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Mulheres Móveis: o peso do mundo sobre a cabeça, o inferno sob os pés

Lucília Monteiro

“Mulheres Móveis” é nome da peça de teatro, levada à cena no Palácio do Bolhão e que dá voz à dura, quase inacreditável, realidade vivida por mulheres que carregaram um peso maior do que prometia a força humana

André Manuel Correia

Ficaram conhecidas, na primeira metade do século XX, como as carreteiras de Lordelo, no concelho de Paredes, mas os manuais de história olvidam aquelas mulheres com uma resistência estoica, capazes de carregar à cabeça, cobertas com lenços, uma pesada e pungente realidade. Os ecos dessas vozes e prantos amordaçados chegam agora ao Palácio do Bolhão, retratados na peça de teatro “Mulheres Móveis”, encenada por Fernando Moreira.

Descalças, percorriam dezenas de quilómetros, em jornadas de vários dias. Sobre os ombros transportavam peças de mobiliário – dez ou doze cadeiras, por vezes –, tão pesadas como a opressão de uma sociedade marcadamente machista e conservadora. Caminhavam porque isso era tudo o que sabiam fazer e, paradoxalmente, talvez esse fosse, ainda assim, o mais ínfimo vislumbre de uma liberdade que lhes era negada. Entre a dor, a miséria e a tenacidade, persiste a obrigação de continuar. Sempre. Sem parar, lá iam as “cadeireiras”, num caminho feito de subserviência. Saiam de Lordelo para o Porto. Para Guimarães. Para a Póvoa de Varzim. Para Lamego. Sempre para um sofrimento bem maior do que prometia a força humana.

A peça estreada a 8 de abril em Lordelo chega em passo ligeiro, também ela, agora ao Porto e fica em cena entre esta sexta-feira e domingo. Tem por base depoimentos reais de mulheres que nunca tiveram voz. Sofriam em silêncio. Por vezes, cantavam. Por vezes, dançavam “ó pa trás, ó pá frente”. Noutras mais, choravam, subjugadas a um destino que as acorrentava.

Viviam-se os tempos cinzentos de um regime autoritário. Deus, pátria e família. Eram estas as três palavras que conduziam a nação. “Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma”, ouve-se a determinado momento do espetáculo, numa gravação onde se distingue a voz de António de Oliveira Salazar.

Em palco, as quatro personagens Sãozinha, Letinha, Maria e Justa – interpretadas, respetivamente, por Ângela Marques, Patrícia Queirós, Luísa Calado e Filomena Gigante – aplaudem o discurso do ditador e brandem lenços brancos. Não se pense, no entanto, que eram mulheres resignadas. A vida fez delas escravas. Do prazer. Do trabalho. De tudo, em suma. Faziam-nas mover como peões num tabuleiro de xadrez no qual nada podiam interferir, mas havia nelas sangue quente, um espírito combativo e de enorme entreajuda, só equiparável ao dos mais valerosos guerreiros.

“Nós ríamos e chorávamos ao mesmo tempo”, diz uma das personagens. “Naquele tempo havia muito medo. Naquele tempo havia fome velha”, assegura outra, num espetáculo com marcas etnográficas, no qual o linguajar característico da época e da região torna o trabalho de Fernando Moreira quase documental. Polvilhado com elementos trágico-cómicos, há espaço a alguns pormenores de um certo realismo mágico, num enredo recheado de epopeias anónimas e esquecidas, envoltas numa realidade sem espaço para o lirismo.

“O estrume a gente carregava à cabeça”, conta uma das protagonistas. “Era um fedor!”, acrescenta. “Ó hóme, vamos viver para a França. Ou para o Brasil. Ou para o Porto”, pede, na ânsia de uma vida melhor. Ou de uma vida, tão-somente. Mas as carreteiras não pertenciam a lugar nenhum. A sua única missão era caminhar. “Era assim a vida que eu nunca quis”, diz outra delas. Como ferramentas humanas, levavam móveis de uma cidade a outra. Regressavam, extenuadas, e voltavam a partir, num ciclo de interminável exploração. “Bota, bota, bota, bota”, “tuca, tuca, tuca, tuca, lá íamos nós por lá fora”, contam.

Entre elas e com o público partilham histórias da juventude, sonhos de uma meninice que lhes foi negada, lembram a história de um “hóme que ficou viúvo e se afeiçoou por uma nogueira”, enquanto se deleitam com o canto dos pássaros ou talvez simplesmente com a liberdade que levam nas asas. “É um pardal”, diz uma. “Não é nada, é um pintassilgo”, afirma outra das companheiras de luta e viagem. E ficam encantadas, perseguindo a pequena ave, sem nunca a conseguirem agarrar. “Olha, voou”, enquanto elas permanecem com os pés presos a um quotidiano de trilhos determinados por outrem.

Quando não transportavam móveis, iam levar o alimento aos maridos. “Lá vamos nós o caldo quente levar / para os nossos homens que o pão estão a ganhar”, cantavam em uníssono. O pão que raramente tinham para comer, enquanto sonhavam com um “cozidinho rico”, um “bom pedaço de toucinho gordo” e um salpicão. “Bota dois”, pede, faminta, uma das mulheres.

Quando as viam passar, perguntavam-lhes frequentemente para onde iam. A resposta, essa, traziam-na ponta da língua. “Eu não vou a lado nenhum”. E caminhavam. Caminhavam. Caminhavam sempre.

Uma homenagem simples e singela

Após um dos ensaios, o encenador e dramaturgo Fernando Moreira sentou-se à conversa com o Expresso. “Emocional” foi a palavra mais utilizada para se referir ao espetáculo e a uma realidade que lhe é, por motivos familiares, bastante próxima. “Acaba por ser uma homenagem muito simples e muito singela àquelas mulheres”, explica o responsável artístico de 48 anos. “Mexeu muito comigo esta imagem da mulher a transportar um peso brutal à cabeça”, explica, acrescentando que a peça serviu para “dar voz a quem nunca a teve e a quem não conta para a história”.

Artista plástico e também ator há quase 30 anos, Fernando Moreira explica que o espetáculo é também uma homenagem à própria mãe e às suas raízes. “Há momentos que nos fazem rir e descomprimir, mas logo em seguida há uma densidade dramática muito forte”, frisa o encenador. “É verdadeiro, é autêntico e procura transmitir um lado humano que, por vezes, nesta sociedade cheia de camadas não conseguimos ver”, complementa o diretor artístico da “Astro Fingido”.

“Mulheres Móveis” sobe ao palco do auditório do Palácio do Bolhão, no Porto, esta sexta-feira à noite, pelas 21h30, seguindo-se nova récita no dia seguinte à mesma hora. No domingo, pelas 16h, o espetáculo despede-se da Invicta, porque as histórias destas mulheres vão deambular pelo país.

A 20 de maio apresenta-se na Oficina Municipal do Teatro, em Coimbra, e a dia 27 na Quinta da Caverneira, na Maia. Lisboa, Lousada, Bragança e Vila Real são outras paragens previstas.