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O retorno ao pânico, no último texto do inventor da “sociedade líquida”

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O Expresso teve acesso exclusivo ao último texto do sociólogo polaco Zygmunt Bauman, e que faz parte de um livro lançado esta quarta-feira em simultâneo em oito países, incluindo Portugal

“Quando um número crescente de pessoas escuta as trombetas, fica inquieta e se põe em fuga, há duas perguntas que se pode, se deve e, de facto, se costuma fazer: de onde é que estas pessoas estão a fugir? E para onde é que elas estão a fugir?”

É deste modo interrogativo, e parafraseando um conto de Franz Kafka, que começa o texto “Sintomas em busca de um objecto e de um nome”, de Zygmunt Bauman. O último que o famoso sociólogo polaco nascido em Poznan e a partir dos anos 70 professor na Universidade de Leeds, no Reino Unido, escreveu antes de morrer, em janeiro, aos 91 anos.

O Expresso leu-o em primeira mão, assim como teve acesso ao livro “O Grande Retrocesso”, onde se insere ao lado de 15 textos de autores de nacionalidades diversas, tais como Arjun Appadurai, Donatella della Porta, Nancy Fraser, Ivan Krastev, Bruno Latour, Pankaj Mishra, Van Reybrouck, António Costa Pinto e Slavoj Zizek, entre outros. Anunciando-se como “um debate internacional sobre as grandes questões do nosso tempo”, os ensaios analisam o fenómeno do populismo, da demagogia, do autoritarismo, da xenofobia e — num campo mais concreto — do Brexit e da ascensão de Donald Trump. O lançamento foi simultâneo no Reino Unido, Áustria, Espanha, China, França, Itália, Alemanha e Portugal.

A migração como sintoma

Não será por acaso que o último texto de Zygmunt Bauman, o inventor do conceito de “sociedade líquida” — precária, fluida, transitória —, se inicia questionando de onde e para onde as pessoas fogem. Porque num mundo em que “a esperança de submeter a História a uma gestão humana está praticamente extinta”, a certeza dessa fuga é a única que temos. Um dos sintomas da nossa condição atual, escreve Bauman, é “o pânico da imigração” e a confusão desta com um processo muito mais profundo e permanente — o da migração.

“Em que ponto a emigração/migração se torna migração? Em que ponto é que um gotejar politicamente manejável de imigrantes junto às nossas fronteiras se transforma num fluxo massivo autossustentável e autopropulsionado de migrantes que transbordam ou ignoram todas as fronteiras, juntamente com os seus reforços políticos improvisados à pressa?”, interroga Bauman. E remete para Umberto Eco quando defendeu, em 2001, que “o que a Europa ainda está a tentar abordar como sendo imigração é, na verdade, migração. O Terceiro Mundo está a bater-nos à porta, e irá entrar, mesmo que não estejamos de acordo”.

Para Bauman, ambos os fenómenos distinguem-se pela forma como reagem à “problemática da assimilação” que, sendo endémica na imigração, está ausente na migração. Esta ausência ou vazio foi “inicialmente preenchido pelas noções de ‘melting pot’ ou ‘hibridização’ e agora, cada vez mais, pela de ‘multiculturalidade’, isto é, uma diferenciação e diversidade a nível cultural que irá manter-se num futuro próximo”, e que não é de modo algum “uma irritação temporária”. “A heterogeneidade cultural está rapidamente a tornar-se uma característica inevitável (...) do modo de vida urbano no que à coabitação humana diz respeito, mas chegar a esta conclusão não é fácil e a primeira reação é a negação — ou uma rejeição demarcada, enfática e belicosa”, escreve Zygmunt Bauman, que considera premente substituir o termo ‘multiculturalidade’ pelo de ‘diasporização’.

Segundo afirma, o cenário que venha a resultar da migração, e que já começa a desenhar-se nas sociedades ocidentais contemporâneas, estará “muito mais sujeito a processos e influências por parte das massas do que dependente da regulação vinda de cima e na qual a interação entre diásporas assenta mais na divisão da mão de obra do que numa amálgama de culturas”.

Assim estamos. E a origem da intolerância, frisa, é o “medo perante o desconhecido — de que os ‘estranhos’ ou ‘forasteiros’ são o símbolo mais destacado, mais tangível, porque próximo e notório”. “É impressionante”, continua Bauman, “como o seu estatuto faz lembrar o que nos mapas antigos era assinalado com o aviso hic sunt leones, sobre a periferia da ecúmena inabitável e inabitada — com a ressalva, contudo, de que estas bestas misteriosas, sinistras e intimidantes, leões disfarçados de migrantes, agora deixaram para trás os seus covis distantes e instalaram-se, subrepticiamente, na casa ao lado da nossa. E se no tempo em que estes mapas eram desenhados nos era possível evitar aventurarmo-nos perto dos seus esconderijos e, graças a uma tão simples precaução, ficarmos livre de perigo, essa opção já não está ao nosso dispor. ‘As bestas’ estão mesmo à nossa porta, e é impossível não nos cruzarmos com elas quando saímos à rua.”

Autoritarismo no século XXI

A Europa como destino das diferentes diásporas é uma Europa que caminha para onde? “Não é fácil de responder. As identidades nacionais são extremamente fortes e manipuladas com grande facilidade em conjunturas de crise, e não estamos apenas a falar da mobilidade extraeuropeia para a Europa, mas da própria intraeuropeia, que se encontra, em teoria pelo menos, no cerne da construção da União Europeia”, responde António Costa Pinto, que colaborou no livro “O Grande Retrocesso” com um ensaio sobre globalização e populismo.

Para este investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, qualquer análise sobre o retrocesso civilizacional está hoje relacionada com “o crescimento de regimes autoritários”, com a “reconsolidação autoritária da Rússia e dos seus satélites”, com a situação na Turquia ou na China, ou com o falhanço relativo da chamada ‘primavera árabe’.

Numa palavra, o retrocesso de que se fala “remete para um regresso do tribalismo político, ou antes do populismo étnico-cultural tribalista, antiglobalização, e mesmo do autoritarismo”, diz Costa Pinto, relembrado a frase de Ralf Dahrendorf segundo a qual o século XXI, após uma vaga de democratizações sem precedentes, poderia tornar-se o ‘século do autoritarismo’.

Nisto, vai ao encontro do que Zygmunt Bauman reconhece temer no final do seu último texto: que os Estados sobrecarregados de medo estejam “a transformar-se em pouco mais do que bairros de certo modo maiores”, e que a Europa se resuma a “um território habitado por tribos”, em que “a inferioridade da outra tribo é a sua condição inextinguível e irremediável, e o seu estigma indelével”.

O grande retrocesso será esse, “o abandono dos esforços do pós-guerra no sentido de instituir uma ‘família de Nações’ com um considerável incentivo à ‘securitização’ dos problemas sociais e, consequentemente, das ideias e ações políticas”.

Para ler o texto de Zygmunt Bauman na íntegra clique AQUI.