me. Era um pânico, uma coisa horrorosa”, lembra aquele que foi um aluno médio até ao 10º ano, altura em que, sem que saiba explicar, passou a ser melhor. “Mais velho, vi um daqueles recados que os professores mandam para casa: diziam que era muito calado, que não interagia. Era desse género de andar pelos cantos”, diz, analisando a contradição entre esse perfil e o seu ofício. “Essas pessoas mais introspetivas é que se interessam por música e por escrever. No caso dos músicos, a certa altura são chamadas para o palco, o que cria uma contradição horrorosa. Quem tem tendência para compor ou escrever quase que por natureza tem uma antipatia natural por ser o centro das atenções. Então lá vai o desgraçado com a sua guitarra para cima de um palco. Durante uns tempos, é muito estranho”, diz, partilhando que só há poucos anos deixou de sofrer de cólicas fortíssimas antes de subir ao palco. “Alguns músicos têm medo de se esquecer das letras, eu era de ter uma cólica”, troça, confessando que, certa vez, chegou mesmo a abandonar o palco, durante um concerto dos Azeitonas em Braga. Algumas consultas mais tarde, o misterioso culpado do mal-estar — que se estendia também ao sistema respiratório — foi identificado: desde que deixou de consumir laticínios, aos quais desconhecia ser altamente alérgico, a saúde vai bem, obrigado.

O beto metaleiro

“Expulso da casa da minha própria avó”, resmunga baixinho, e sempre brincalhão, quando uma segurança da Unidade de Saúde Familiar de Águas Santas descobre a sessão fotográfica informal que decorria no quintal da outrora casa da sua avó. “Sim, um médico que morreu, conheço a história”, diz, pouco impressionada, a agente, quando tentamos explicar o propósito da reportagem. “Mas não podem estar aqui sem autorização.”
A memória do avô tragicamente desaparecido, ainda Miguel não tinha nascido, continua bem presente na rua onde a família tem raízes. “Ainda pertence aos doutores?”, pergunta uma senhora que aparece sorrateiramente, quando o entrevistado tentava lembrar-se se determinada artéria já existia quando era criança. Rua de Angola, Rua de Moçambique, Rua de Macau — as antigas colónias estão em peso no bairro onde Miguel Araújo ainda se recorda do cheiro do supermercado Ferreira, mesmo que que, depois do 25 de Abril, o grande êxodo de África tenha tido por principal destino a Grande Lisboa. “A primeira vez que fui a Lisboa tinha 12 anos. Lembro-me de pensar que, afinal, era de lá que vinham as pessoas que falavam como nas novelas!”, partilha o detentor de um bonito sotaque portuense. A senhora que como se materializou para nos dizer que sim, aquela rua existia “mas era mais estreitinha”, diz que vive ali há mais de 40 anos e ainda se lembra do “doutor que tinha consultório em casa”. Foi com cerca de 40 anos que o avô Sérgio morreu, num acidente bizarro (numa ida ao mecânico, foi vítima de um incêndio súbito na oficina; mais tarde, a filha descobriria que a sua tese de doutoramento fora em queimaduras de primeiro grau). “Ele era médico, ganhava bem, e a família da minha mãe passou dificuldades. A minha avó fazia uns bordados e umas caixinhas, e os amigos ajudavam, mas foi difícil. A minha mãe acabou por se formar, mas começou a trabalhar no banco logo aos 18 anos”, relata, com a mesma tranquilidade que explica que os pais mudariam de casa depois de nova tragédia. Miguel ainda não era nascido quando a irmã, de cinco anos, morreu de meningite.

Album II. A banda de versões dos tios, os Kappas, no Porto em 1967

Album II. A banda de versões dos tios, os Kappas, no Porto em 1967

Fotografia do arquivo pessoal de Miguel Araújo

Família típica da burguesia do norte do país — as palavras são do Araújo que, ao contrário do avô e de alguns tios, não cursou medicina, nem sequer pegou no negócio da família, a papelaria Araújo & Sobrinho, que nos anos 90 deu lugar a uma loja de informática do mesmo nome. “Vendiam computadores Olivetti. Primeiro foi um grande sucesso, depois deu megaestouro”, informa o único artista do clã, que nunca foi contrariado nas suas intenções, nem mesmo quando a paixão pela guitarra se refletia em notas mais fracas.

À porta da escola que frequentou entre o 9º e o 11º ano, uma professora reconhece-o. Por outra: chama-lhe Mário Zambujo, não chega a pedir desculpa (“Mas é o cantor, não é?”) e despede-se convencida de que Miguel é Mário. Hoje, o Liceu Garcia de Orta parece ter todas as condições que, era o músico adolescente, não estavam reunidas. “Depois das aulas de Educação Física, nem tomávamos banho”, ri-se. “Vestíamos o fato de treino e íamos para a aula seguinte.” Na altura, já tocava baixo num grupo de versões, mas o nervosismo ainda o impedia de aceitar convites tentadores, como atuar para a Lista J, nas eleições da Associação de Estudantes. Hoje, arrepende-se de ter faltado ao concerto. “O punk da lista X eletrocutou uma galinha — foi mítico!”, gargalha, confidenciando que o seu antigo colega é hoje um chefe de cozinha conceituado. E vegetariano.

Album III. No Algarve, com cerca de 17 anos (nem a lesão lhe abrandava a paixão pela guitarra)

Album III. No Algarve, com cerca de 17 anos (nem a lesão lhe abrandava a paixão pela guitarra)

Fotografia do arquivo pessoal de Miguel Araújo

Ao ver passar os alunos do liceu onde, noutros tempos, estudou Rui Veloso, Miguel Araújo repara que os adolescentes — invariavelmente de hoodie na cabeça e smartphone na mão — não parecem dividir-se nas mesmas tribos urbanas que vigoravam nos anos 90. Já ele, que aprendeu a tocar guitarra com o tio Sérgio, e os seus amigos mais próximos eram “um híbrido entre metaleiro e beto: da cintura para baixo beto, da cintura para cima metaleiro, como aqueles seres mitológicos que são metade pessoa, metade bode”, gargalha. “Eu era: cabelo pelos ombros, T-shirt dos Motörhead, e depois sapatos de vela.”

Antes da visita ao liceu de cujo “quadro de honra” consta uma porção assinalável de ex-alunos ilustres (como o autarca Rui Moreira e as atrizes Mariana Monteiro e Dalila Carmo), passámos pela paróquia de Cristo Rei, em cuja cave, hoje emprestada aos escuteiros, Miguel Araújo deu o seu primeiro concerto, numa festa de carnaval no início dos anos 90. “Tinha ideia de ser maior… mas estava à pinha!”, comenta, quando descemos as escadas do centro paroquial onde os 5PRT (nome inspirado nas matrículas antigas das motas na Invicta) partilharam o palco com a Banda Júnior. “O terceiro concerto que dei, já com cachê, foi lá fora, no largo”, revela. “Até fiquei com 38,5º de febre, com os nervos.” A reação do público não se revelaria por isso menos entusiasta: “Houve mosh e tudo. Em 1991 tocávamos canções como ‘Rock Around the Clock’, em 1992 já era Nirvana e Metallica!”, justifica o então baixista.

Cantor Relutante

Em vez de fazer o 12º ano no liceu, Miguel Araújo inscreveu-se no ano zero da Universidade Católica, onde acabaria por se formar em Gestão. “O meu filho vai contente para a escola. Eu odiei ir para a escola, desde [a pré-primária] até ao último dia da faculdade”, confessa, recordando o ambiente mais repressivo de então. “O meu filho leva a viola para a escola e os professores acham bem”, compara, mostrando no entanto grande carinho pela rua “fascinante” onde se licenciou. Em poucos metros, há uma urbanização de prédios ‘inteligentes’ e um bairro social; uma bomba de gasolina onde se juntam os meninos ‘bem’ e uma outra “onde és assaltado”; pelo meio, velhotes cultivam hortaliças em modestos espaços esverdeados e o senhor Almeida, uma conhecida figura local, passeia com o seu cavalo, “Santarém”.

Hoje, muito do lazer de Miguel Araújo parece passar pelas atividades ao ar livre: já foi até Esposende, onde tinha concerto, de bicicleta (demora três horas e meia, diz-nos), e já usou as duas rodas para chegar, também, a Santiago de Compostela; durante um ano da sua vida, fez surf, e pondera voltar ao mar que tantas recordações lhe traz. Em criança, as praias da Foz estavam de tal forma poluídas que se recorda do mar vermelho, contaminado por descargas de matadouros. Hoje, têm bandeira azul ou até de ouro; há dez anos, a sua banda, os Azeitonas, foi convidada para um concerto de celebração da atribuição desse mesmo galardão à Praia do Homem do Leme. No dia seguinte, o areal estava tão sujo de copos e outros detritos que a bandeira foi retirada, diz-nos.

Álbum IV. No Porto, em 1991, explorando um outro instrumento

Álbum IV. No Porto, em 1991, explorando um outro instrumento

Fotografia do arquivo pessoal de Miguel Araújo

Terá sido um dos momentos mais rock and roll do trajeto deste homem sereno, que nos levou ainda até aos centros comerciais Brasília — onde em adolescente comprava, na Bertrand, a revista “Guitar World”, e na discoteca Melody se encontrou pela primeira vez com “Alchemy”, dos Dire Straits, ou “She’s the Boss”, de Mick Jagger — e Dallas, fechado desde 1999. À porta deste antigo shopping da Avenida da Boavista, em cuja discoteca, Swing, apareciam figuras como Chico Buarque, Elba Ramalho ou Paco de Lucía (“ficavam no Meridien e iam ao Dallas beber um copo, quando tocavam no Porto”), medita mais um pouco sobre a Invicta de então e a de hoje. “Dantes havia um fascínio pelos estrangeirismos, agora parece haver um saudosismo pelos nomes pragmáticos do Estado Novo”, considera, numa alusão às ‘pregarias’, ‘comidarias’ e neologismos afins que invadiram o comércio mais hipster.

Atento ao surgimento de novos bairros promissores, em Campanhã ou na zona das caves de Gaia, o homem que aprendeu a tocar guitarra num dia (“Foi bizarro, porque dava a ideia que já sabia — como se noutra vida já soubesse tocar”) é interpelado na rua com frequência por estranhos que dizem ver nele capacidades mediúnicas. Nunca explorou a alegada tendência, conta-nos risonho, mas acredita no poder dos sinais: no dia em que se preparava para falar, entre outras recordações longínquas, da final dos Campeões Europeus de 1987 encontrou Domingos Gomes (antigo médioco do FCP) na escola do filho. E, quando conheceu Ana, com quem viria a casar, emprestou-lhe uma cópia de “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rainer Maria Rilke, livro que lhe haviam emprestado e que o ajudara numa altura menos feliz. Ao abri-lo, Ana encontrou a seguinte dedicatória: “Para a Manuela”, vindo a descobrir que se tratava da sua mãe.

Quando passamos pela casa onde o casal deixará em breve de viver, Ana não está. Depois de um café na cozinha, cheia de fotos dos filhos (e uma imagem de Abbey Road) na parede, vamos até ao pequeno quartinho onde Miguel Araújo, pouco adepto do ambiente “inibidor” dos estúdios profissionais, grava boa parte da sua música. Em cima do piano, o afinador deixou, numa caligrafia caprichada, o seguinte recado: “Não pousar aqui café, chá ou laranjada.” Numa centenária cama de madeira, o cantautor que gostaria de ser reconhecido como guitarrista mostra o achado de uns amigos: ao comprarem uma casa com recheio, encontraram uma guitarra de 1934, feita na antiga Casa António Duarte, na rua Mouzinho da Silveira, na baixa. “Atravessou guerras mundiais, finais europeias!”, evoca, dedilhando as cordas do instrumento que os amigos lhe ofereceram e que usou no novo “Giesta”.

Album V. Com cerca de sete anos, brincando às bandas na casa da Giesta

Album V. Com cerca de sete anos, brincando às bandas na casa da Giesta

Fotografia do arquivo pessoal de Miguel Araújo

É neste equilíbrio algo diáfano entre passado e presente que o portuense parece habitar. Quando visitamos o local onde aprendeu a nadar, também glosado no disco novo, lembra que, em criança, as idas à piscina do hotel Via Norte eram “a diversão máxima, o oásis da minha infância”. Mas é no iPhone que, frente à antiga casa da avó, nos mostra um vídeo imperdível. Em dezembro de 2014, convidou a banda de versões dos tios, cujos concertos amadores lhe despertaram a paixão pela música, para acompanhá-lo em palco, no Coliseu do Porto. ‘Like a Rolling Stone’, clássico de Bob Dylan e primeira canção que Miguel Araújo aprendeu a tocar, faz-se ouvir pelas ruas da Giesta, na versão dos Kappas. “Agora é o solo de harmónica, a casa vai abaixo!”, anuncia, antecipando a heroica performance do tio Sérgio, que o ensinou a tocar guitarra.

Cantor relutante (“Sempre tive o problema de ficar semitonado para baixo, devido à timidez, que prende a voz. Agora estou melhor, porque tenho mais vergonha de desafinar”), não ambiciona inovar nem agitar a música portuguesa. Se conseguir apresentar mais um “pacote de canções” apetitoso, pressentimos que já ficará feliz. “No livro ‘Songwriters on Songwriting’, o Dylan diz que o mundo já não precisa de mais canções. Quanto à minha música ser portuguesa, também não é. Onde se cristaliza uma coisa a dizer: é português? A cozinha italiana é muito à base de molho de tomate e não havia tomates em Itália até ao século XV. Então, é italiana? Os jeans – chamam-se Denim porque são ‘de Nîmes’. Então, é vestuário americano ou francês? As coisas fundem-se umas nas outras, não olham a nacionalidades”, acredita. “Fernando Pessoa dizia que o verdadeiro português não é português, é tudo. Talvez seja essa a grande inovação portuguesa.”