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A expiação de Bush

George W. Bush lançou o livro e inaugurou a exposição, em Dallas, com os seus retratos a óleo de veteranos de guerra, feridos em combate

GETTY

George W. Bush pinta veteranos de guerra, feridos no Afeganistão e no Iraque. Um exercício de expiação, um lamento artístico, com os críticos a apreciarem a técnica do ex-presidente dos EUA

O sargento Michael Rodriguez, do exército norte-americano, esteve em nove missões militares ao longo de 21 anos. Incluindo Somália, Haiti e Afeganistão. Sofreu, nesse período, uma dúzia de concussões cerebrais que o deixaram com visão dupla, fortes dores de cabeça, sensibilidade à luz e tonturas permanentes. Passou longos períodos hospitalizado e, em 2010, acabou por se retirar, por razões médicas, depois de lhe ter sido diagnosticado stresse pós-traumático e lesões cerebrais graves. Durante anos, escondeu os seus sintomas atrás de uns óculos de sol, escuros. No retrato, a óleo, que George W. Bush pintou dele, escolheu tirá-los e mostrar as suas lentes protésicas. O olho direito é escuro, acastanhado, com uma lente que o ajuda a regular a sensibilidade à luz; o esquerdo, umas vezes azul, outras verde, corrige-lhe a dupla visão, ajuda-o a definir melhor as coisas deste mundo.

Sargento Michael R. Rodriguez

Sargento Michael R. Rodriguez

O sargento Rodriguez é um dos 98 retratados pelo antigo presidente dos Estados Unidos. O mesmo que ordenou a invasão do Afeganistão e o Iraque, depois dos atentados contra as Torres Gémeas, a 11 de setembro de 2011. E o mesmo que, depois de deixar a presidência, criou a fundação George W. Bush Presidential Center que, entre outras missões, assegura o acompanhamento médico e a assistência necessária na transição para a vida civil a veteranos de guerra, feridos em combate. E o mesmo ex-presidente (o 43º) que decidiu aprender a pintar depois de deixar as suas funções, acreditando que tinha em si um Rembrandt à espera de ser descoberto. Os primeiros quadros não foram particularmente apreciados, ainda que tenham tido direito a serem expostos publicamente (incluindo os retratos a figuras do poder como Putin, Dalai Lama ou seu próprio pai).

Sargento Leslie Zimmerman

Sargento Leslie Zimmerman

Agora, Bush publica o seu primeiro livro de arte e as críticas não podiam ir no sentido mais oposto. Desta vez, os seus quadros geram aplausos. Ainda que o tema seja o mais sensível de todos. Em “Portraits of Courage: A Commander in Chief's Tribute to America's Warrior”, são 98 rostos de militares feridos em combate, podiam ser muitos mais, que derramaram sangue e perderam parte da sua vida em cenários de guerra no Iraque ou no Afeganistão. No fundo, uma forma expiação de George W. Bush. Que não se limita a pintar estes soldados e escreve também sobre as suas provações.

“A qualidade da sua arte é surpreendentemente alta para alguém que — porque se sentia 'ansioso' na sua reforma, escreve no livro, depois de 'ter sido um agnóstico de arte toda a minha vida' — experimentou pintar pela primeira vez, há quatro anos, aos 66 anos de idade. O olhar de Bush e a sua mão melhoraram drasticamente desde que pintou uns desajeitados autoretratos seus, na casa de banho, e que foram divulgados depois de o seu computador ter sido invadido por 'hackers', em 2013”, escreve a revista “The New Yorker” sobre o livro de Bush. Desenhados a partir de fotografias, os retratos “parecem honestamente observados e persuasivamente vivos”. As receitas da venda do livro revertem a favor dos veteranos de guerra.

Sargento Daniel Casara

Sargento Daniel Casara

No “The New York Times”, Jonathan Alter, um antigo colunista da “Newsweek” e autor de livros sobre ex-presidentes norte-americanos, incluindo Roosevelt e Obama, explica que começa a perceber por que razão este livro alcançou o topo da lista do “The Times” dos mais vendidos, na área de não ficção. Isto apesar de a opinião pública sobre os anos da presidência de George W. Bush continuar a ser negativa. “O sucesso de 'Portraits of Courage' é mais do que mais um: 'Obrigada pelo vosso serviço'. Testemunha a nossa genuína determinação de fazer melhor desta vez — apoiar melhor o processo de cura em todas as suas formas, mesmo que seja o presidente que tornou essa cura mais necessária”, escreve.

40 mil militares norte-americanos foram feridos no Iraque e no Afeganistão. O objetivo de Bush, diz o próprio no livro, é continuar a honrá-los, ativamente, no resto da sua vida. Seja através da arte, seja através da sua fundação. Diariamente, conta, está em contacto, olhos nos olhos, com estes veteranos.

“Portraits of Courage: A Commander in Chief's Tribute to America's Warrior”, de George W. Bush, Editora Crown; 192 páginas; Preço: €17

“Portraits of Courage: A Commander in Chief's Tribute to America's Warrior”, de George W. Bush, Editora Crown; 192 páginas; Preço: €17

São 96 homens e duas mulheres. À sua maneira, o político pede-lhes desculpa. E com propriedade artística. Outro presidente norte-americano, Dwight Eisenhower, chegou a dizer dos seus próprios quadros que teriam sido queimados, não fosse ser ele a assiná-los. “Estes retratos — asteriscos improváveis no legado de Bush — nunca seriam sido queimados, mesmo que o artista não tivesse sido presidente dos Estados Unidos”, assegura Alter. A expiação não muda o passado, não corrige erros, não devolve vidas, não evita a ferida. Mas ajuda a curar?