Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Haverá boas notícias?

“Triplicate” corresponde ao terceiro, quarto e quinto volumes da série dedicada à interpretação de clássicos do ‘Great American Songbook’

FOTO John Shearer

O novo disco de Bob Dylan “encena uma trajetória de vida que vai do tolamente absurdo ao profundamente sério, passando pelo ridículo e o grosseiro”

Quando, a 13 de outubro passado, a Academia Sueca atribuiu a Bob Dylan o Nobel da Literatura, foi necessário esperar quinze dias até que ele emitisse sinais de que tinha tido conhecimento da distinção e que, sim, estava disposto a aceitá-la (“Na verdade, algumas das minhas canções — ‘Blind Willie McTell’, ‘Ballad of Hollis Brown’, ‘Joey’, ‘A Hard Rain’s a-Gonna Fall’, ‘Hurricane’ e mais algumas — possuem, definitivamente, um valor Homérico”).

E, se não lhe fosse muito incómodo, passaria por Estocolmo, a 10 de dezembro, para o receber. Aconteceu, no entanto, que, por isto e por aquilo, acabou por não lhe dar jeito e, em seu lugar, enviou emissárias: Patti Smith (que meteu os pés pelas mãos em ‘A Hard Rain’s a-Gonna Fall’) e Azita Raji, embaixadora dos EUA na Suécia, encarregada de ler o discurso de aceitação no qual, declarando-se “presente em espírito”, primeiro, confessava nunca ter sonhado que tal prémio poderia alguma vez ser-lhe atribuído e, depois, estabelecia a comparação com Shakespeare que, tal como ele, em nenhum momento terá parado para se perguntar “se o que fazia era literatura”.

Por essa altura, o poeta planetariamente homenageado (e vilipendiado) tinha acabado de publicar, sucessivamente, dois álbuns sem uma única sílaba sua mas integralmente dedicados à interpretação de clássicos do ‘Great American Songbook’: “Shadows in the Night” (2015) e “Fallen Angels” (2016). Poderia (ingenuamente) supor-se que, pós-Nobel, o supremo Zimmerman contemplaria a hipótese de legitimar os galões académicos, oferecendo ao mundo nova e indiscutível prova da sua excelência literária. Afinal, aquilo que, na véspera do dia das mentiras — altura em que, por fim, aproveitando a circunstância de o concerto agendado para o Stockholm Waterfront Congress Centre lhe ficar em caminho, deu um pulinho a uma cerimónia privada, com a presença de 12 membros da Academia, em que lhe foram entregues medalha e diploma (o cheque de 891.000 dólares só o recebe depois de dar uma palestra até junho) — nos caiu no regaço foi “Triplicate”, terceiro, quarto e quinto volumes da série iniciada com “Shadows in the Night”.

Bastava pensar um pouco: alguém imaginaria seriamente que Robert Allen Zimmerman — aliás Bob Dylan, Elston Gunn, Tedham Porterhouse, Blind Boy Grunt, Robert Milkwood Thomas, Lucky Wilbury, Boo Wilbury, Sergei Petrov, Jack Frost e (em “Pat Garrett & Billy the Kid”)... Alias —, aos 75 anos, deixaria de fazer exatamente aquilo que lhe apetecesse, quando lhe apetecesse e como lhe apetecesse? Tinha, além de mais, um ótimo pretexto: de modo muito semelhante ao que sucedera com o seu “Self Portrait” (1970) — quase unanimemente esquartejado pela crítica —, em 1980, Frank Sinatra (intérprete da maioria das canções de “Shadows in the Night”, “Fallen Angels” e “Triplicate”) publicara “Trilogy: Past Present Future”, que seria alvo de reivindicações de “retirada imediata do mercado” por parte de fãs desiludidos. Prestar-lhe-ia, pois, uma homenagem implícita: dividido em três painéis (“Til the Sun Goes Down”, “Devil Dolls” e “Comin’ Home Late”), “Triplicate” — explica Dylan, no seu site, em extensa entrevista a Bill Flanagan — “encena uma trajetória de vida que vai do tolamente absurdo ao profundamente sério, passando pelo ridículo e o grosseiro, e, chegando ao limite, interroga-se se não há notícias boas. Não deveria haver notícias boas?...”

Atuando como um prisma através do qual faz desfilar e ilumina o panteão do cancioneiro norte-americano, o mesmo Dylan que, em “Love and Theft” (publicado a 11 de setembro de 2001), cantava “The future, for me, is already a thing of the past”, restabelece elos quebrados (“Embora não parecesse, o rock’n’roll era uma extensão da música das big bands de swing que eu ouvia antes de descobrir Elvis Presley. Mas o rock era de alta energia, surgido das trevas, uma arma cromada perigosa que explodia à velocidade da luz”) e termina, pela mão de Kern e Hammerstein, perplexo: “What is the good of me by myself? Why was I born? Why am I living? What do I get? What am I giving? Why do I want a thing I daren’t hope for? What can I hope for? I wish I knew.”

Triplicate

Bob Dylan

3 CD Columbia/Sony