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Na intimidade

Este filme prova que a vida e a obra de Paula Rego formam uma unidade indissociável

O ano de 2017 tem sido fértil no que diz respeito a diálogos entre o cinema e as artes plásticas portuguesas: depois da estreia de um documentário sobre Artur do Cruzeiro Seixas (“As Cartas do Rei Artur”, de Cláudia Rita Oliveira), e da reposição de um outro sobre Mário Cesariny (“Autografia”, de Miguel Gonçalves Mendes), chega-nos agora um trabalho centrado na vida e na obra de Paula Rego. Quem o assina é o inglês Nick Willing, cuja carreira tem passado sobretudo pelo mundo dos telediscos e da televisão, mas que tem a particularidade de ser o mais novo dos três filhos da pintora. Como não poderia deixar de acontecer, a proximidade entre quem olha e quem é olhada irá condicionar, positivamente, o tom de um filme que, desde o início, se anuncia a si mesmo — através da voz off do seu realizador — como a tentativa levada a cabo por um filho no sentido de melhor tentar conhecer (e dar a conhecer) a sua mãe.

De modo a fazê-lo, Willing reconstituirá o percurso pessoal e artístico de Paula Rego de forma cronológica (desde a infância até ao presente), para compor um retrato tão completo quanto possível da biografada. Nesse processo, a primeira coisa que se nota é a maneira como a pintora — que sempre primou pela sua extrema discrição — arrisca expor-se às perguntas do seu filho, discorrendo sem rodeios sobre a sua vida privada. Mas, embora seja desarmante a frontalidade e a despretensão com que Paula Rego passa em revista as suas memórias (as das suas relações familiares, as dos anos em que frequentou a Slade School of Fine Art em Londres, as do Portugal salazarista...), isso não é o que mais nos interessa. O que mais nos interessa é, antes, o modo como Willing monta os elementos biográficos que recolhe com a produção da sua mãe, mostrando como os fantasmas e traumas dos quais ela nos fala (as várias gravidezes que interrompeu na sua juventude...) se materializaram nos trabalhos que foi concebendo ao longo das últimas décadas — como se, no seu caso, a vida e a obra formassem uma unidade indissociável.

Dir-se-á, talvez, que o filme de Willing não escapa (nem parece querer escapar) aos constrangimentos do formato ao qual escolheu adaptar-se, a saber: o do documentário televisivo. Com efeito, de um ponto de vista formal, o realizador limita-se a montar com competência um conjunto de materiais que, por norma, servem de base à construção dos documentários biográficos feitos para o pequeno ecrã (entrevistas com a biografada e com aqueles que com ela se foram cruzando; filmes caseiros; fotografias de família; imagens de arquivo...). Mas, felizmente, este olhar sobre Paula Rego comporta generosidade e intimidade suficientes para superar as limitações que lhe são impostas pela sua própria forma. E, no caso vertente, era isso o fundamental.