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Viagem ao início de tudo

“Origens: A Jornada da Humanidade” é a nova série documental do National Geographic e conta com Jason Silva como anfitrião. O apresentador e “DJ de ideias” explicou ao Expresso de que trata a nova aposta de edutainment do canal, para ver em oito episódios

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

em Londres

Jornalista

O filósofo-performer Jason Silva apresenta o novo programa do National Geographic

O filósofo-performer Jason Silva apresenta o novo programa do National Geographic

Quando olhamos para ‘Origens’, olhamos para tudo o que fizemos até aqui. Não seríamos humanos se não fosse pelas nossas ferramentas e tecnologias; não seríamos nós se o que criámos até aqui não existisse. Temos de perceber que não somos apenas aquilo que está por baixo da nossa pele, uma vez que as nossas ferramentas são a nossa segunda pele.” Sempre que fala, o filósofo-performer e apresentador Jason Silva parece ter poucas dúvidas e trazer consigo as certezas do mundo. É assim em “Origens: A Jornada da Humanidade”, à conversa com os jornalistas ou nas conferências que dá um pouco por todo o mundo.

“We build the tools and the tools build us” (“nós construímos as ferramentas e as ferramentas constroem-nos”), repete ao longo da conversa, sem que soe repetitivo. Foi também pela sua capacidade de se fazer ouvir que se tornou anfitrião do novo programa do National Geographic. É ele quem guia os telespectadores por um programa diferente, que cruza depoimentos de especialistas (em temas tão diversos como tecnologia, guerra, comunicação, medicina, transportes, ecologia, paleoantropologia ou biologia evolutiva) com dramatizações de períodos históricos e segmentos sinfónicos “que nos fazem viajar no tempo”. Composta por oito episódios, “Origens: A Jornada da Humanidade” conta com uma banda sonora original que faz parte desta “experiência sensorial”. “É uma autêntica sinfonia digital” e está a cargo de John Boswell.

O “DJ de ideias” venezuelano (o conceito é do próprio) não olha apenas para o futuro e vê no passado — tema maior da série documental, que explora a origem de cada uma das invenções que mudaram o rumo da Humanidade— parte das respostas de que necessita. À conversa com o Expresso na apresentação internacional da série, Jason Silva explica que “temos de olhar para trás para que consigamos unir as peças e perceber quem somos” e que nenhuma situação pode ser analisada de forma isolada. “O contexto oferece-nos perspetiva, fornece-nos um padrão que nos permite fazer previsões e perceber quais os padrões que seguiremos no futuro”, desconstrói.

Em causa está sempre o presente — como devemos utilizar determinada tecnologia? — e o futuro — quais as consequências dos nossos atos para o mundo de amanhã —, mas “Origens: A Jornada da Humanidade” é uma viagem no tempo rumo ao passado. Tudo começa há 14 mil anos, com a descoberta de uma faísca. “O fogo, do qual falámos no primeiro episódio, pode ajudar a cozinhar alimentos mas também nos pode queimar. É como a linguagem, que pode ser usada para fazer poesia ou para escrever discursos de ódio.” Nesta nova aposta de infotainment do National Geographic, o objetivo é mostrar alguns dos momentos mais importantes da nossa História, agrupando-os por temas (e escapando ao tratamento cronológico mais simples). “É preciso perceber como é que devemos usar as nossas mais recentes invenções para o bem”, considera o apresentador de “Origens”, pois tudo o que é inventado pode criar ou destruir o que já existe.

Para Jason Silva, não há dúvidas: “Os seres humanos não são apenas criaturas biológicas, são criaturas mentais”, e estão em constante evolução com o ambiente que os rodeia. Quanto ao futuro, parece ainda mais promissor. Fã de iniciativas como a Neuralink — a nova empresa de Elon Musk, que tem como principal objetivo implantar pequenos elétrodos no cérebro para estabelecer “laços neurais” que possibilitem fazer uploads e downloads de pensamentos —, o apresentador e orador considera que isso hoje até já acontece. “A Neuralink é algo que já está a acontecer quando se faz algo tão simples como utilizar o telemóvel, uma vez que se trata de uma interação com uma extensão não biológica de nós próprios”, revela com emoção. Já menos entusiasmado, explica que “é apenas o materializar de uma metáfora e que apenas estão a fazer uma ligação física”.

UMA NOVA FORMA DE INFORMAR

Sobre o formato de “Origens: A Jornada da Humanidade”, que foge um pouco ao que fez até aqui, Jason Silva (conhecido de “Brain Games”, também do National Geographic e nomeado para o Emmy de Melhor Série Informativa em 2013) explica que “a televisão continua a ser um meio dominante e que por isso faz sentido continuar a apostar nela”. Mesmo que se considere “um filho da internet e goste de formatos pequenos” — tem até um canal no YouTube chamado Shots of Awe, com mais de 24 milhões de visualizações —, compreende “que a TV continua a ter uma imagem de credibilidade e uma escala muito maior”. Também considera que esta está a atravessar uma fase muito positiva, que é preciso aproveitar. “A ficção evoluiu muito nos últimos anos e acho que o que estamos a fazer é trazer essas inovações de produção para o campo dos documentários e dos programas mais educativos”, explica. Afinal, a máxima do início — “We build the tools and the tools build us” — também se aplica à própria série, que o canal classifica como edutainment (um género híbrido que junta a componente educacional à de entretenimento). As ferramentas das séries de ficção estão agora a ser usadas no género documental.

Produzida ao longo de um ano, a série documental não foi construída como outros programas do National Geographic, tendo sido necessária uma abordagem alternativa para chegar ao resultado esperado. “Foi pesquisar e filmar, pesquisar e filmar, pesquisar e filmar”, conta Jason Silva. Quanto a uma possível segunda temporada (que ainda não foi anunciada), o orador também já sabe alguns dos temas que gostava de tratar. “Acho que seria bom termos um episódio sobre os estados de consciência alternativos e como estes alteraram o mundo”, avança. “Foi sob efeito de substâncias psicoativas que várias religiões e crenças nasceram e são vários os exemplos de autênticos génios disruptores — como Steve Jobs — que usaram drogas como o LSD durante a sua vida.”

O Expresso viajou a convite 
do National Geographic Channel