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Se a natureza pudesse chorar Alberto Carneiro – o adeus ao monumento humano

Vários amigos e artistas estiveram presentes no último adeus a Alberto Carneiro e recordam um homem simples na sua complexidade e profundo amante da natureza

Se a natureza pudesse chorar, as lágrimas seriam insuficientes para um artista que dela fez metáfora maior. Só que as árvores não choram - ou talvez o façam em silêncio, por serem exímias a guardar segredos, aforismos secretos da linguagem dos pássaros que Alberto Carneiro tão bem sabia entender. Mais de uma centena de pessoas, entre as quais várias figuras ilustres de distintos quadrantes da sociedade portuguesa, marcaram presença no Tanatório de Matosinhos, esta segunda-feira, na despedida ao escultor, falecido no sábado, aos 79 anos, na sequência de vários problemas de saúde prolongados.

Do artista fica a incomensurável admiração, de raízes profundas e sempiternas. Para o amigo as palavras não chegam. Mais do que um último adeus, foi um elogio à amizade. O último abraço a alguém de uma “humanidade solar e radiante em si mesma”, como descreveu o historiador de arte Bernardo Pinto de Almeida. O crítico e professor catedrático na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto recordou Alberto Carneiro como alguém que “expandiu ilimitadamente o campo da escultura”, onde cabia tanto o pensamento como a forma. “Foi, sobretudo, um escultor de si mesmo, fazendo dele uma obra exemplar”, acrescentou o amigo e autor de um livro dedicado à obra do escultor. “Felizes aqueles que puderam vê-lo tornar-se num humaníssimo monumento”, concluiu , durante o discurso proferido na cerimónia fúnebre.

Também chamado a discursar, o escultor Rui Chafes falou do “modelo para todos os artistas” que Alberto Carneiro representou. “Trouxe a natureza para a arte e fundiu as duas […] sem edificações”, frisou o vencedor do Prémio Pessoa 2015. “A sua semente está repartida pelos regatos, pelas árvores, pelas pedras, pelas flores e pelas ruas”, acrescentou o artista. Por sua vez, o médico psiquiatra José Adriano Fernandes disse, emocionado, durante o discurso de despedida ao amigo de longa data: “No longo silêncio que se segue, visitaremos de novo o teu jardim […] e podemos ouvir música”.

Alberto Carneiro nasceu a 20 de setembro de 1937, em São Mamede do Coronado, no município da Trofa, e foi um dos mais influentes criadores na segunda metade do séc. XX em Portugal, sendo percursor de novas linguagens criativas e com um trabalho marcadamente naturalista.

A natureza era protagonista recorrente no trabalho do escultor, capaz de levar searas e canaviais para dentro de um espaço museológico. Como uma metáfora onde habitavam sonhos ou a extensão do corpo de um autor onde a vida e a obra caminham de mão dada, sem qualquer separação. Os amigos recordam um homem que a amava a simplicidade da vida e com a capacidade de encontrar a profundidade nas mais pequenas coisas.

Acabado de chegar de Londres, Alberto Carneiro foi diretor artístico, entre 1972 e 1985, do Círculo de Artes Plásticas da Universidade de Coimbra, local onde foi professor do pintor Albuquerque Mendes, que esta segunda-feira também não pode deixar de marcar presença no adeus a um eterno e disruptivo mestre. “Trouxe uma maneira de propor as aulas completamente diferente. O desenho deixou de estar no papel e passou a estar no espaço. Levava os alunos para a rua e para os jardins, algo que não era muito comum, mas ele trouxe essa metodologia de Londres”, recorda o artista e eterno aprendiz de Alberto em declarações ao Expresso. “O espaço artístico vai para a natureza e ele transmite isso de forma impressionante ao espectador”, acrescenta.

A obra de Alberto Carneiro encontra-se dispersa um pouco por todo o país, mas há uma cidade com a qual sempre manteve uma relação bastante próxima. Santo Tirso, onde desenvolveu os simpósios de escultura há mais de 25 anos. À margem da cerimónia fúnebre, o presidente da autarquia, Joaquim Couto, vincou uma amizade de quase três décadas para com um “homem simples, mas muito profundo”, “uma pessoa muito determinada e com uma visão do mundo muito à frente”.

O município não esquece o escultor que lhe doou dezenas de obras, entre desenhos e maquetes que estão agora a ser catalogadas, de forma a constituírem uma exposição permanente no futuro Centro de Artes Alberto Carneiro, em Santo Tirso. “Estamos na fase de adjudicação da obra. Era um sonho dele que está quase a iniciar-se”, assegura o autarca, adiantando que a construção do complexo deverá arrancar no início de maio..

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