Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Fazer a comida, 
não a guerra

A fotógrafa e gastrónoma libanesa Barbara Massaad esteve em Lisboa a fazer consultadoria para a carta de um restaurante. Espera lançar este ano o livro “Soup for Syria”

antónio pedro fereira

Não falamos todos a mesma língua. Nem damos valor ao mesmo tipo de bens. Não seguimos todos o mesmo ritmo das estações. Nem estamos acordados ou a dormir em simultâneo. Não temos, sequer, o mesmo calendário. São poucas as linguagens ou movimentos que sejam capazes de unir os povos do globo. Contudo, Barbara Massaad encontrou duas: a fotografia e a comida.

“Toda a gente sabe o que é a comida, é um denominador comum, não é preciso explicar”, conta a fotógrafa sentada nas coloridas cadeiras do Muito Bey, o restaurante libanês que há um ano trouxe para Lisboa (Cais do Sodré) as cores e os sabores do Médio Oriente. Foi por causa deste espaço que Barbara esteve três semanas na capital, mas a ligação à comida é mais profunda. O projeto dela “Soup for Syria” (sopa para a Síria numa tradução literal) — um livro que junta vários chefes reconhecidos e as suas sopas e cujas receitas revertem para os refugiados — é o expoente máximo. Uma relação onde também entra a fotografia. Se tudo correr bem, o livro chegará a Portugal até ao final do ano.

Barbara conhece as duas — comida e fotografia — desde muito nova. O pai, um fotógrafo comercial que se tornou conhecido no Líbano durante a década de 70, fez com que as objetivas nunca lhe fossem estranhas. E a (boa) gastronomia libanesa sempre foi um hóbi que via os mais velhos fazerem. “A comida é uma parte muito importante da nossa cultura. Temos o mezze, pequenos pratos de comida [uma espécie de petiscos e tema do seu segundo livro], que são muito típicos. Chegamos a ficar horas à mesa nas refeições com o mezze.”

Um dia, as balas obrigaram-na a fugir para Miami, nos EUA. “Deixámos o nosso país pelas mesmas razões que os sírios hoje deixam a Síria. Talvez, porque tínhamos algum dinheiro, o tenhamos feito com mais dignidade.” E é aí que encontramos a origem de “Soup for Syria”.

Instalados nos EUA, a família Massaad recomeçou a vida. Tal como acontece com a maioria das famílias refugiadas, não deixaram só um país. No Líbano ficou o passado e o trabalho. No novo país, a família abriu um restaurante e a comida deixou de ser apenas um hóbi. Barbara foi chamada a ajudar. Tinha 15 anos, já há muito estava habituada a andar de máquina fotográfica na mão. Uma experiência que ainda hoje, aos 47 anos, recorda com saudade. “Quando se trabalha num restaurante acontece uma coisa que não acontece em mais lugar nenhum: aquilo torna-se parte do que somos.”

E depois há a adrenalina, “a maneira como vivemos e partilhamos através da comida”. Entranhou-se e juntou-se ao outro gosto. E só não foi destino imediato, porque Barbara quis ser ela própria antes de seguir o caminho do pai. “Aos 19 anos, o meu pai chamou-me para trabalhar com ele e eu não quis. Queria conquistar as minhas asas para voar”, frisa. Por esta altura, já a família tinha regressado ao Líbano e a criança voltou uma jovem que foi estudar Marketing, fez carreira própria, casou e teve três filhos.

Quando o terceiro foi para a escola, Barbara voltou às origens: à comida e à fotografia. Escreveu e fotografou dois livros, “Man’oushé!”, sobre o pão típico libanês, e “Mezze”, sobre as tais pequenas porções de comida. Conheceu os produtores do país, envolveu-se no movimento slow food, tornou-se consultora de restaurantes libaneses pelo mundo. Poucos, como o Muito Bey. “Têm de ser o rosto do Líbano. Ainda hoje, os libaneses aproveitam o momento de sair para comer para se evadirem. Das suas vidas, da realidade do país.”

Pelo caminho, entre todos os projetos, conheceu campos de refugiados sírios. Era inevitável, dada a localização geográfica do seu país e o seu próprio percurso. “Um quarto da população do Líbano é síria. Visitei um dos campos e como ando sempre de máquina em punho, fotografei. Era uma pena se ninguém tivesse visto aquelas fotografias.” A ideia original era fazer um livro de receitas sírias, mas era impossível cozinhar nas condições precárias dos campos. E, assim, convidou chefes reconhecidos para doarem as suas receitas de sopas e com elas uma mensagem de esperança. Podemos não estar no mesmo fuso horário e localização geográfica, mas temos todos o mesmo sangue.

antónio pedro fereira

Barbara conhece as duas — comida e fotografia — desde muito nova. O pai, um fotógrafo comercial que se tornou conhecido no Líbano durante a década de 70, fez com que as objetivas nunca lhe fossem estranhas. E a (boa) gastronomia libanesa sempre foi um hóbi que via os mais velhos fazerem. “A comida é uma parte muito importante da nossa cultura. Temos o mezze, pequenos pratos de comida [uma espécie de petiscos e tema do seu segundo livro], que são muito típicos. Chegamos a ficar horas à mesa nas refeições com o mezze.”

Um dia, as balas obrigaram-na a fugir para Miami, nos EUA. “Deixámos o nosso país pelas mesmas razões que os sírios hoje deixam a Síria. Talvez, porque tínhamos algum dinheiro, o tenhamos feito com mais dignidade.” E é aí que encontramos a origem de “Soup for Syria”.

Instalados nos EUA, a família Massaad recomeçou a vida. Tal como acontece com a maioria das famílias refugiadas, não deixaram só um país. No Líbano ficou o passado e o trabalho. No novo país, a família abriu um restaurante e a comida deixou de ser apenas um hóbi. Barbara foi chamada a ajudar. Tinha 15 anos, já há muito estava habituada a andar de máquina fotográfica na mão. Uma experiência que ainda hoje, aos 47 anos, recorda com saudade. “Quando se trabalha num restaurante acontece uma coisa que não acontece em mais lugar nenhum: aquilo torna-se parte do que somos.”

E depois há a adrenalina, “a maneira como vivemos e partilhamos através da comida”. Entranhou-se e juntou-se ao outro gosto. E só não foi destino imediato, porque Barbara quis ser ela própria antes de seguir o caminho do pai. “Aos 19 anos, o meu pai chamou-me para trabalhar com ele e eu não quis. Queria conquistar as minhas asas para voar”, frisa. Por esta altura, já a família tinha regressado ao Líbano e a criança voltou uma jovem que foi estudar Marketing, fez carreira própria, casou e teve três filhos.

antónio pedro fereira

Quando o terceiro foi para a escola, Barbara voltou às origens: à comida e à fotografia. Escreveu e fotografou dois livros, “Man’oushé!”, sobre o pão típico libanês, e “Mezze”, sobre as tais pequenas porções de comida. Conheceu os produtores do país, envolveu-se no movimento slow food, tornou-se consultora de restaurantes libaneses pelo mundo. Poucos, como o Muito Bey. “Têm de ser o rosto do Líbano. Ainda hoje, os libaneses aproveitam o momento de sair para comer para se evadirem. Das suas vidas, da realidade do país.”

Pelo caminho, entre todos os projetos, conheceu campos de refugiados sírios. Era inevitável, dada a localização geográfica do seu país e o seu próprio percurso. “Um quarto da população do Líbano é síria. Visitei um dos campos e como ando sempre de máquina em punho, fotografei. Era uma pena se ninguém tivesse visto aquelas fotografias.” A ideia original era fazer um livro de receitas sírias, mas era impossível cozinhar nas condições precárias dos campos. E, assim, convidou chefes reconhecidos para doarem as suas receitas de sopas e com elas uma mensagem de esperança. Podemos não estar no mesmo fuso horário e localização geográfica, mas temos todos o mesmo sangue.