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Pela calada

“Tentei trazer uma paz sonora a tudo o que se passa”, conta Xinobi

Ao segundo álbum, Xinobi encontra a sua voz, explorando ideias que o acompanham há décadas, num salto definitivo para o lado mais calmo das pistas de dança

Quando, em 2014, Bruno Cardoso juntou em “1975”, primeiro longa-duração enquanto Xinobi, os vários universos sonoros que conviviam na sua cabeça, o resultado foi um conjunto de canções bem polidas e coerentemente agrupadas mas que apontava para caminhos muito diferentes e deixava no ar a sensação de alguma dispersão. Três anos volvidos, neste novo “On the Quiet”, o músico parece ter encontrado o equilíbrio perfeito entre as suas influências (mesmo as mais antigas) e o som que mais o satisfaz neste momento. Assim, os oito temas que compõem o álbum soam a balanço final de uma viagem íntima por um passado que incluiu o metal dos Sepultura, a simpatia pelo movimento straight edge (e bandas hardcore como os X-Acto), a experiência de guitarrista nos Vicious Five e a descoberta das eletrónicas. Não se pense, no entanto, que o que ouvimos, por exemplo, no encantatório ‘Far Away Place’ ou no sinuoso ‘Gili Meno’ é um olhar retrospetivo para dentro: tudo está bem contextualizado na conjetura social (e política) do presente. “Peguei um pouco na metáfora do punk rock como movimento insurgente, de intervenção, muitas vezes aliado até a coisas ilegais, e equacionei à volta de tudo isso uma espécie de espaço imaginário onde podemos estar on the quiet, em segredo, no sossego, também, e viver a vida sem termos de gramar com pessoas que andam a gozar connosco e a fazer da nossa vida algo muito complicado”, explica Xinobi ao Expresso. “Tentei trazer uma paz sonora a tudo o que se passa, sendo um bocado mais contido nos sons que escolhi.”

Há em “On the Quiet” momentos mais agitados — ‘Tonic Clonic’ transporta para disco o balanço hipnotizante de uma pista de dança às 5h da manhã; ‘Morning Fix’, com Sequin nas vozes, vai evoluindo lentamente, entre o chilrear de pássaros, até ganhar um ritmo sedutor que não deixa descansar os pés mais inquietos —, mas é, no todo, um disco verdadeiramente apaziguador. A abrir, ‘Skateboarding’ leva Xinobi numa viagem até ao momento em que, após uma queda de skate que resultou num braço partido, decidiu dar uma segunda oportunidade à guitarra oferecida pelo pai anos antes. “Adorava música, ficava fascinado a ouvir os discos do meu pai, mas fui muito preguiçoso”, recorda.

“Quando parti o braço, tive de exercitar a mão e comecei a interessar-me mais pela música.” Nesse primeiro momento do álbum, o músico utiliza parte de um discurso de Ian MacKaye, conhecido pelo seu percurso à frente dos Minor Threat e Fugazi e associado ao movimento straight edge. “Apresentar-lhe assim uma cena eletrónica com a voz dele... Não fazia a mínima ideia de como ia reagir. Quando soube, por via de terceiros, que ele disse que se sentia lisonjeado e que eu podia usar essa parte de um discurso dele fiquei obviamente muito contente.” Além das vozes de Sequin (“participou nas apresentações ao vivo do álbum anterior e, desta vez, pensei ‘se colabora comigo, tem de ter uma música com ela a cantar’”) e MacKaye, também se ouvem as de Margarida Falcão (Vaarwell e Golden Slumbers), que canta em ‘Far Away Place’, e de Lazarusman, em ‘Searching for’ e ‘See Me’. “Admiro-o há anos e anos e nunca tinha tido coragem de o abordar. Enviei-lhe um e-mail a perguntar se gostava de colaborar e ele disse ‘sim, vamos embora’.”

O músico assume as grandes diferenças entre “On the Quiet” e “1975” (“era mais disperso, parecia uma manta de retalhos”), acrescentando que este novo disco “é muito mais realizado, já é mais um statement, mais completo, não é tão arbitrário”. Concordamos, subscrevemos e acrescentamos: “On the Quiet” transporta-nos para um universo inequivocamente pessoal, que nos faz sentir estarmos a assistir à experiência de um músico que encontrou a melhor forma de nos mostrar o que tem para comunicar ao mundo.