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Silhuetas 
em claro escuro

Numa das novelas de Teresa Veiga, a protagonista vive fascinada por Florbela Espanca (na foto)

Numa das novelas de Teresa Veiga, a protagonista vive fascinada por Florbela Espanca (na foto)

d.r.

Teresa Veiga é um dos maiores enigmas da literatura portuguesa contemporânea. Autora recatadíssima, avessa a qualquer tipo de exposição mediática, consegue um verdadeiro milagre: o de só existir enquanto matéria textual. Teresa Veiga é um nome (um pseudónimo) que se esgota nas ficções publicadas, com intervalos consideráveis, desde 1980. Mesmo a lógica interna da sua obra tem algo de misterioso, de insondável. “O Último Amante”, por exemplo, começou por ser um volume com duas novelas, editado pela Cotovia em 1990. Surge agora acrescentado de outros dois textos, mas não sabemos se estes foram escritos na altura, tendo ficado inéditos, ou se correspondem a uma produção recente. E será que importa conhecermos tais detalhes?

O certo é que há uma unidade que salta à vista no conjunto, uma constância de estilo e de formas narrativas, um mesmo sopro a percorrer todas as páginas. As duas primeiras novelas continuam a fazer sentido juntas, dialogando uma com a outra, mas os novos textos ampliam esse subtil jogo de espelhos, em que os detalhes menores de uma história podem iluminar as questões centrais de outra, e vice-versa. Embora autónomas, as novelas captam tempos diferentes do percurso de uma mesma família burguesa, tendo como locus central um certo prédio da Rua da Junqueira, mesmo em frente ao Palácio do Marquês de Angeja.

A primeira figura que se destaca é Alexandrina, a protagonista de ‘A Minha Vida com Bela’. Escrevendo em 1945, sobre acontecimentos ocorridos no final da década de 20, a narradora expõe-se na sua condição de escritora frustrada. Devota de duas Emily, a americana Dickinson e a inglesa Brontë, companheiras virtuais que lhe instigavam o orgulho de ser “uma solteirona relapsa e confessa”, vê a sua vida virada do avesso pela descoberta da poesia de Florbela Espanca, apogeu do sentimentalismo, sob o signo de paixões exacerbadas. Atraída por essa “morena criatura de olhos aflitos e cabeleira de ébano” (a típica atração dos opostos), entrega-se à tentativa de a conhecer e se tornar sua amiga, porque pode. Herdeira da fortuna paterna, tem o suficiente para viver dos rendimentos para o resto da vida e “sustentar casa com certa pompa”.

O seu idílio com Florbela, vivido numa casa de campo em Monchique, onde se esboça um triângulo amoroso que acaba mal, não passa de uma “divina tolice”, um capricho de mulher endinheirada, feliz por ter experimentado um dia a vertigem da grandeza, antes de se remeter ao medíocre conforto da ordem doméstica. Uma ordem que vem de trás e é explorada na segunda novela, ‘O Último Amante’, um salto para trás na linha cronológica, até à inusitada descoberta de aspetos traumáticos da relação de Alexandrina com a mãe, no fim da infância, por entre fotografias “do tempo que valia a pena recordar”, guardadas em caixas onde jazem, incognoscíveis para os vindouros, silhuetas recortadas em claro escuro.

A terceira história, ‘Antes da Revolução’, é narrada em registo diarístico pela segunda figura central do livro: Alexandra Raquel, filha adotiva de Alexandrina. Sempre no mesmo cenário da Rua da Junqueira, estamos agora na década de 60, na iminência da chegada a Lisboa de um primo distante, com fama de cineasta aclamado nos círculos intelectuais de Paris. De uma geração para a outra, mantém-se a mesma consciência de um aprisionamento, de uma incapacidade de se viver a vida desejada, e as ilusões de um encontro esclarecedor, aproveitando “um rasgão no tecido finíssimo da noite”, trazem já a marca de expectativas que, como todas as outras, acabarão por soçobrar no vazio. Aliás, é isso que a última história, ‘Canção do Lagarto Negro’ (a única narrada por um homem), confirma da forma mais elíptica possível.

Nos seus múltiplos tempos, estas quatro novelas permitem-nos olhar, com a distância do observador secreto, talvez escondido na mansarda do outro lado da rua, a lenta decadência de uma família. É um exercício de espantosa inteligência narrativa, servido por uma escrita de altíssimo quilate, rica em detalhes, complexa, labiríntica sem nunca deixar de ser clara, capaz de abarcar tanto a arquitetura minuciosa dos espaços como os recantos mais obscuros da psique das personagens. Literariamente, “O Último Amante” é, como diria Alexandrina num dos seus arroubos, um “festim magnífico”.