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O que interessa dizer hoje?

A dupla Beatriz Brás & Sérgio Coragem é uma das convidadas a recriar o momento futurista de Almada, realizado no Teatro São Luiz há cem anos

FOTO Beatriz Brás & Sérgio Coragem

A 14 de abril de 1917, Almada Negreiros fez o seu “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do século XX”, subindo ao palco do Teatro República, hoje o Teatro Municipal São Luiz. Tinha 22 anos e a vontade, como muitos outros futuristas, de lançar uma nova ideia de sociedade. Cem anos depois, no próximo dia 14, às 17h, um conjunto de artistas de diferentes disciplinas irá reinventar essa conferência futurista. Américo Rodrigues, Ana Borralho & João Galante, António Olaio, Beatriz Brás & Sérgio Coragem, Diana Combo, Fernando Aguiar, Homeostéticos, Manoel Barbosa, Marta Bernardes, Nova Orquestra Futurista do Porto, Pogo Teatro, Raquel André, Sónia Baptista, Margarida Chambel & Nuno Oliveira retomarão o mesmo palco, a convite de uma curadoria tripartida composta por Ana Pais, Pedro Rocha e Levina Valentim, para ler o seu próprio “Ultimatum”, numa intervenção a que se chamará “Reinvenções”.

Para Ana Pais, a responsável pela coordenação da iniciativa, que aparece no quadro de uma programa mais vasto intitulado P! Performance na Esfera Pública, a perspetiva do centenário do “Ultimatum” de Almada Negreiros “abria a hipótese de fazer uma reflexão a par de uma celebração”. Duas coisas que, como ela diz, parecem andar nos antípodas. Ao desenhar o programa P! (P de Portugal, de Performance e de Pim!, do ‘Manifesto Anti-Dantas’), a investigadora preocupou-se em “tirar o académico do sítio do académico, em pensar em conjunto com a comunidade geral. Em olhar para trás e perguntar: se nos outros países, ou se em muitas outras histórias, como acontece com a mais conhecida de Roselee Goldberg (‘A Arte da Performance’), são os futuristas que iniciam a performance, ao realizar ações com o intuito de provocar, revolucionar, subverter, transformar, porque não olhar para a conferência de Almada como o gesto fundador da performance arte?”

A investigadora e curadora não segue nenhuma linha desviante, não rompe com o que se tem passado noutros países desde 2009, altura em que passaram cem anos sobre as Serate futuristas de Marinetti. Quer refletir e é por isso que não se limita a desafiar artistas de várias disciplinas e áreas para olharem para o “Ultimatum” de Almada, iniciando este programa já, no dia 10 (10h-13h), com uma conferência internacional, a ter lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, onde contará com a presença da especialista inglesa Jen Harvie (Universidade Queen Mary), da brasileira Christine Greiner (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e da portuguesa Idalina Conde (ISCTE-IUL). “Começamos com um momento de reflexão para dar cartas, para dar razões para pensar, explorar e debater. A ideia é que os próprios participantes possam ajudar a escolher temas nesse mesmo dia num evento a que se chamou ‘Desconferência: Performance na Esfera Pública’, a realizar na mesma Gulbenkian, depois de almoço (14h30-17h30).” O programa propõe, aliás, uma série de debates e concertos a ter lugar no Polo cultural Gaivotas, no Museu do Chiado, no Teatro Municipal Maria Matos e no São Luiz, onde Almada poderá ter iniciado esta história.

A própria ação de Almada Negreiros, a importância desta para uma genealogia da performance portuguesa será ela própria alvo de escrutínio, num debate a realizar, no dia 11, na Casa Fernando Pessoa, às 18h30, que questionará a própria herança do artista futurista na performance, presumindo que foi de facto aceite o seu gesto como o fundador da performance em Portugal. Ana Pais não descura ainda um olhar sobre o que se seguiu, ainda que Portugal não seja, como reconhece a investigadora, um país célebre por se ter estado na vanguarda das vanguardas, ou por alinhar, de modo expressivo, com os “eufóricos e disruptivos” happenings, que tiveram lugar, nos anos 60 e 70, sobretudo em Nova Iorque e São Francisco. No entanto, e como sublinha, temos uma história. Ainda que episódica ou descontinuada, em que a performance é usada pelos artistas portugueses em períodos específicos: “Há uma coincidência entre os momentos em que a performance aparece e os momentos em que se dá uma mudança social e política.” A performance portuguesa surge por contaminação ou necessidade política, nomeadamente na poesia e na música nos anos 60 e 70, mas também com a adesão à Europa, nos anos 80. A ausência de uma história portuguesa também vai além de uma possível falta de empenho crítico, que em parte começou a aparecer nos últimos anos. Neste programa está, por isso, previsto o lançamento do livro “Performance na Esfera Pública”, com a presença de Rebecca Schneider, importante especialista nesta área (Gulbenkian, segunda, 18h30).

Este alheamento nacional poderá estar relacionado com a própria definição do que é a performance: “A definição de performance é uma coisa inatingível. Todos os teóricos que tentaram chegar a uma definição acabaram sempre por alcançar algo tão vasto e amplo para que possa caber tudo, para o formato ser justo... Mas é muito evidente que em Portugal não existe hoje um grupo de artistas do qual se possa dizer que faz performance. São artistas plásticos, ou pessoas do teatro ou da dança que fazem performance, que fazem coisas que não consideram que sejam dança ou teatro.” Algo que já acontecia, de resto, no anos 90, época em que se nota uma influência da performance sobre o trabalho de muitos criadores de teatro e dança, como “Monica Calle, Lúcia Sigalho, João Fiadeiro, Vera Mantero, Sílvia Real, João Galante & Ana Borralho ou João Garcia Miguel”.

Para Ana Pais, o desafio de hoje também não passa por fazer algo igual ao que aconteceu há 100 anos, mas por dar hipótese aos artistas de conceberem e fazerem a sua própria afirmação artística, tendo como referência e inspiração o que Almada fez há cem anos. “Eles tiveram acesso a todo o material, aos manifestos, aos textos que fiz, aos relatos dos jornalistas, nos quais de pode ler o espírito da época.” Mas o desafio que se coloca também passa por saber como sobrevive ou se afirma a performance num mundo formatado pelos circuitos desenhados nos gabinetes dos programadores e pelo ditame que estes exercem sobre a criação e os próprios artistas, mas também, como diz, Ana Pais, por responder à pergunta: “O que interessa dizer hoje? Quais são os assuntos que interessam a todos?”

Afinal, a performance ainda pode ser um modo de ação direta bastante mobilizador? Como é que a performance entra nos dias de hoje no mundo estruturado pelas programações e pelos programadores culturais? Que falta faz um discurso crítico sobre a performance?
Com ou sem respostas, a celebração é garantida. A fechar, prevê-se uma “Festa-futurista-e-tudo”, no dia 14 (22h30), no Teatro São Luiz, onde haverá cocktails futuristas e surpresas culinárias preparadas pelo chefe Joaquim de Sousa.