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Os cinco e a guerra

d.r.

Reinaldo Serrano

Alvo de atenção permanente no cinema e na literautra, a 2ª Guerra Mundial parece estar já mais do que escalpelizada sob inúmeros pontos de vista. Não será tanto assim com a mais recente proposta disponibilizada pela Netflix e pelo inesperado aparecimento no nosso mercado de 8 documentários alusivos ao conflito, agregados num único pacote e complementados por bibliografia adequada e acessível aos que se interessam por cinema e pela guerra

A II Guerra Mundial constitui, desde há décadas e de forma consistente, temática recorrente e quase obrigatória no cinema e na literatura, entre as demais artes. O conflito tem sido objeto de múltiplas análises, dissecagens, teses e revelações, bem como pretexto maior para algumas das maiores obras que o cinema e a literatura já produziram. O fenómeno é, aliás, transversal e universal: cada um dos países com maior ou menor participação no maior flagelo do século XX chama a si a sua própria visão dos factos; e se, na Europa Ocidental, é o que vem dos Estados Unidos que mais efeito trouxe aos espetadores, não é menos verdade que a cinematografia alusiva à II Grande Guerra foi sobejo objeto cinéfilo entre os Aliados (com Inglaterra e França à cabeça), o mesmo sendo verídico entre os nórdicos, italianos, Países Baixos e Leste da Europa, com a inevitável Rússia e, antes, União Soviética, a liderar a produção fílmica sobre os eventos ocorridos entre 1939 e 1945.

Um tanto ou quanto inesperadamente, eis que chegam ao nosso mercado de consumo videográfico dois objetos absolutamente incontornáveis sobre o cinema (neste caso norte-americano) e a II Guerra Mundial. O primeiro surge na Netflix, que disponibiliza um extraordinário conjunto de documentários englobados num único (e feliz) título: “Five Came Back” traça o perfil de 5 dos maiores nomes do cinema “made in USA” e o seu contributo e da sua arte no chamado “esforço de guerra” que só o terá sido (diga-se, em abono da verdade) depois do ataque nipónico à base norte-americana de Pearl Harbour. O mais notável ainda é que o trabalho de John Ford, Frank Capra, George Stevens, John Huston e William Wyler é analisado por outros tantos realizadores contemporâneos: Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Guillermo Del Toro, Paul Greengrass e Lawrence Kasdan. Só o somatório de nomes daria já para antecipar um trabalho em grande escala e fazer subir bem alto a fasquia das expectativas. E a verdade é que estas não saem defraudadas: produzido pela Amblin, a produtora de Spielberg saída da Dreamworks, “Five Came Back” situa, contextualiza e analisa o mundo de Hollywood no universo da Guerra. Para tal, recorre aos préstimos dos 5 realizadores que mergulharam no conflito e o documentaram como poucos. Como poucos são os que lembram ainda que nem o “glamour” de Hollywood escapou à entrada dos Estados Unidos na Grande Guerra: muitas foram as figuras da indústria cinematográfica que rumaram ao conflito, entre atores, realizadores, técnicos e demais gente que pululava entre os estúdios; para a posteridade fica, a título de exemplo, a imagem de um sorridente Elvis Presley de trouxa às costas a caminho do recrutamento.

Fosse para combate, fosse para documentar a ação de guerra, a verdade é Huston, Ford, Stevens, Wyler e Capra foram... atores empenhados no registo do conflito mundial, assim como na propaganda norte-americana que, à semelhança dos outros países em guerra, apelava ao contributo dos cidadãos e à galvanização das tropas para enfrentar o poderio militar e ideológico da Alemanha de Hitler. A este propósito, registe-se o espanto confessado pelo próprio Frank Capra depois de ter visto “O Triunfo da Vontade”, o filme propagandístico e iconográfico da realizadora germânica Leni Riefenstahl.

d.r.

Em entrevista registada em audio (a que felizmente o documentário recorre por diversas vezes), o lendário realizador percebeu naquele momento que aquele tipo de propaganda podia ser usado contra os próprios nazis. Ao longo de 3 episódios com cerca de uma hora, o que esta produção estreada em março deste ano mostra é, acima de tudo, a força de vontade, a necessidade que aguçou (ainda mais) o engenho e o empenho de cada um dos 5 homens no seu “esforço de guerra” particular mas ao serviço de todos.

Os documentários são baseado no livro homónimo do inevitável Mark Harris, um dos mais notáveis historiadores de cinema, e cuja leitura se recomenda vivamente, uma vez que o livro é ainda mais abrangente que estes 3 episódios. Cumpre ainda acrescentar que a narração de cada um dos episódios de “Five Came Back” está a cargo de... Meryl Streep, o que confere ainda mais dignidade a este registo dos registos de guerra e suas consequências captados pela experiência firme de 5 realizadores icónicos do país do Tio Sam. “Five Came Back” é recomendado para os que gostam de cinema, para os que se interessam pela II Guerra Mundial ou tão simplesmente para todos os que queiram desfrutar de 3 grandes momentos de televisão.

Para os mesmos grupos se recomenda um discreto “pack” de 8 dvd (por módica quantia inferior a 12 euros) que se intitula apenas “World War II”. Disponível no nosso mercado, sem legendas em português, é certo, esta “coleção” disponibiliza 6 documentários justamente dirigidos por Frank Capra, “Fury In The Pacific”, de John Ford e “Hiroshima & Nagasaki”, do também norte-americano Anthony Rizzo. As filmagens totalizam mais de sete horas de duração em diversos cenários de guerra e, além do mais, a edição é complementada com animações de época da Walt Disney e um livro com mais de 200 páginas sobre os acontecimentos retratados. Razões mais que suficientes para sugerir fortemente esta aquisição para ver e rever, ainda mais se nos “perdermos” na eficácia extraordinária do já citado documentário disponível na Netflix. É certo que já vimos muito sobre o que aconteceu entre 1939 e 1945 mas nunca é demais a informação quando esta consegue ainda revelar e contar histórias que nem sempre veem a luz do dia, pelo menos com a frequência e a atenção que um acontecimento desta natureza merece. Ainda hoje. Ainda e sempre.