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A vida num sopro

Rui Horta volta a dançar aos 60 anos, mais de 30 depois da última vez

Claudia Galhós

Rui Horta como nunca se deixou conhecer em “Vespa”, solo criado 
e interpretado pelo próprio

Rui Horta como nunca se deixou conhecer em “Vespa”, solo criado 
e interpretado pelo próprio

Tiago Cerqueira

No dia 20 de abril, dia de “Vespa”, o solo com que Rui Horta volta a dançar depois de mais de 30 anos fora de cena, o coreógrafo celebra 60 anos de idade. Não é por falta de oportunidade, desde logo se recordarmos a sua peça mais intimista e pessoal, “Local Geographic”, de 2010, que gerou a expectativa de que fosse o próprio Rui a interpretar o seu papel, mas eis que o seu cúmplice de longa data, Anton Skrzypiciel, foi o corpo presente. Desta vez, não há volta a dar, “Vespa” é profundamente pessoal. Para alguns talvez possa ser considerada demasiado íntima. É pontualmente habitada pela história de vida de Rui Horta, expõe toda a sua força, persistência, jovialidade, o prazer de dançar ao som de Moby, a fragilidade. Até se permite perder o controlo, abandonando todos os pudores, e dar-se em cena como nunca antes. Ainda assim, rejeita definir a peça como autobiográfica. “Como diz o Mário de Carvalho, ‘desconfio sempre dos artistas que contam a vidinha’. De algum modo, a minha vidinha está lá. É pessoal. Não há criação se não houver um grito pessoal, mas não é autobiográfico.”

No início de “Vespa”, Rui Horta surge camuflado por próteses que lhe dão uma forma artificial ao corpo. Além dos significados possíveis de encontrar nesta tentativa do desaparecimento de si, há a relação que estabelece com o dueto “Scope”, de 2007, onde Romeu Runa vestia aquelas mesmas camadas de músculo falso. É uma peça que teve a sua história interrompida porque Romeu foi dançar com Alain Platel e a digressão foi cancelada. Nesta reapropriação, Rui convoca outros sentidos. “Qualquer pessoa só é feliz se se desembaraçar da sua pele, da sua carapaça. Esta peça é também sobre isso, para que o soft spot emerja. Tens de largar bagagem, desenvencilhar-te de espartilhos..., não há felicidade se não houver isso.”

“Vespa” parte de um estado de controlo, de refúgio numa imagem construída que esconde o corpo e o rosto, para percorrer um caminho primeiro vivido muito no interior, mas que está sempre implicado na vida. “Este trabalho, para mim, é sobre uma cabeça a explodir, é sobre o que omitimos e não dizemos, é sobre o que imaginamos e não concretizamos. Há um elemento que é comum a todos nós, o do não dito mas sentido, que é muito importante. Nesse aspeto, é virada para o futuro, porque se sustenta no muito que está ainda por fazer, que quero fazer.” E nesse olhar para a frente, nesse despir, até deixar falar, viver e dançar o lado mais doce, sensível e até infantil, Rui Horta lembra o arquiteto que mais admira, Oscar Niemeyer, que depois de tudo o que construiu, disse — e escuta-se em cena — “a vida é um sopro, não fica nada, a beleza da vida está na nossa insignificância”. Rui Horta remata: “Ou estás preparado para esta insignificância ou estás tramado.” Ambos estão de acordo, e “Vespa” é atravessada por esse sentimento que importa realmente, o amor.