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Fantasmas no corredor

As memórias de Massimo (Nicolò Cabras) a dançar com a mãe (Barbara Ronchi) em casa, nos anos 60, em “Sonhos Cor-de-Rosa”, de Bellocchio

A morte da mãe e a ferida que não fecha num filme complexo que Bellocchio não deixa resvalar para a lágrima

Há em “Sonhos Cor-de-Rosa” uma cena capital e terrível que, de algum modo, cristaliza o grande pânico e o grande corte de que fala o mais recente filme de Marco Bellocchio. É a cena do jogo de escondidas entre o pequeno Massimo e a mãe na grande casa de Turim onde habitam. É uma brincadeira que a astúcia da mãe e a ingenuidade do miúdo transformam num momento de estremecimento. Acontece que a mãe vai mudando de lugar de ocultação e, às tantas, Massimo começa a não achar graça ao facto de a procurar em vão.

Nós sentimos que ele teme que a mãe tenha desaparecido — e vemos o miúdo a implorar que apareça. A mãe não lhe faz logo a vontade, prolonga a angústia com um pingo de maldade. Convém dizer que, neste momento do filme, o espectador já sabe, de há muito, a morte da mãe e o trauma indelével que a tragédia deixou na criança — ou seja, o pânico do desaparecimento no jogo é, no interior da narrativa, muito mais que isso, é um remoer na ferida que o vero desaparecimento causou. Durante grande parte da cena a câmara está plantada no corredor da casa fugazmente atravessado por Massimo ou pela mãe, em trânsito do jogo que decorre em toda a casa.

O corredor, filmado, aliás, quase sempre do mesmo ponto de vista (a câmara numa ponta, a porta da rua ao fundo), é um dos protagonistas de “Sonhos Cor-de-Rosa”, já que presente em todas as idades que o filme atravessa. São preciosas e significantes, pelos sinais que deixam em nós, as suas mutações — de arrumação e também de luz, de povoamento, suponho que também de cromatismo, embora a decoração se mantenha, com o peso fantasmático que a passagem do tempo concede aos lugares. Essas imagens do corredor não são meros inserts de localização, pontuações de montagem, têm função narrativa e lastro dramático. São detalhes destes que permitem aferir a medida de um cineasta — Bellocchio é um dos maiores.

Em “Sonhos Cor-de-Rosa” ele adapta um romance autobiográfico de grande sucesso recente em Itália — “Fai bei sogni” de Massimo Gramellini, jornalista do “La Stampa” e atual subdiretor do “Corriere della sera” —, nele retornando ao tema das tensões no interior do espaço familiar que, na obra de Bellocchio, começou por ser sentido como lugar de produção de neuroses (“I pugni in tasca”, 1965) para, muito mais tarde, se tornar um complexo lugar onde o aconchego ganha peso, do extraordinário “L’ora di religione (Il sorriso di mia madre)”, em 2002, ao íntimo “Sorelle Mai”, em 2010.

É a história de um miúdo a quem a mãe morre muito cedo e que nunca consegue ultrapassar esse trauma. Dizem-lhe, em forma de mentira compassiva, que ela morreu de um ataque cardíaco fulminante, mas o filme indicia-nos toda uma outra coisa: esse peso de mentira (essa vontade de não saber, no adulto jornalista de grande notoriedade em que Massimo se torna?) é outro dos veios que correm por este filme de um autor que sempre soube — e como! — que a verdade (sobre a família, o sexo, a política, a religião, o amor) fere, mas que não há outro modo decente de viver senão enfrentá-la. Bellocchio organiza-o em forma de mosaico, interpolando cenas colhidas em três fases da vida de Massimo (em criança, interpretado por Nicolò Cabras, em adolescente por Dario Dal Pero e em adulto por Valerio Mastandrea) e ligando-as como uma memória que flui, por associações, num magnífico trabalho de construção dramática.

Nele se vão inscrever sinais de uma vida que não é só individual, onde há factos (como a queda do avião que vitimou toda a equipa do Torino, no regresso de Lisboa, em 1949) e há instituições (as cenas que mostram a presença da Igreja no quotidiano de Massimo), protagonistas (o milionário jogador da alta finança que se suicida quando a polícia o vai buscar), toda uma época italiana que desliza, lá por baixo, como um rumor que as cenas de televisão materializam e a que as ficções — também na televisão — dão lastro imaginário.