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É assim que Deus se sente?

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Kendrick Lamar é conhecido como o rei mas também o messias do hip hop, mas ele ambiciona mais – ser o salvador da música, da América ou de si próprio. “Avé Maria, Jesus e José / A grande bandeira americana está envolta em explosivos / Donald Trump está na presidência / Perdemos Obama e prometemos nunca mais voltar a duvidar dele / Passa-me o gin, eu misturo-o com sangue americano”

Para Kendrick Lamar Duckworth, tudo começou quando corria o ano de 1995 e ele não passava de um menino de 8 anos a crescer na cidade de Compton, Califórnia. O ambiente era “hostil e imprevisível”, palavras do próprio, entre a “cultura dos gangues”, os traficantes de droga e os amigos que via caírem mortos às mãos tanto de gangues rivais como da polícia. Kendrick, no entanto, era um rapaz introvertido: divertia-se na escola, diz que não participava nessas confusões – embora as testemunhasse e vivesse na sombra da violência -, escrevia poemas e era bom a Inglês.

Naquele mês de novembro, o destino levou a que Dr. Dre, conhecido como um dos maiores produtores do hip hop, e o ícone Tupac visitassem aquela cidade californiana para gravar o vídeo para a canção “California Love”. Ali, relata a “Mic”, pararam para falar com os habitantes, entre os quais se encontrava Kendrick, fascinado com as duas lendas do hip hop mesmo à sua frente. Daquele dia tem hoje a certeza que ficou uma inspiração para se tornar ele próprio uma lenda da música na Costa Oeste; e daquela infância, sabe quem o ouve, ficou boa parte da inspiração que o leva a escrever os versos mais recentes – dos mais duros, dos mais verdadeiros – que apresenta.

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Nas últimas semanas, a antecipação foi de loucos, porque hoje em dia Kendrick Lamar é sinónimo de lenda, de rei do género – mesmo que conte apenas 29 anos. Afinal, ele é o homem que só com “To Pimp a Butterfly”, de 2015, arrecadou quatro Grammys e escreveu a música preferida do ano para Barack Obama (“How Much a Dollar Cost”). Por isso, quando o seu “DAMN.” foi lançado há uma semana, houve euforia e histrionismo.

Em “DAMN.” – todos os 14 títulos das canções consistem apenas numa palavra e escrevem-se em maiúsculas e com ponto final, tal como o nome do disco a que pertencem – Kendrick chega a comparar o seu nascimento à Imaculada Conceção e a sua própria existência à do Messias (na faixa “GOD.”, anuncia: “É assim que Deus se sente”). Está tudo no seu ADN, como explica em “DNA.”, segunda canção do disco (já merecedora do estatuto de single), contagiante e furiosa: “Tenho poder, veneno, dor e alegria no meu ADN”.

“O hip hop tem causado mais danos do que o racismo”

Mas comecemos pela faixa de abertura, “BLOOD.”, que além de não ser exatamente uma canção tem um aspeto em comum com as duas verdadeiras canções que se seguirão. Apesar de durar menos de dois minutos, há muito para perceber aqui sobre o resto do disco: depois de uma espécie de coro cantado por Bekon, o que será habitual – tanto a presença de Bekon como os coros como introdução – , Kendrick conta uma história sobre uma mulher cega que tenta ajudar na rua e que acaba por o alvejar.

A seguir surge a voz do jornalista Geraldo Rivera, da Fox News, que cita versos da aclamada “Alright”, que Kendrick cantou nos BET Awards de 2015 e que na altura suscitou uma reação de Rivera. “Nós odiamos a polícia, querem matar-nos nas ruas de certeza”, diz o jornalista, citando os versos da canção. “Ugh, não gosto disso”, responde prontamente a comentadora Kimberly Guilfoyle.

O trecho deste programa da Fox é usado também na canção seguinte, estabelecendo um tom e um tema que serão determinantes para expressar as ideias de Lamar em “DAMN.”, o Lamar que fala em Deus e no que homens como ele sofrem na terra. “É por isto que digo que o hip hop tem causado mais estragos nos jovens afroamericanos do que o racismo nos últimos anos”, prossegue Rivera, na sample usada em “DNA.”. Já em “YAH.”, que recorre a um ritmo mais brando para explicar as visões de Lamar, o rapper explica: “A Fox News quer usar o meu nome para as suas percentagens (…) Alguém diga a esse Geraldo que eu tenho ambição / Não sou um político, não é sobre uma religião / Sou um israelita, não me chames preto / Essa palavra é só uma cor, já não é um facto”.

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Kendrick bem pode dizer que isto não é sobre religião, que não é um político e que a sua cor não o define, mas a sua história de vida e o crescimento em Compton levam-no a dar importância a tudo isso, porque sabe que são temas que importam talvez mais do que nunca. Dizia em entrevista ao “The New York Times”: “O meu foco está em voltar à minha comunidade (…) Vivemos num tempo em que excluímos uma enorme componente de toda esta coisa que se chama vida: Deus. Ninguém fala disto porque quase entra em conflito com o que se passa no mundo quando se fala de política. É urgente”.

América, ajuda-me a entender

As referências à fé são incontáveis, desde os momentos em que se refere a si próprio como o salvador (do hip hop, da música, de Compton, quiçá do mundo) àqueles em que pensa na fé como a salvação para si. Em “FEAR.”, ouvimos um telefonema do seu primo, Carl Duckworth, a tentar descansar Lamar: “Eu sei que tu sentes que as pessoas não andam a rezar por ti. Mas tens de perceber isto, meu, somos todos pessoas amaldiçoadas”. Por entre relatos de Kendrick sobre a infância difícil e rodeada de violência, os medos que passou na adolescência – “provavelmente vou morrer porque é o que acontece quando tens 17 anos” – e a falta de segurança em si próprio que enfrenta, as palavras de Carl impõem-se como um valor mais elevado: “Até voltarmos a estas leis, estatutos e ordens, e fizermos o que Deus quer, estas maldições continuarão sobre nós”.

Uma dessas maldições será o desgosto que vive com a política – não falta a referência a Trump em “LUST.”, em que canta “Todos acordámos, a tentar ver as notícias / À procura da confirmação, esperando que a eleição não fosse verdade” – e com o estado da América, que refere mais concretamente em “XXX.”, a canção que traz um refrão cantado por Bono. “América, Deus te abençoe se isso é bom para ti / América, por favor pega na minha mão / Podes ajudar-me a entender”, e Kendrick conta a história de um amigo cujo único filho foi morto. “Ok, miúdos, vamos falar do controlo das armas”, promete, antes de novo verso provocador: “Avé Maria, Jesus e José / A grande bandeira americana está envolta em explosivos / Donald Trump está na presidência / Perdemos Obama e prometemos nunca mais voltar a duvidar dele/ Passa-me o gin, eu misturo-o com sangue americano”.

Não é que não haja espaço para sons e palavras diferentes, por vezes mais animadores – “LOVE.”, em colaboração com Zacari, é melodiosa e romântica, com Kendrick a declarar: “Prefiro que confies em mim do que me ames / Se não te tenho, não tenho nada”. A parceria com Rihanna, em “LOYALTY.”, é certeira e traz uma combinação fresca exatamente a meio do disco, com energia renovada enquanto asseguram em coro: “É uma sociedade secreta, tudo o que pedimos é confiança / A única coisa que temos somos nós”.

“Ninguém está a rezar por mim”

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Mas esses temas não são os que marcam este “DAMN.”, porque no máximo, Kendrick transita dos temas universais e americanos para os dramas pessoais que no fundo se podem transpor a qualquer um que o ouça. “FEEL.”, que recorre a repetições e até a versos muito semelhantes aos de Eminem (“Que se lixem vocês, se ficam ofendidos” soa familiar para quem ouvir “Still don’t give a fuck”), centra-se na ideia de que “ninguém está a rezar” por Kendrick: “Sinto que tenho um peso nos ombros / Sinto que estou a perder o foco / Sinto que não haverá amanhã, que se lixe o mundo”.

Em “PRIDE.”, que conta com um refrão introspetivo e a voz de Steve Lacy a obrigar o ritmo a abrandar, ouvimos: “Num mundo perfeito, eu seria perfeito, mundo / Eu não confio em pessoas além da superfície, mundo”. Logo a seguir, na contagiante “HUMBLE.”, o ritmo pode ser de novo frenético e a batida constante, mas por entre o orelhudo refrão que ordena “senta-te, sê humilde”, de novo: “Ninguém reza por mim”.

Várias das pontas soltas de “DAMN.” acabam por se unir em “FEAR.”, quando confessa: “Estou a falar de medo, medo de perder a lealdade por orgulho / Porque o meu ADN não me deixa envolver-me na luz de Deus / Estou a falar de medo, medo de que a minha humildade tenha desaparecido”. E os medos pessoais de Kendrick acabam por se tornar não só universais como as razões para o sucesso, como explicava ao “New York Times” depois do sucesso do disco anterior: “Eu estou a falar de crescer numa comunidade infestada de gangues em Los Angeles. E o disco sai e vou em digressão e estou no palco e vejo que a energia é igual a quando estou em Compton. E não conseguia compreender, porque pensava, como podem sentir a ligação a isto? E um fã em particular explicou-me: ‘Eu ligo-me à tua música não por causa da cultura dos gangues, mas pela ideia de querer ser libertado’”.

Já pensaram numa vida sem Kendrick?

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Se o autoproclamado Messias Lamar pode hoje libertar alguém através da sua música, tudo se deve a uma pequena coincidência que relata na última faixa do disco, “DUCKWORTH.”. Aqui, conta-se a caricata história de Anthony “Top Dawg” Tiffith, um gangster de Compton que foi “feito para ser perigoso” e que um dia só não roubou e fez mortos num restaurante KFC porque um empregado excecionalmente simpático – e que estava de sobreaviso – lhe ofereceu pedaços de galinha. Acontece que esse empregado era Kenny Duckworth, o pai de Kendrick, que voltaria a encontrar-se com o seu quase-homicida anos depois, num estúdio de gravações – na altura em que Kendrick deu os primeiros passos na música e assinou contrato com a editora independente californiana Top Dawg, em 2004… essa mesmo, a editora fundada por Anthony “Top Dawg” Tiffith.

A reflexão que nos é deixada no final de “DUCKWORTH.” dá que pensar – mais do que num mundo e numa indústria que podiam hoje não contar com Kendrick, como o próprio sugere (“Quem pensaria que o maior rapper seria fruto de uma coincidência? Porque se o Anthony tivesse matado o Ducky / Top Dawg poderia ter passado a vida na prisão / Enquanto eu crescia sem pai e morria num tiroteio”).

Seria fácil que Kendrick tivesse recorrido à vida dos gangues e dos tiros em Compton; em vez disso, escolheu oferecer-nos os relatos do que vivenciou em primeira mão – mas também lembrar-nos que aquela ameaça de morte paira sobre a sua comunidade e sobre tantas outras na América de 2017 como na América de 1995, o ano em que Kendrick Lamar Duckworth viu os seus ídolos gravarem um videoclip e decidiu mudar a sua vida.